Crítica | O Destino de uma Nação

O Destino de uma Nação

Múltiplas personificações do Primeiro-Ministro Winston Churchill desaguaram nas mídias cinematográfica e televisiva em cerca de um ano: da solene performance de John Lithgow na 1ª temporada de The Crown, por que recebeu o Emmy, já enfatizando o seu segundo mandato, à composição hesitante e receosa de Brian Cox em Churchill, na iminência do desembarque das tropas nas praias da Normandia, evento que marcou o chamado Dia “D”, da atuação de Michael Gambon no telefilme Churchill’s Secret até à caricatura bolada por Gary Oldman neste O Destino de uma Nação, pelo qual deverá receber o Oscar da categoria mais como prêmio por sua carreira e em função da escassez de atuações marcantes neste ano do que, propriamente dito, por conta desta atrapalhada narrativa biográfica.

A trama se inicia em 1940, justo antes de Neville Chamberlain (Pickup) renunciar ao cargo de Primeiro-Ministro, enfraquecido pelo câncer e desacreditado pelos partidos da base. O posto precisava ser preenchido imediatamente, mas a recusa de Halifax (Dillane, facilmente confundível com Mark Rylance), empurra a responsabilidade para Churchill, malvisto por ambos os partidos e até pelo Rei George (Mendelsohn, revivendo, com insegurança e palidez inesperadas, o mesmo monarca por que Colin Firth recebeu o Oscar). Mesmo assim, por razões que a narrativa falha em explicitar com convicção e clareza, Churchill é “presenteado” com o cargo. O motivo para tanta repulsa e ojeriza é anunciado visualmente a partir de elementos plantados, sem a menor intenção de ser sutil, pelo diretor Joe Wright (de Desejo e ReparaçãoOrgulho e PreconceitoAnna Karenina): o assento vago no Parlamento, o café da manhã farto, o jornal meticulosamente passado no ferro e o charuto, aceso pela chama artificialmente rubra que introduz o personagem, enquanto entreouvimos sua fala eloquente, porém atropelada e pastosa.

É possível admirar o estadista por sua coragem e ousadia contra o poderio nazista, que se espalhava na Europa feito um tumor maligno, e ainda assim oferecer ressalvas à narrativa de Wright, indeciso entre o drama biográfico teatralizado e o humor cartunesco, e tão mesmerizado pela persona de Churchill que enxerga, na maioria das vezes, somente o que havia de grotesco nele. Esta abordagem prejudica a urgência dramática havida naquele período da história – lembre-se que 300 mil soldados estavam encurralados em Dunquerque -, revelado nas fontes garrafais que marcam as elipses, e cuja passagem de dias é feita ao som de badalos. Ora, a escassez do tempo é preciosa a ponto de a mixagem de som retratá-la através de um desenho de som meticuloso, que transforma o gabinete de guerra em um antro onde se escutam, ininterruptamente, os sons desenfreados nas máquinas de escrever, ao passo que a pressa é enfatizada nos golpes pesados das solas de sapatos. Esse trabalho é comprometido porque os personagens parecem estar em uma sintonia diversa, o que também diminui o envolvimento com a figura humana de Churchill.

Gary Oldman abraça a caricatura sem oferecer resistência, transportando o seu habitual overacting ao personagem, o que significa dizer que seus gritos cuspidos e balbuciados, similares a disparos de metralhadora que ricocheteiam entre seus lábios, beiram o incompreensível. Embora seja divertido ouvi-lo soltar a voz a plenos pulmões, o ator tem imensa dificuldade em atuar soterrado debaixo de uma maquiagem sufocante que mal lhe deixa movimentar os músculos do rosto, um trabalho parecido com o que transformou Anthony Hopkins em Alfred Hitchcock. Sua única ferramenta está na forma com que inclina a cabeça para expor a fraqueza que rejeita e no olhar, e este revela incontestavelmente o dilema de seu personagem. Enquanto isto, os coadjuvantes tem a tarefa, ao menos conceitual, de proporcionar alívio e abrigo das pressões políticas, mas isto não funciona na prática dada o descaso com que são construídos. De  um lado, Kristin Scott Thomas empalidece diante da versão de Clementine de Miranda Richardson, do outro, Lily James não pode acrescentar nada à garota ingênua prostrada diante de um monumento histórico, já que o roteiro nem a enxerga como personagem, e sim como a representação, na narrativa, da visão do espectador.

No critério visual, entretanto, O Destino de uma Nação deslancha e confirma o talento de Wright na construção da atmosfera narrativa e arquitetar rimas. Aqui, ao lado do quatro-vezes indicado ao Oscar Bruno Delbonnel, o diretor aposta nos contrastes entre luz e sombras e a textura clássica de época, com tons cinzentos e marrons, e o vermelho intransigente e ubíquo. Já o emprego de plongés (quando a câmera está na posição zenital, transformando o plano em um planta-baixa) enfatiza o óbvio, a destruição provocada por aviões bombardeiros, e também a distância que há entre a política e o povo, sendo, finalmente, instrumento para comparar Churchill com o mesmo garotinho que o enxergava momentos antes. Aliás, a montagem de Valerio Bonelli é muito feliz no raccord que transforma a fuligem no corpo de uma pessoa morta.

Óbvio a ponto de usar um lenço como recurso dramático óbvio e conclusivo após o discurso grandioso e unificador de Winston Churchill, O Destino de uma Nação pode ser bonito de se ver e até dar o Oscar que Gary Oldman merece. Mas sem a remota chance deste, um dos trabalhos mais problemáticos da carreira de Joe Wright já haveria sido esquecida.


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