Crítica | A Torre Negra

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Muito antes de J. K. Rowling arrebatar 1 bilhão de dólares com a série de livros de Harry Potter, o prolífico escritor Stephen King havia construído um universo que, a tirar da quantidade de informações existentes neste “A Torre Negra”, aparenta ser fascinante em sua riqueza e simbologia. Apenas aparenta, pois embora estejam nítidos na narrativa os elementos característicos da obra literária do escritor (as crianças, a paranoia, os monstros), o universo cinematográfico não faz a menor ideia de como trabalhá-los em uma adaptação minimamente coerente, na esperança de que entulhar a trama com duas peles e demônios de casa ou menções ao Rei Rubro, ao brilho e até a Excalibur seria suficiente para atrair os fãs da série e conquistar adeptos. Ledo engano.

Com quatro roteiristas espremendo-se para condensar as informações dos livros na trama, a história, antes de mais nada, cuida de explicar do que se trata a torre do título: o centro de nosso universo, em torna de qual estão inscritas realidades paralelas, protegidas de demônios que querem invadi-las, por motivos que ninguém se preocupa em explicar. Os Pistoleiros, dos quais Roland (Elba) é o único sobrevivente, juraram proteger a torre dos ataques insistentes do poderosíssimo Homem de Preto (McConaughey), a cuja mágica Roland é imune, outra informação sonegada ao espectador. Ciente de que a torre é vulnerável apenas aos pensamentos de crianças psíquicas, Walter (o nome ordinário do Homem de Preto) sequestra-as do mundo-chave para usá-las em um maquinário que remete ao sugador de gritos de “Monstros S. A.”, até descobrir que Jake (Taylor) pode ser capaz de cumprir essa missão sozinho.

Mais do que afobado, confuso e atrapalhado, o diretor Nikolaj Arcel está muitas dimensões além de sua zona de conforto, e não é o fato de haver sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo dinamarquês “O Amante da Rainha” e comandado a adaptação de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” que o capacita a preencher os sapatos que seriam, originalmente, de J. J. Abrams ou Ron Howard. Sua dificuldade está em capturar a alma da obra de Stephen King e transportá-la às telas com a personalidade e criatividade que dela se esperam. Mas entre mundos desinteressantes que parecem haver saído do livro de desenhos de uma criança do ensino fundamental, a narrativa movimenta-se em um ritmo incoerente, típico de produções remendadas em pós-produção depois de reações negativas do público-teste, tratando de inserir dramas superficiais, solucionados de modo idêntico, em vez de se aprofundar nos elementos-centrais da obra de Stephen King.

Esses, a propósito, são meras desculpas para efeitos especiais eficientes mas corriqueiros, a ação similar a de “O Procurado” em que disparos que fazem curva são trocados por balas que ricocheteiam umas nas outras ou disparos feitos com o coração, e a pirotecnia que não substitui a chama que normalmente produzem produções honestas. Nem mesmo os alívios cômicos funcionam, e as sequências dentro da cozinha do restaurante ou na emergência de um hospital somente salientam a incoerência de uma narrativa desconhecedora do próprio tom.

Isso fica bastante claro ao se comparar as atuações de Idris Elba e Matthew McConaughey. Enquanto este interpreta uma versão alternativa da sua persona cinematográfica, mais displicentemente do que frio, aquele incorpora a personalidade bruta, introspectiva e desiludida do faroeste spaghetti. Entre eles, Tom Taylor repete os trejeitos da composição do jovem cujos dons são confundidos por doenças psíquicas oriundas de um trama do passado: as olheiras, a postura curvada, o bullying etc. Repare que a trajetória do garoto tinha tudo para ser interessante, considerando os eventos que a trama reserva para ele, apesar de tudo se encerrar na busca por uma figura paterna, que, tão logo encontrada, dissipa até o luto recente pela perda de um ente querido.

Produzida por pessoas que cochilaram enquanto liam os livros da série de Stephen King, A Torre Negra não apenas decepciona como obra de arte, também enterra sob seus escombros quaisquer possibilidades futuras de se liberar o potencial do universo criado por aquele artesão literário.

Mas quem sabe o Netflix não cuida de resolver este problema?

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