Crítica | O Castelo de Vidro

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Autobiografias permitem exorcizar os fantasmas do baú da memória apenas usando caneta, papel e generosidade em compartilhar a sua vida e a dos seus. No caso de Jeannette Walls, a esta missão, acrescente a de expressar gratidão póstuma ao pai através de palavras duras e agridoces de quem aprendeu a aceitá-lo da maneira que era, sem duvidar de seu amor. Isso porque não deve ser tarefa fácil confessar a milhões de leitores (agora, de espectadores) que os pais catavam alimentos na lixeira em certo momento de sua vida ou o quase-estupro que sofrera em decorrência da negligência e conivência paterna. Admiro Jeannette por isso, ainda que esta adaptação de O Castelo de Vidro não seja nada além do que um dramalhão, no sentido pejorativo, por melhor realizado e atuado que seja.

Estruturado em momentos temporais distintos, o roteiro adaptado por Destin Daniel Cretton (de “Temporário 12”, que rendeu notoriedade a Brie Larson) e Andrew Lanham (“A Cabana”) parte de uma experiência ao estilo “Capitão Fantástico”, em que Rex (Harrelson), Rose (Watts) e seus quatro filhos aprendem não dentro das salas de aula, mas vivenciado experiências. A verdade é que Rex não está nesta vida porque a deseja, como era o caso de Viggo Mortensen naquela produção, mas por um histórico de abuso e pobreza familiar que escalaram com o vício em álcool e a irresponsabilidade paterna e trabalhista. As memórias deste período são exumadas por Jeannette (Larson), mais de uma década após ocorrerem, às vésperas do seu casamento com David (Greenfield), um analista financeiro engomado que Rex socaria na cara se tivesse a oportunidade.

Essa história é transportada à narrativa através de flashbacks introduzidos por elipses elegantes na montagem de Nat Sanders: raccords que relacionam, em planos gêmeos, as idas e vindas no tempo, através de movimentos corporais de Jeannette (o girar de sua cabeça no carro) ou os eventos de que participa (o abrir e fechar das portas de um caminhão de mudança). A fluidez com que passado e presente se conectam é o elemento de que mais gostei, pois carrega a ideia de identidade e indissolubilidade. A postura de Jeannette alterou à medida que vivenciou sua família disfuncional, o cinismo contaminou a inocência, porém em nada a personalidade combativa se modificou, e Charles Dickens já dizia, em “Grandes Esperanças”, que nós somos quem nós somos, pessoas não mudam.

Rex e Jeannette são invariavelmente os mesmos do início até o fim. O que altera é a percepção dela acerca dele e de si própria. A infância abafava os traços turvos paternos que se tornariam mais contundentes não apenas pelo acúmulo de frustrações, mas porque ela não reparava neles antes, ocupada demais com as aventuras proporcionadas. Ao carregar o lixo para fora de casa, podemos ouvir o tilintar de garrafas e prever o vício do pai, antes de ele se tornar perigoso para a família. Woody Harrelson, aliás, merece elogios ao adaptar sua jeitão sulista expansivo e irreverente à Rex, construindo um ser humano complexo e ainda complexado que, mesmo sem exibir a maturidade exigida para sustentar uma família, ama-a de sua própria forma. Falta-lhe, porém, amor próprio, o que compensa com o modo jocoso com que critica as profissões de seu prole (tenho um filho que trabalha na Gestapo e uma filha que escreve fofocas).

Por outro lado, Brie Larson aceita um papel ingrato, já que passa boa parte da narrativa com a cara emburrada, fitando o vazio, procurando respostas onde não as têm. Seu figurino, curiosamente, oferece mais informações sobre ela, e note como as roupas claras são substituídas por roupas escuras depois de um evento importante em sua vida. Já Naomi Watts também tem pouco a fazer senão ser o ponto neutro, uma espécie de Suíça emocional que intermedeia as conversas reconciliatórias entre Rex e Jeannette.

Mas sabe por que é O Castelo de Vidro é um dramalhão? Não é porque convida ao choro ao retratar o momento inevitável em que Jeannette descobrirá que tem mais de Rex dentro de si do que desejaria, mas a forma com que isto acontece. O terceiro ato da narrativa entrega-se ao que posso definir como uma trapaça dramática indesculpável e piegas em que, depois de retratar abusos, termina por ressuscitar os momentos em que Rex foi um bom pai: lições de moral, diálogos ao redor da fogueira, a coleção de recortes de jornais etc. Tudo para que o espectador derramasse meia dúzia de lágrimas, sem se atentar de que essas memórias sempre existiram, apenas foram montadas ou complementadas no final, como a maneira que o diretor achou de se despedir em bom tom.

Uma decisão que mina as melhores intenções desse drama comovente sobre pais e filhos.


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