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Vitória

3.5/5

Vitória

2025

110 minutos

3.5/5

Diretor: Andrucha Waddington

Tenho uma relação quase sentimental com os filmes de Fernanda Montenegro. Quando criança, eu reprisava incontáveis vezes a fita VHS de Central do Brasil que meu avô tinha. Como passava muitos finais de semana na casa dos meus avós, pelo menos uma vez por mês eu acabava reassistindo o longa de Walter Salles. Talvez por encantamento com a história, talvez por puro tédio — mas sempre era uma revisita agradável. Gostaria de dizer que, na época, eu já estava apurando meu olhar crítico e descobrindo novas camadas do filme, mas, com menos de 10 anos, a única coisa que eu fazia era decorar os diálogos. Só que, para além do legado belíssimo que Central do Brasil deixou para o cinema brasileiro, ele construiu para mim uma ponte afetiva com meu avô. De alguma forma, assistir ao filme me faz lembrar o cheiro dele. E ouvir a voz de Fernanda Montenegro traz uma saudade que vai além do seu talento: é uma conexão emocional, quase visceral. Talvez seja por isso que sempre me emociono ao ouvir sua narração em O Auto da Compadecida ou até mesmo me arrepio com suas participações em anúncios de banco. A presença dela me marca, independente do contexto.

Seu retorno às telas recentemente aconteceu em dois momentos distintos: primeiro, como Eunice Paiva, já debilitada pelo Alzheimer, em Ainda Estou Aqui; depois, como Nina, em Vitória, personagem inspirada na história real de Joana da Paz, a mulher que, da janela de seu apartamento em Copacabana, denunciou o envolvimento da polícia com o tráfico de drogas. Se no primeiro filme Fernanda Montenegro emociona sem precisar de palavras, no segundo, prova que tem energia de sobra, mesmo com mais de noventa anos. E é justamente nessa fragilidade que o tempo impõe sobre seu corpo que encontro uma nova conexão pessoal: sua personagem em Vitória me faz lembrar minha avó. Curioso como, em menos de 30 anos, a mesma atriz conseguiu criar esse vínculo emocional com meus dois avós, por razões tão diferentes.

Há algo curioso em ver Fernanda Montenegro novamente como uma senhora que, da janela de seu apartamento em Copacabana, testemunha um crime. Em O Outro Lado da Rua (2004), sua personagem, uma aposentada solitária, espiona um vizinho suspeito de assassinato, em um enredo claramente inspirado em Janela Indiscreta, de Hitchcock. Mas, enquanto o filme de Marcos Bernstein brincava com o suspense e a paranoia de uma testemunha improvável, Vitória caminha em outra direção: sua história não vem da ficção, mas da realidade. Inspirado no caso real de Joana da Paz, o longa troca a estilização hitchcockiana por uma abordagem mais crua e realista, acompanhando o dia a dia de Nina, uma idosa que carrega no corpo as marcas do tempo, mas que ainda encontra força para desafiar um sistema corrupto. O filme também faz questão de evidenciar o contraste entre a orla turística do Rio de Janeiro e a dura realidade da favela na Ladeira dos Tabajaras, reforçando a dualidade que define a cidade: o cartão-postal para alguns, o campo de batalha para outros.

Vitória acerta ao não limitar nosso olhar apenas a Dona Nina, mas também aos personagens que orbitam seu dia a dia. O menino Marcinho, interpretado com competência pelo estreante Thawan Lucas, não ganha um arco completo, deixando uma lacuna em sua transformação em usuário de drogas e até membro do movimento. Mas é através dele que o filme lança seu comentário mais contundente: a hipocrisia de uma sociedade que se acovarda diante de bandidos armados, mas se sente valente para condenar uma criança. É aquela velha história — quando convém, tratam um menino como adulto, jogando nele toda a culpa do sistema falido, porque é mais fácil se livrar do problema do que oferecer segurança e perspectiva. A tal “sementinha do mal” que tanto gostam de demonizar nada mais é do que o resultado do abandono que a mesma sociedade escolheu praticar.

Marcinho e Dona Nina. (Imagem: Divulgação)

Além de Marcinho, há outros personagens que ganham vida própria, fugindo da função meramente acessória. O jornalista investigativo Fábio Gusmão, interpretado por Alan Rocha, não surge apenas para mover a trama — o filme nos permite conhecê-lo tanto pela forma como se apresenta quanto pelo espaço que habita. Seu apartamento, suas expressões e a maneira como se envolve na história nos dão dimensão de quem ele é, tornando-o um personagem de verdade, e não apenas um veículo narrativo. Outra figura essencial é Bibiana, vivida por Linn da Quebrada. Mais do que um suporte emocional para Dona Nina, ela compartilha com a protagonista algo fundamental: ambas pertencem a grupos frequentemente marginalizados, mas, ironicamente, são as verdadeiras forças transformadoras dentro do condomínio. Enquanto os homens que deveriam exercer autoridade — o síndico e um jovem morador — só conseguem direcionar seu poder contra uma criança, Nina e Bibiana se tornam as verdadeiras agentes da mudança. A amizade entre elas surge naturalmente, sem discursos expositivos, e funciona justamente por romper a expectativa de que uma senhora de sua geração, teoricamente mais conservadora, manteria distância de uma mulher trans. Mas Vitória não compra essa premissa ultrapassada. No filme, quem realmente se movimenta e enfrenta o que precisa ser enfrentado são as duas personagens que, para a lógica social, deveriam ser as mais vulneráveis. E é aí que o filme encontra sua força.

