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Obeso Mórbido

Classificado como 3 de 5

Obeso Mórbido

2026

93 min

Classificado como 3 de 5

Diretor: Diego Bauer

A sociedade contemporânea é contraditória (e hipócrita) o suficiente para pregar, quando convém, ideais de valorização de todos os tipos de corpos em propagandas de vestuários e produtos de beleza das mais variadas grifes, bandeiras que são levantadas por muitos artistas e influenciadores cujas belezas são representativas desse público, ao mesmo tempo em que vemos esgotar, nas farmácias, medicamentos injetáveis emagrecedores que prometem resultado em pouco tempo e sem o esforço do exercício físico e da dieta, acessíveis, diga-se, apenas às camadas elitistas da população.

Portanto, num tempo onde tendências regem estilos de vida, o culto exacerbado à magreza e ao corpo perfeito parece um retrocesso no sentido de pregar um ideal corporal inatingível. Fato é que nunca estaremos satisfeitos com nossas formas físicas enquanto estímulos de todos os lados ressaltam nossa distância ao modelo falaciosamente tido como ideal. A valorização de todos os tipos de corpos mostra-se uma moda que retorna conforme a demanda mercadológica, visto que seguimos aprisionados no mito da beleza que Naomi Wolf desde 1990 denunciava na obra literária que leva exatamente o mesmo título – O Mito da Beleza.

Se Naomi Wolf revelava seu estudo com relação às mulheres, inevitavelmente maiores vítimas do imaginário do corpo ideal, não há de se negar que o culto à magreza que acarreta na gordofobia também vulnerabiliza homens. Em Obeso Mórbido, longa-metragem amazonense dirigido pelo também ator Diego Bauer que integrou a Mostra Aurora da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o diretor conta sua própria história como pessoa que emagreceu (motivos de saúde também estavam envolvidos) e viu-se, com o corpo atlético, abduzido por uma personalidade que não era a sua. De ator sensível a performador de masculinidade, passou a reproduzir atitudes e estilos que externamente lhe eram impostos, numa tentativa desesperada de pertencer aos círculos que antes lhe eram negados, pagando para tanto um custo alto em termos de saúde mental.

Diego Bauer em Obeso Mórbido (Imagem: divulgação)

Obeso Mórbido é perspicaz nas nuances sutis da atmosfera fílmica. Nos inserindo numa comédia a princípio despretensiosa, onde rimos da fome e das dificuldades de sorrir do protagonista no set de filmagens de uma propaganda da Manaus Gás, da câimbra que lhe prega uma peça durante o sexo, ou ainda de suas tentativas de flerte e aproximação desajeitada de mulheres, assustamos quando nos vemos diante de um Diego assediador, que passa a se sentir à vontade para desrespeitar mulheres que o rejeitam e usa da violência verbal quando se sente inferiorizado. Do lugar marginalizado socialmente relegado ao corpo gordo, Diego transita, com a magreza, para espaços onde ele vislumbra deter uma espécie de poder que endossa sua mudança de comportamento.

Obeso Mórbido não romantiza nenhum tipo de corpo. Diego Bauer faz-se consciente de que ambas as composições podem ultrapassar os limites da saúde para tornarem-se notoriamente prejudiciais, encontrando um equilíbrio no que diz respeito àquilo que ele pode, como pessoa, fazer por si em prol do bem estar físico e mental, precisando, para compreendê-lo, passar por picos de transtornos de ansiedade e depressão pela insatisfação consigo tanto como pessoa gorda como magra, físicos onde sua personalidade originária se perdeu. 

Durante tais crises, assistimos o protagonista sufocar. Seu corpo, como artista, é seu instrumento de trabalho, e ele amarga os reflexos da gordofobia no mercado. Assim, o marcador social da pobreza acarretada pelo desemprego, que empurra Diego de volta para a casa dos pais, é fator que impulsiona seu estresse, ainda que seja comovente a doçura com que o personagem trata seus pais e a interação entre eles seja um alívio ante tantos tropeços.

O auge do sufocamento e um dos melhores momentos do longa é a festa de natal de sua família, onde Diego é julgado ora por estar magro, ora por ter sido gordo, ora por trabalhar como artista, ora por estar desempregado. A profusão de falas constantes, concomitantes e altas, instigadas, principalmente, pela personagem da tia interpretada por uma sempre notável Rosa Malagueta, deixam o protagonista sem reação e calado, incapaz de defender-se, e seu desespero é sentido por nós quase de maneira insuportável.

Diante de tantas mudanças, o protagonista ainda vê-se lidando com a aceitação de sua (bi)sexualidade, descobrindo-se atraído por corpos masculinos que exibem suas genitálias e músculos. Muito embora o longa não se imponha a obrigação de chegar a qualquer conclusão a respeito de uma ratificação ou não da bissexualidade do personagem, essa compreensão está diretamente conectada aos surtos de irritação que ele sofre, como “novo” homem que tenta pertencer performando masculinidade.

Diego Bauer é honesto ao retratar-se como pessoa em autodescoberta física, sexual e psíquica – “eu era outra pessoa mesmo, ou era diferente antes ou agora” é fala que ele reproduz, tradutora precisa de seu estado de confusão. Obeso Mórbido se torna o filme que expressa, como o próprio personagem-diretor diz, “as merdas que fez quando emagreceu”, um processo doloroso até que, numa bonita conclusão, a redenção, a aceitação e o alívio venham em forma de chuva e pôr do sol. 

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