
Essa introdução é a melhor parte do filme, mas Fúria de Titãs saí-se razoavelmente bem como filme de ação. O fiapo de história gira em torno da soberba dos homens que, descontentes com os deuses, desafiam Zeus (Liam Neeson) destruindo templos e estátuas de adoração. Em troca, recebem pragas e monstruosidades. No meio encontra-se Perseu (Sam Worthington), um semideus, filho de Zeus, que parte para destruir o Kraken, vingar-se de Hades (Ralph Fiennes) e evitar a catástrofe que cairá sobre a cidade de Argos.
Escrito a seis mãos, o roteiro é simplório e recheado de clichês: Hades quer trapaçear Zeus, por abandonar-lhe no inferno; Perseu tem que destruir tudo na sua frente para provar que é o escolhido; destruirá tudo o que vier na sua frente. Entre monstros e mais monstros, o roteiro também está cheio de diálogos expositivos que servem somente para fazer a história seguir em frente e apresentar um novo obstáculo.
Felizmente, a direção de Louis Leterrier é melhor nas cenas de ação, é dele Carga Explosiva 1 e 2 e O Incrível Hulk. Assim, temos a empolgante luta contra os escorpiões gigantes, que mesmo com cortes rápidos não é incompreensível e todo o ato final que conta com ao menos dois grandes planos: no primeiro, Perseu emerge do eclipse cavalgando Pégasus e no outro é o instante final na praia que curiosamente reencontra Zeus no local em que sua estátua fora destruída – um elemento narrativo sutil. Por outro lado, a Medusa e o conflito que se dá dentro de seu lar não são satisfatórios, principalmente porque a concepção da criatura é ruim, denunciando seu aspecto digital através de uma textura emborrachada. Os Djinns do deserto também não são particularmente inspiradores, lembrando Ewoks, e todo o interlúdio envolvendo o Rei Acrísio é encheção de linguiça, recontando a origem de Perseu, algo que quase todos sabiam.
Interpretado pelo carismático Sam Worthington, de Avatar, Perseu mesmo preso a um herói quadradão é confiável. Enquanto isso, Liam Neeson reprisa o papel de mestre – quer autoridade maior que Zeus? – e Ralph Fiennes aposta em uma composição curiosa de Hades, com uma voz rouca e postura corcunda, gradativamente readquirindo o timbre normal à medida em que recupera as suas forças, apesar de não compreender o porquê ele sempre surgir e sumir de cena de braços abertos. A maquiagem ainda desempenha papel fundamental na concepção do vilão (e de outras criaturas, como as bruxas), com uma pele desgastada e as mãos tingidas em preto.
Mas, o que dizer de Danny Huston, um ator relativamente conhecido e que tem apenas uma fala como o imperador Posêidon? Maciçamente editado (leia-se: cortado), o que justifica saltos e elipses de uma cena para a outra sem o apropriado elo de ligação, Fúria de Titãs conta com a ótima locação de cenários e uma fotografia boa para compor quadros interessantes – ainda que óbvios – como o Olímpio, em tons etéreos. Assim, apesar de narrativamente pobre, essa viagem mitológica pelo menos é um bom e esquecível entretenimento.
Avaliação: 3/5

Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.