Vitória é um filme cujos maiores acertos estão nos detalhes menores. A direção de arte acerta em cheio ao construir o apartamento de Dona Nina, tornando-o uma extensão de sua história. Da mesma forma que conseguimos conhecer o jornalista Fábio apenas ao observar seu espaço, o caos do lar de Nina revela sua biografia sem precisar de uma única linha de diálogo. Os móveis antigos, as louças, a televisão de tubo — cada objeto parece contar um pedaço de sua trajetória. Mas há algo ainda mais revelador: boa parte do imóvel está exposta aos tiros disparados da comunidade, e a banheira se torna seu único refúgio de segurança dentro daquele espaço. Andrucha Waddington, mais maduro como diretor, equilibra com precisão essa dualidade — o apartamento é ao mesmo tempo lar e prisão, abrigo e ameaça. Talvez o grito mais silencioso do filme esteja na xícara que se parte com o susto de um disparo. A tentativa frustrada de colá-la reflete a própria jornada de Nina, uma mulher que, apesar das rachaduras à sua volta, insiste em tentar consertar o mundo através de suas denúncias. Mas, assim como o sistema escancara sua falência estrutural, a xícara também deixa claro que certas coisas simplesmente não têm mais conserto.

Se a trama da denúncia e da perseguição a Dona Nina já coloca o espectador em estado de alerta por si só, a fragilidade de Fernanda Montenegro amplifica ainda mais essa tensão. Como mencionei no início do texto, a personagem me lembra minha avó, e, durante toda a projeção, me vi aflito com a possibilidade de uma queda, um tropeço, ou até um acidente causado por seus perseguidores. Vitória sabe explorar esse sentimento de maneira inteligente, transformando a vulnerabilidade física da protagonista em um dispositivo de suspense. Mas, diferentemente de muitas produções que tentam apagar a fragilidade de seus protagonistas forçando diálogos de resistência artificial ou confrontos impossíveis, Vitória não comete esse erro. Nina não desafia o perigo com frases de efeito, nem se joga em um enfrentamento que está além de suas forças. Sua luta é silenciosa, mas não menos poderosa.

Fernanda Montenegro imprimindo toda humanidade necessária a sua personagem (Imagem: Divulgação)

Se Vitória se fortalece ao explorar as limitações de sua protagonista, é na própria estrutura que revela suas vulnerabilidades. O roteiro, por vezes, soa excessivamente burocrático, preso a um desenvolvimento linear que tenta amarrar pequenos acontecimentos e personagens de forma mecânica. O reconhecimento de uma vítima como alguém conhecido, a construção de uma “bomba-relógio” previsível – na qual aguardamos uma intervenção externa para salvar Nina de uma ameaça –, e até o desfecho em que a última tentativa de denúncia é justamente aquela que a expõe, são escolhas que, embora funcionais, soam excessivamente óbvias. O filme se permite poucos riscos narrativos, o que enfraquece parte do impacto que poderia ter.

No entanto, se há um ponto de crítica que não me convence, é a tentativa de rotular a dinâmica entre Nina e Marcinho como um caso de white savior. A escolha de Fernanda Montenegro para o papel, além de carregar o peso de sua trajetória, também serviu para proteger a identidade da verdadeira Dona Joana da Paz, que só teve seu nome revelado após seu falecimento. Além disso, o filme jamais alimenta a ilusão de que Marcinho pode ser “salvo” daquela realidade que, desde sempre, o condenou. Ele não recebe uma saída mágica, nem um desfecho redentor – sua trajetória é mais um dos recados incômodos que Vitória nos deixa.

No fim, Vitória acerta ao dar voz a uma história que precisava ser contada, mas tropeça ao fazê-lo dentro de uma estrutura que não arrisca tanto quanto poderia. O filme encontra força em sua protagonista e nos detalhes de sua ambientação, mas caminha por um roteiro que insiste em segurar a mão do espectador, como se temesse que a realidade por si só já não fosse suficientemente brutal. Ainda assim, há algo inegável: ao lado de Bibiana, Nina se impõe como a verdadeira força naquele condomínio. Enquanto os homens que deveriam representar a ordem se limitam a atacar uma criança, são as figuras mais vulneráveis que carregam nas costas o peso da resistência. Se Vitória falha em algumas escolhas narrativas, pelo menos acerta ao nos lembrar que, muitas vezes, são os corpos invisibilizados que têm a coragem de gritar.

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