Adotando uma abordagem narrativa formalista e sistemática desde a captura do garoto, que viria a ser batizado de Victor (Cargol), a brilhante fotografia preto e branco de Nestor Almendros revive os estágios iniciais do cinema mudo na abertura com o efeito de iris característico das obras de D. W. Griffith, as imagens sujas e rabiscadas e as sombras marcantes provenientes da iluminação natural. Essa me parece a decisão acertada, haja vista a inabilidade de Victor em se comunicar mediante a fala, evoluindo posteriormente para um preto e branco tradicional e clássico após o garoto atingir a civilização e conviver com seus pares. Submetendo-se às imposições intrínsecas do material, Truffaut demonstra um autocontrole invejável desprezando as técnicas cinematográficas que ajudou a popularizar na nouvelle vague em prol de uma narrativa estritamente documental: planos estáticos, discreta mise-en-scène, cortes secos e o desenrolar uniforme, analítico e aprofundado no processo de aprendizado.
Essa incomum frieza do cineasta permeia completamente a narrativa, transformando-a em um registro clínico – o que é metodologicamente enfatizado pela narração voice over dos estágios do processo de ensino de Jean Itard -, e que encontra uma fresta de emoção na comovente afeição da governanta Madame Guerin (Seigner) pelo bem-estar do garoto. Dessa forma, Truffaut limita o interesse de Itard à mera experimentação científica, evitando o estabelecimento de um improvável relacionamento de pai e filho que seduziria facilmente cineastas experientes. Entretanto, fazê-lo implica em abdicar de uma variável essencial: o espectador, que inexoravelmente compartilhará a visão de Itard (personagem dominante na tela), relegando à “felicidade” do garoto ao amargo e distante segundo plano e substituindo-o mentalmente por um avatar animalesco. É o procedimento quem é decisivo e o método empregado, não o resultado, por mais animador (ou decepcionante) que este poderia ser.
Não à toa, Truffaut evita contaminar a narrativa com as idiossincrasias de Victor, pois ele é um objeto de estudo, não tão diferente do que um rato de laboratório. E nos raros momentos em que o garoto observa de longe o bosque, o seu habitat natural, confinado detrás de grades de uma “prisão” (a mansão ou uma carruagem), é fácil observar que Victor teria mais a oferecer do que agir ou resistir à sedutora e recompensadora abordagem educacional de Itard. Além disso, em função dos eventos transcorrerem no século XVIII, é inevitável o aborrecimento do espectador diante dos métodos empregados por Itard, que envolvem associações simples de objetos e gravuras ou o aprendizado de palavras simples.
Provocando questionamentos – novamente, em um nível intelectual, desprivilegiando o emocional e o visceral – a respeito do que realmente é o melhor para Victor, a vida no bosque, onde ele estava perfeitamente adaptado, ou o difícil ingresso na sociedade humana, submetido ao crivo do tenaz conselho, as convulsões causadas pela intensidade dos estudos sugerem um esforço descomunal e, porque não, infrutífero e desnecessário de certo ponto de vista! Defender Jean Itard parece análogo a não questionar a colonização das Américas e a imposição do Cristianismo e os “bons modos e costumes” Europeus à população indígena. Mas, Truffaut (como diretor, roteirista e ator) transforma Itard em um indivíduo complexo, distante, porém reconhecendo sua importância para Victor. Crendo obstinadamente no método empregado, o professor reflete e indaga pontualmente acerca da sua eficácia e não hesita acrescentar desafios além da simples lógica (a determinação do sentimento de justiça é um dos momentos principais da narrativa).
Enquanto isso, Jean-Pierre Cargol convence na animalização do comportamento de Victor, observe como, apesar de reproduzir algumas ações ou obedecer comandos, ele mantém hábitos selvagens no recorrente batucar nas portas e paredes. Finalizado com a ótima trilha sonora de Antoine Duhamel que utiliza bastante Vivaldi, O Garoto Selvagem leva ao extremo a curiosidade de seu realizador pelo processo de amadurecimento do ser humano.
Infelizmente, para isso, François Truffaut abdicou de sua principal qualidade, a sensibilidade, em prol do cinismo e racionalização. Não duvido que esse seja um dos filmes da cabeceira do mestres Werner Herzhog.
* Esta crítica faz parte do Especial François Truffaut do Cinema com Crítica que continua na sexta, 10 de fevereiro, com Beijos Roubados (1968).

Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.