Crítica | Como Nossos Pais

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A protagonista de “Como Nossos Pais”, Rosa, é o retrato de dezenas de milhões de brasileiras, as quais, diariamente, realizam um malabarismo sobre-humano para conciliar a vida familiar, profissional, íntima e pessoal, sem ousar descuidar de cumprir seu papel com a perfeição cobrada por todos a seu redor, mas sem usufruir os louros do reconhecimento. A Rosa, assim como tantas outras, é igual a uma panela esquecida no fogo e prestes a entrar em ebulição: seus sentimentos eventualmente transbordarão através da fresta estreita, deixada pela tampa que a reprimia, e apenas uma atriz com a envergadura dramática de Maria Ribeiro para, no mesmo ano em que a “Mulher-Maravilha” da fantasia quebrou recordes e paradigmas, dar vida a sua versão do mundo real.

Dirigida por Laís Bodanzky (do doloroso “Bicho de Sete Cabeças” e do nostálgico “As Melhores Coisas do Mundo“), que escreveu o roteiro em companhia de Luiz Bolognesi (de “Bingo – O Rei das Manhãs“), a trama contextualiza sua Rosa dentro de um microuniverso composto por marido (Vilhena), filhas (Prates e Valverde), mãe (Abujamra), pai (Mautner), além de, esporadicamente, a família do irmão, os colegas de trabalho e Pedro (Rocha), com quem flerta até o sinal amarelo acender-se. Ela se dedica, em graus diferentes, a todos, mas negligencia sua própria paixão (a dramaturgia) e os sentimentos que deveriam incendiá-la em busca da felicidade desejada.

O primeiro baque narrativo acontece depois que a mãe, em um almoço de família, confessa que seu pai biológico não é o homem que a criou, mas sim um político do alto-escalão com quem tivera um caso durante uma viagem à Cuba. Essa dose de sinceridade desencadeia questionamentos sobre a própria identidade, afora somar com a recente perda do emprego, a possível traição do marido, a criação das filhas e as dificuldades financeiras do pai. Não é a toa que, durante parte da produção, Rosa é enquadrada nos cantos da tela, quando não com parte do rosto “cortada”, de modo a sugerir, certeiramente, a incompletude e o desequilíbrio provocados após tantas notícias com as quais ela sequer sabe lidar. Não existe manual de instrução para esses momentos, nem basta o desejo de acertar, ela precisa se reinventar.

Maria Ribeiro, vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Gramado, um dos seis prêmios da produção, encarna Rosa com mais intensidade e autenticidade à medida que vai se desfazendo do ideário da perfeição, inspirando-nos, no processo, com a honestidade e o engajamento que existem em seus olhares, gestos e palavras. Basta comparar a cena inicial, quando mal consegue se defender da mãe, balbuciando palavras amargas que sequer escapam da boca, enquanto mantém-se atônita e encurralada, com o instante em que confronta o marido, suplicando-lhe, às lágrimas, por mais honestidade, não com o desejo de condená-lo, e sim de iniciar a reconstrução da ponta que existia entre eles. E Maria oferece uma daquelas atuações mágicas, repleta de ricos detalhes, capaz de nos transportar para dentro do coração de Rosa.

Contrariamente, a direção de Laís Bodanzky é sutil e quase transparente, evitando chamar a atenção para si e existindo apenas em função de Rosa. É a melhor decisão, sem dúvida. Em função disso, a montagem de Rodrigo Menecucci é discreta, apostando em cortes secos que conferem o realismo exigido pela narrativa (e pela rotina de Rosa), construindo, ainda, um simbolismo eficiente ao justapor duas cenas de sexo em tempos distintos. Já a trilha sonora incidental insere a primeira canção no momento em que Rosa, feliz, liberta-se das amarras sociais impostas à mulher, logo após pedalar com Pedro, ao passo que a mixagem de som emprega os sons urbanos como sinônimo da agitação interna de Rosa, contrapondo-os com aqueles mais bucólicos, à medida que começa a entrar em paz e se reaproximar da mãe. Aliás, não falar de Clarisse Abujamra seria um crime, já que a atriz encontra na aparente rispidez sentimental o atalho para expressar sentimentos e evitar os rodeios que muitos julgariam necessários. Já Jorge Mautner está divertidíssimo em uma atuação arlequina, brincalhona e poética que amacia a aspereza emocional da filha. Por fim, Paulo Vilhena incorpora bem o papel do marido que parece fugir das responsabilidades familiares, sem que isto diminua o afeto que sente pelas filhas e por Rosa.

Apesar disso, não basta esse apreço para retirar, dos ombros de Rosa, as responsabilidades despejadas pela sociedade, as quais, descontadas as gerações, são similares às que sua mãe suportou e que suas filhas suportarão, conferindo sentido ao título tirado da canção eternizada na voz de Elis Regina. Afinal, por mais diferentes que sejam, essas mulheres são iguais no desejo incontornável de serem felizes, tanto faz se fumando um cigarro, andando de bicicleta para o colégio ou sendo honesta, pela primeira vez em muito tempo, consigo mesma.


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