Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

spiderman

2017 tem sido um ano atípico e fabuloso para as produções de super-heróis: Logan, Mulher-Maravilha, Guardiões da Galáxia Vol. 2 e Lego Batman, todos diferentes uns dos outros em atmosfera, tom, estilo e compromisso, e, apesar disso, igualmente competentes em discutir os temas à mesa e, quanto aos últimos, em divertir de maneira frenética e descompromissada. A maré está tão boa para o gênero que mesmo uma produção escrita a 12 mãos (para bom entendedor, 6 roteiristas) mantém o alto nível de qualidade dos filmes que citei, resgatando a jovialidade e o bom humor característicos do personagem mais querido das histórias em quadrinhos, sem abrir mão de ter, por debaixo dos panos, uma discussão universal (ou melhor, duas) com as quais podemos nos relacionar.

A trama de Homem-Aranha: De Volta ao Lar leva-nos ao Queens, bairro de Nova Iorque onde o adolescente Peter Parker (Holland) frequenta os últimos anos do ensino médio pluri-étnico com a cabeça extasiada, bem acima das nuvens com a expectativa de ser o mais novo membro dos Vingadores. Mas antes de sair do banco de reservas e participar do time principal, o garoto deve amadurecer, acumular bagagem e experiência e ajudar a comunidade, ou ao menos é isto o que deseja Tony Stark (Downey Jr.), que o apadrinha. A oportunidade de Peter provar que pode ser mais do que o amigão da vizinhança surge após descobrir que Adrian Toomes (Keaton) tem roubado, sistematicamente, tecnologia alienígena para contrabandear armamentos perigosos, inclusive, tendo produzido as asas de abutre com que realiza suas façanhas criminosas. Incapaz de alertar Stark ou Happy (Favreau), Peter resolve agir por conta própria sem medir as consequências de suas ações.

Prático em não repetir, pela terceira vez, a mesma história de origem que conhecemos, nem em introduzir os pontos e personagens centrais da mitologia do super-herói, tais como Tio Ben, por quem a Tia May (Tomei) permanece em luto e cujo ensinamento nem precisa mais declamado pois, inconscientemente, guia a narrativa e as decisões do herói, o roteiro trata Peter Parker como o típico adolescente: apreensivo e inquieto, imaturo o bastante para ainda não ser o adulto em que sonha se tornar, porém mais distante da criança cuja responsabilidade acabava no castigo. E a precocidade com que Peter assumiu o alter-ego do Homem-Aranha está bem representada na forma casual com que reage ao comentário aflito de seu entusiasmado melhor-amigo Ned (Batalon), que apenas destaca o que deveria ser óbvio: que ele poderia ter morrido.

Essa idealização do mundo adulto – repare na pequena presença deles na narrativa – e o desperdício consequente dos bons anos de juventude, em que quebrar regras era o equivalente a banhar de piscina às escondidas e matar aula como em Curtindo a Vida Adoidado, são satisfatoriamente retratados por Jon Watts, cujo trabalho anterior, A Viatura, apresentava duas crianças cuja irresponsabilidade cobrava um preço mais caro do que poderiam imaginar. Não deixa de respingar na narrativa, sobretudo depois de Peter enfrentar a consequência de suas ações contra um vilão atípico: um “cidadão do bem” empurrado à criminalidade pela ação do Governo aliado às grandes corporações, e embora eu não vá defender quem escolheu o crime em troca da moral, são compreensíveis o amargos que sente e a justificativa que repete para si mesmo para não se engasgar na própria obsessão.

Ao mesmo tempo, o relacionamento entre Peter e Tony, marcado pela distância deste e pela tentativa daquele em agradá-lo, cria uma funcional dinâmica pai / filho ou mestre / aprendiz que supre a lacuna da figura paterna de um lado na mesma proporção com que amacia o ego de outro. E Tom Holland, tendo surpreendido a nós todos com sua versão do Homem-Aranha de Capitão América: Guerra Civil, agora pode construir contornos mais humanos a este rapaz movido à adrenalina, mas sem a disciplina ou a segurança para controlá-la em seu favor, equilibrando-se entre o humor ausente, ao menos até certo grau, às versões de Tobey Maguire e principalmente Andrew Garfield, e os dramas frutos da escolha de ser um herói. A propósito, embora o Homem-Aranha esteja integrado ao universo da Marvel nos cinemas, a aventura distancia-se o quanto pode para poder funcionar solo, inclusive porque quem detém os direitos do personagem é a Sony.

Mas há senões. Se a música-tema clássica que abre os créditos iniciais prometeria uma trilha-sonora à altura do que o personagem, a composição de Michael Giacchino é genérica e indistinta dos demais trabalhos da Marvel. Por outro lado, por mais inesperada que seja a reviravolta da trama, ela serve apenas aos próprios fins de surpreender, e não para estabelecer ângulos mais oblíquos ao embate entre o Homem-Aranha e Abutre, cuja luta final é decepcionante como tem sido praxe no gênero. Por fim, incomoda-me a inofensividade e a aparente ausência de perdas humanas nos eventos centrais da narrativa, e a ideia de que uma balsa rasgada no meio provocasse apenas uma gag sobre seu herói favorito soa meramente insultante.

De outro turno, o design de produção está de parabéns por trincar a tela do celular de Peter, assemelhando-o a uma teia, enquanto os figurinos acertam na jaqueta de couro de aviador com um detalhe na gola que confere o aspecto de abutre a Toomis, iluminado por cores da fotografia de Salvatore Totini que permitem entender seu raciocínio antes mesmo de ele externalizá-lo (a cena no semáforo é reveladora na alternância entre vermelho e verde).

Distante dos arranha-céus típicos de Nova Iorque e mais pé no chão do que você poderia esperar, este reboot-ish reencontra um dos heróis mais icônicos da Marvel no mesmo modo descontraído e irreverente com que fora imaginado nas HQs, em uma aventura que, se não é a melhor (Homem-Aranha 2 permanece um de meus filmes de super-heróis favorito), é boa o suficiente para que aguardemos com ansiedade seu próximo capítulo.

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