Crítica | Bingo – O Rei das Manhãs

Bingo

A intenção de biografias cinematográficas não é a de retratar todos os capítulos da vida do protagonista, mesmo porque é impossível que 2, 3 ou 4 horas de narrativa sejam suficientes para abordar, com a profundidade necessária, meses, anos ou décadas de quem emocionou, conquistou, assombrou ou chocou a sociedade. A literatura ou mesmo as séries de televisão são mídias mais adequadas a esse propósito, ao passo que ao cinema cabe extrair, a partir de momentos específicos e delimitados no tempo, a personalidade do biografado. E “Bingo – O Rei das Manhãs” faz isto muitíssimo bem ao apresentar com pompa e intensidade a trajetória de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo.

Ironicamente, o roteiro é assinado pelo mesmo Luiz Bolognesi de “Elis”, biografia cujo maior pecado é retratar muitos episódios da vida da cantora com superficialidade, pressa e sem o devido respeito a sua memória. Felizmente, isso não acontece na típica trama sobre a ascensão do talentoso Augusto Mendes (Brichta) e sua queda brutal, provocada, sobretudo, pelo uso indiscriminado de drogas. Ator de sucesso em pornochanchadas, porém rejeitado na Mundial (cof cof Globo), Augusto esbarra na chance de sua vida no teste para interpretar o palhaço Bingo, e o conquista com a safadeza, o duplo sentido e a presença de espírito que o fariam ser sucesso das manhãs.

Mas um artista não sobrevive apenas de improvisação, e a narrativa comandada por Daniel Rezenda (que não foi o editor, e sim o montador de “Tropa de Elite”, um erro de nomenclatura comumente repetido por espectadores, porém inadmissível vindo da equipe de publicidade) também cuida de transformar Augusto em um sujeito que persegue o êxito. Assim, as sequências em que visita Aparício (o saudoso Montagner), para aprender sobre o ofício de palhaço e estudar sobre seu personagem, somam à iniciativa e à participação decisiva a frente do programa, modificando o roteiro gringo quando observa que este é incapaz de se comunicar com as crianças brasileiras.

Com esse cuidado, a narrativa trata de estabelecer Augusto, o homem, como um sujeito sobre uma gangorra: se por um lado, pode recostar a cabeça no travesseiro ciente de que é um dos apresentadores mais bem sucedidos da televisão dos anos oitenta, por outro, não pode usufruir o reconhecimento que anda de mãos dadas com a fama. Assim, a premiação por seu trabalho desponta como um fardo ao pô-lo ao lado de pessoas vestidas em traje de gala enquanto ele protege, debaixo de pesada maquiagem, a identidade secreta de Bingo. A cobrança também sobra para seu filho Gabriel (Martins), proibido de contar aos colegas de quem é a cara que eles carregam nas lancheiras.

O relacionamento entre pai e filho, a propósito, é um dos pilares da narrativa, e assim que Augusto populariza o beijo no nariz, antes exclusivo de Gabriel, ele o afasta e abraça todas as outras crianças do país. Neste ponto, porém, Daniel comete excessos ao ilustrar o óbvio em cenas clichês, como aquela em que Augusto esquece a data de aniversário do filho, em que parece, apenas parece, desconfiar da força dramática de seu personagem. De maneira parecida, seu relacionamento com Lúcia (Leal) tropeça na mesmice, e por mais natural que seja a tentativa de sedução dele e as negativas dela, a tentativa de romance ocupa espaço em excesso na narrativa. E, por mais que ache Leandra uma atriz talentosa, nem mesmo ela consegue dar vida a uma personagem que come salada de frutas no jantar para mostrar quão casta e careta ela é.

Já Vladimir Brichta emprega carisma, doçura e sacanagem para construir um personagem essencialmente trágico, que conquistou o sucesso, mas não a mesma fama de sua mãe (Mendes), antes de ser relegada ao papel de jurada em programa de calouros, e por quem nutre uma paixão obviamente edipana. Na pele de Boz… digo, Bingo, Brichta incendeia-se e abraça o politicamente incorreto, e prova isto no teste para o personagem – antecedido, claro, da pausa para suspense – ou na primeira ida ao estúdio – em um plano sem cortes muito bem encenado por Daniel Rezende -, assim como na divertida e, por que não, maliciosa chamada à música “Serão Extra”.

Tecnicamente, “Bingo” também é admirável: a fotografia de Lula Carvalho mergulha a atmosfera em cores vívidas, sobretudo o vermelho (da paixão), o verde (do dinheiro) e o azul (detrás das câmeras), ao passo que as luzes brilham mais por causa do soft focus, em um casamento perfeito com o design de produção de Cássio Amarante (repare como, em certo instante, não só a paleta de cores investe no vermelho, como também a luz de fundo do quadro da atriz Ana Lúcia, a rosa solitária no centro da mesa e a mochila de Gabriel, criando uma lógica tão bela quanto funcional). Já a montagem de Márcio Hashimoto investe no ritmo com fusões e raccords, os quais, somados com a decupagem de Daniel Rezende, conferem fluidez à narrativa.

Mesmo com pequenas ressalvas, a simbologia mais marcante de “Bingo” é mesmo aquela em que Augusto, embriagado, encarando a imagem do seu alter ego na televisão, desfere um soco na tela, e o poder deste momento e de suas consequências atesta o talento de seu realizador que, com mais experiência, tem tudo para ser um dos grandes diretores do país.


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3 Comments on “Crítica | Bingo – O Rei das Manhãs”

  1. Que crítica incrível! Adorei, muito bem escrita! Assisti ao filme sábado passado e o enxerguei dessa mesma forma, mas não saberia expressar tão bem como li aqui! Parabéns!

    Abraços!

  2. Pingback: Los latinos al Óscar 2018: Brasil | Premios Óscar Latinos

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