Crítica | Mulher-Maravilha

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Metade de nós cresceu inspirando-se na astúcia do Batman, no bom-mocismo do Super-Homem ou na molecagem do Homem-Aranha e pôde assistir, nas telonas, nada menos do que vinte produções estreladas por esses famosos heróis, e isto porque nem enumerei todos os outros que a Marvel apresentou como parte do universo compartilhado do estúdio. Por outro lado, a outra metade de nós amargou a ausência de representatividade nos cinemas e precisou aceitar torcer por aqueles mesmos heróis do sexo oposto. Tudo isto apesar de haver heroínas tão e até mais fortes que os seus pares nos quadrinhos, deixando aberta a lacuna que Mulher-Maravilha preenche com graça e segurança e que faz esta produção ser não apenas importante, mas necessária por infundir valores de valentina, determinação e bondade em garotas que, enfim, podem ter uma heroína para chamar de sua.

Em desenvolvimento há mais de duas décadas, quando seria dirigido por Ivan Reitman (de Os Caça Fantasmas), a produção roteirizada pelo estreante Allan Heinberg e dirigida por Patty Jenkins (de Monster) transporta-se à ilha de Temiscira, onde habitam as amazonas da mitologia grega, lideradas pela rainha Hipólita (Nielsen), irmã da general Antíope (Wright) e mãe de Diana (Gadot), a filha de Zeus, embora ela ainda desconheça esta herança. A existência idílica, porém em constante estado de alerta, termina quando, na iminência da assinatura do armistício da primeira guerra mundial, o espião Steve (Pine) acidenta-se e seu avião caí na ilha e, junto a ele, o temor da investida de Ares, o deus da guerra, na figura de soldados alemães. Como consequência, Diana vê-se obrigada a aceitar seu destino, e abandona a ilha acompanhada de Steve para combater na frente de homens para impedir que a Dra. Maru (Anaya) e o Capitão Ludendorff (Huston) desenvolvam a arma química definitiva.

Debaixo do manto da tradicional história de origem, reside a verdadeira intenção de Patty Jenkins: a de desrespeitar e derrubar o status quo e as convenções machistas da época, muitos dos quais ainda perduram na sociedade atual. Isto é feito contínua, oportuna e certeiramente através de uma gama de recursos narrativos que variam do humor cínico (Diana associa à escravidão o secretariado, então a profissão habitual de mulheres solteiras, ao passo que as divertidas menções à sexualidade vêm no sentido de escancarar toda a imaturidade masculina em face a tabus e à segurança feminina) à pura simbologia (Diana derrota um franco-atirador e destrói, no processo, a cúpula de uma igreja, mesma entidade que reforça o preconceito de gênero, enquanto a química Maru é associada instantaneamente à bruxaria que, antigamente, levava mulheres à fogueira).

Noutras vezes, contudo, o ataque ao preconceito é direto, frontal, como na melhor cena da narrativa em que Diana ergue-se diante de homens acovardados e entrincheirados, contra aqueles adversários implacáveis que disparam incessantemente contra ela, embora incapazes de fazê-la recuar. Equivale a dizer que, mesmo que os ‘bons homens’ escondam-se e os ‘maus’ persistam em ataques de ódio insensato, a mulher não tem opção senão de caminhar para frente (progressismo) e lutar por direitos negados e pelo que acredita. E este contexto é propício para que a narrativa divirta-se em objetificar o corpo masculino (por que não poderia, se homens têm feito isto desde que o mundo é redondo?), e o faz com malícia para insinuar a excitação que o momento proporciona. Por sua vez, muito embora a Mulher-Maravilha seja a Gal Gadot (uou!), a beleza desta é somente coadjuvante do leque de atributos que ela tem a oferecer.

Antes de falar sobre a estrela da produção, no entanto, é necessário enfatizar que Mulher-Maravilha tropeça em aspectos particulares: as cenas de ação abusam da câmera lenta, sem que esta desempenhe função narrativa específica, senão o exercício de estilo para produzir expressões de interjeição no público e mascarar a inabilidade da diretora na decupagem destas sequências, ao passo que o roteiro flerta com a ideia de regressar ao lugar-comum sempre que pode, e não se espante se o vilão declamar seu plano inteiro durante a cena final, o ponto mais baixo da narrativa. Aliás, para um cenário de guerra e horror retratado pelas cores dessaturadas e desbotadas da fotografia Matthew Jensen – por que tenho sentimentos de amor e ódio, uma vez que se a paleta é ideal até para destacar a armadura da Mulher-Maravilha, desagrada-me, porém, assistir a aventuras fantásticas sem a vivacidade que as cores podem proporcionar –, decepciona que as consequências não se façam vistas, o que ocorre após um ataque tóxico cujos mortos permanecem escondidos sob a nuvem residual exceto para Diana. Por fim, o que passava na cabeça de Patty Jenkins ao revelar, no flashback mais descartável do ano, o conteúdo que Steve havia dito a Diana e esta não compreendera quando o segredo era, a meu ver, a melhor opção narrativa?

Então chego a Gal Gadot, que aproveita intensamente esta que é a melhor oportunidade da sua carreira, pois, se em Batman v Superman sua presença era um mero fetiche narrativo, incrivelmente eficiente, vale destacar, a isto não se resume sua performance desta vez. Carismática à perfeição e comprometida com a personagem, Gal Gadot confere a mesma autenticidade diante da dor e do luto quanto de um bebê fofo, saboreando a iminência da batalha, a garra que inspira e o temor que provoca em quem a subestima. Ela é o ‘homem’ que pode, como bem afirma, bastante generosa, inclusive, a ponto de permitir que Chris Pine também surja como destaque na narrativa. Já Robin Wright e Connie Nielsen exibem a firmeza sem recair no maniqueísmo introduzido por Danny Huston e David Thewlis.

Mas o que torna a Mulher-Maravilha tão especial não é apenas a força da narrativa nem a excelente trilha sonora de Rupert Gregson-Williams, cujo tema central deve ser a melhor coisa produzida no gênero desde o braaam de Hans Zimmer, mas a maneira com que inspira homens e mulheres a serem pessoas melhores, por razões distintas; isto está presente nesta adaptação indispensável e empolgante que, se não for a “ponte para um melhor entendimento entre todos os homens”, que ao menos não seja também uma ilha, mas a primeira dentre muitas heroínas destinadas ao protagonismo que lhes é devido.


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