Se hoje o fascínio que a imagem é capaz de provocar passa por nós despercebido pelo excesso de telas e informações a que submetemos nossos olhos na maior, ou porque não dizer, quase na integralidade de nosso tempo, é por demais distante de nós imaginar que a produção dessa mesma imagem já foi escassa. Cada indivíduo com um celular na mão é capaz de fazer ou, minimamente, brincar de fazer cinema, e registrar a vida é uma possibilidade na palma da mão. Em Meu Tio da Câmera, dirigido por Bernard Lessa, o diretor faz uma retrospectiva geracional que nos transporta para os anos 90 e nos conduz até os dias de hoje através do encanto de seu tio, Paulo, pelo dispositivo antes raro e de difícil acesso: a câmera e sua capacidade de documentar, para a posteridade, a existência de sua família.
As imagens que o tio afetuosamente registrou durante toda a vida precisavam existir no mundo, e Meu Tio da Câmera é o resultado desse anseio. O conteúdo filmado confunde-se com a própria memória familiar, e filma-se como forma de lembrar. Paulo comprou uma câmera simples como meio de cura de sua própria ansiedade com relação à passagem do tempo, e que ele revela ao dispositivo – ou seja, para ele mesmo, já que a ideia de sua vida tornar-se cinema não era um propósito. O medo de morrer e o medo de envelhecer são ditos à câmera quase como justificativa para o ato de filmar, que evidenciam também o temor pelo esquecimento.
Vidas são filmes e alguns tem chance de serem reconhecidos como tais. Bernard Lessa nos permite acesso às lembranças de sua família, compostas de imagens rotineiras de seus primos, de sua tia, de seu avô e do próprio cameraman, seu tio. Vemos as crianças crescerem até se tornarem adultos e terem elas próprias suas famílias e descendentes. Tudo é motivo de registro para Paulo: o filho pequeno que não dorme (o “santo madrugador”), a esposa que lava roupas no tanque e lhe convida a fazer o mesmo ao invés de filmar, os filhos arrumando a cama, as brincadeiras e imitações. Confusão e falação são abundantes, e a naturalidade e intimidade do que se documenta é quase um convite para que façamos parte daquela família.

A temida passagem do tempo fica cravada na imagem como uma linha histórica. Se antes as crianças amavam a câmera e a procuravam para fazer molecagens, já crescidas e ingressando na vida adulta, a interação torna-se fria. Resta apenas Paulo e sua câmera-documento. Lessa organiza o material não necessariamente em ordem cronológica, mas encontra uma dinâmica que se ordena pela transição de sentimentos provocados pelo próprio decurso temporal. A alegria infantil dá lugar à uma melancolia pela diminuição do interesse dos filhos pelas instigações do pai, para assumir um tom bastante provocativo quando chegamos na contemporaneidade e essa história familiar cruza com a política brasileira.
A mudança é sutil e perceptível de forma gradativa. Meu Tio da Câmera vai nos fazer questionar: como lidamos com nossos afetos diante do cenário de discordância política? Lessa constrói e instiga nosso afeto, nos aproxima de sua família, nos faz rir e chorar, comemorar conquistas, para, elegantemente, chegar em 2020 e posicionar politicamente essas pessoas. A partir deste ponto, a montagem assume um vai-e-vem entre passado e futuro, entre crianças e adultos, que serve de contraponto e desafio ao sentimento dúbio e confuso que passamos a nutrir.
Meu Tio da Câmera delineia uma linha evolutiva dos anos 90 até a contemporaneidade que não deixa de ser uma pequena amostra da sociedade desse tempo e de como forma-se, através da ascensão social, o pensamento político da extrema direita no Brasil. Apesar do formato um pouco cansativo, a memória que se torna filme é registro de afeto, mas é também uma incitação à reflexão sobre o modo como a política vem afetando a vida de tantas famílias brasileiras, abrindo abismos e modulando emoções, e à elaboração sobre os nossos sentimentos com relação a essas pessoas que, em que pese tenham convivido conosco e façam parte das nossas vidas, mostram-se ofensivamente destoantes de nosso pensamento político.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
