Durante a ocupação alemã na União Soviética, dois soldados, Burov e Voitik, partem no encalço de Sushenya, acusado de trair três companheiros enforcados durante os eventos iniciais. Com esta história relativamente linear, o cineasta Sergei Loznitsa discorre sobre o instinto de sobrevivência humano, mas não da maneira com que esperamos, e sim invertendo a expectativa sobre o verdadeiro significado de sobreviver para soviéticos violados cuja soberania estava prestes a ser usurpada pelos alemães. Nesse sentido, o diretor volta as atenções a Sushenya, que admite ter inveja do destino dos camaradas mártires, preferindo ter sido dependurado pelo pescoço e mantido a honra a ser taxado, até pela esposa, de traidor.
Desenvolvido sob uma fria paleta de cores que acentua o caráter inóspito da região, e o recuo dos soviéticos em direção ao centro do país terminaria provocando a derrota alemã na guerra, Loznitsa revela a crua escassez provocada pela guerra na falta de alimentos que se tornam bens inestimáveis e na pobreza dos raros locais habitados, especialmente a casa em que se isolou a família de Sushenya. Através de planos-sequência e o silêncio que valoriza o abandono dos personagens à floresta, a sóbria reflexão ajuda na minimalista discussão da natureza humana em tempos de guerra e não é à toa que o diretor de fotografia seja Oleg Mutu, colaborador habitual de Christian Mungiu e uma das presenças frequentes nos grandes exemplares do novo cinema romeno.
Ele e a sua câmera captam o rigoroso inverno soviético e retratam nos flashbacks as escolhas morais daqueles três homens que os conduziram até aquele ponto. Sabotagem, traição e abstinência de colaborar que acabam resultando na espiral de eventos que os condena ao trágico destino proporcionado pela guerra aos combatentes.
56) Preenchendo o vazio (Lemale et ha’halal, Israel, 2012) – Direção: Rama Burshtein.
Escolhido para representar Israel no Oscar do próximo ano, Preenchendo o Vazio é daqueles filmes que ressuscitam a velha pergunta: não havia realmente filme melhor vindo daquele país para ser enviado à Academia?
Estreia no roteiro e na direção de Rama Burshtein, a narrativa sempre é interessante nos momentos em que se detém a explorar a cultura e rituais judaicos, como o Purim e as festivas cerimônias matrimoniais. Evitando realizar juízos de valor, a cineasta se limita a descrever a escolha do futuro de jovens mulheres, envolvendo o Rabi, os pais e, em último lugar, a vontade da nubente, em uma preservação das tradições dos tempos de outrora e que muitos julgariam de machista. E, ainda que a diretora revele atenção a pequenos detalhes, como o fulminante olhar de Shira voltado diretamente ao público, ela se abstém de adentrar no âmago daquela cultura…
…o que nos leva ao grande problema de Preenchendo o Vazio: a sua dedicação obstinada à trama “amorosa” entre Shira e Yohai. Na manjada historinha do “caso, não caso”, Shira é uma protagonista ingrata que não sabe se obedece aos pedidos desesperados da mãe, que resultam em um desmaio ficto e absurdo, ou se segue o seu coração e evita desposar Yohai, depois do falecimento da sua ex-esposa e também irmã de Shira. Mas o sacrifício da garota nunca é posto em xeque: ela parece fascinada com a ideia de casar, revirando um supermercado inteiro em busca de um pretendente que se revela um bananão; além disso, diante da carência de outras opções (veja com quem uma judia que ia ficar solteirona casa), Shira retorna à mais cômoda que agrade à mãe, à comunidade e, bem, a aproxima mais do sobrinho.
A própria Hadas Yaron, que dá vida à protagonista, embora belíssima com grandes olhos verdes, é uma personagem aborrecidíssima capaz de sair fazendo bico, batendo pé firme na rua e ignorando a chamada do pai. Vivendo um arco dramático tolo, até seu figurino é desinteressante, trajando o tom branco quando a jovem está exultante de felicidade e o preto para representar o luto do desrespeito de sua vontade.
Arrastado mesmo tendo somente 87 minutos, Preenchendo o Vazio cheira a uma boa oportunidade perdida.

Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.