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Yo (Love is a Rebellious Bird)

Classificado como 4.5 de 5

Yo (Love is a Rebellious Bird)

2026

78 min

Classificado como 4.5 de 5

Diretor: Anna Fitch, Banker White

Engana-se profundamente quem pensa que o documentário se limita ou seja mero instrumento cinematográfico que retrata, sob determinado ponto de vista, acontecimentos reais de nosso mundo. O que há na vida que seja importante o suficiente para imortalizar-se em filme? Do holocausto à observação sobre a cultura dos esquimós, da história de amor entre dois vulcanólogos ao movimento de uma cidade e seus habitantes, do estudo sobre a performance a chegada de uma criança numa família. Fato é que não há nada que possa ser classificado como desimportante – importa, de fato, a forma, o caminho escolhido para que esse retrato se torne memorável.

Na singeleza e nos mistérios do fim da vida de uma mulher comum, idosa, ordinária aos nossos olhos, os documentaristas  Anna Fitch e Banker White escrevem uma carta de amor e um atestado de imortalidade à Yo, apelido carinhoso atribuído à Yolanda Shea, através da câmera que se torna caneta e artesanato nas mãos, principalmente, da diretora, que ama profundamente essa figura que já se foi, em Yo (Love is a Rebellious Bird), único documentário na competição da 76ª Berlinale. Munidos do simples, os diretores chegam ao ápice criativo e emotivo ao prestarem homenagem à Yo, dando continuidade à sua memória numa dupla camada artística: pelo cinema em si e pela construção de uma marionete e uma versão em escala 1/3 da casa dessa personalidade. 

Yolanda Shea nasceu na Suíça, em 1924, e se mudou para os Estados Unidos ainda jovem. Conheceu Anna Finch aos 73 anos, quando a diretora tinha 24, e a diferença abismal na idade não impediu que o vínculo entre elas, orgânico, genuíno e não familiar, se tornasse forte o suficiente para que Yo, já muito adoecida pelos problemas respiratórios e cardíacos, permitisse o registro muito próximo de sua vida (especificamente, do fim dela). Yo (Love is a Rebellious Bird) nos conduz ao interior da casa da protagonista, espaço pequeno e modesto (em sua escala normal ou reduzida), onde há o necessário para uma vida tranquila, sem luxos, que atende aos cuidados demandados por sua condição física. Sentimo-nos muito à vontade, como se, partilhando com ela o lugar e o tempo, estivéssemos sentados na beira de sua cama, fascinados com seu magnetismo e com a energia surpreendente com que ela, ainda que ofegante, conta sua própria história à câmera, a rebeldia-título que pulsa mesmo que às duras penas.

 Yo (Love is a rebellious bird) Imagem: Mirabel Pictures

Yo (Love is a Rebellious Bird) não é exatamente híbrido, mas flerta com a ficcionalização ao permitir que Yo, de forma muito tocante, se torne perpétua em sua representação minuciosamente artesanal em miniatura. Se o filme lida com o choque geracional da belíssima amizade entre Anna e Yolanda, lançando por terra qualquer necessidade de tornar esse vínculo maternal, isentando-o de estereótipos e preconceitos, constrói a perpetuação da imagem também através da conexão geracional não sanguínea que vem das figuras das filhas de Anna, que brincam com as marionetes, acomodam a versão pequena de Yo em sua cama-maquete e colocam cartinhas em sua mini caixa de correios. Tratam-se de vínculos construídos pelo afeto autêntico e espontâneo, um amor por escolha que o filme tanto documenta como ficcionaliza.

A multiplicidade de expressões artísticas que representam a vida de Yo compõem uma dinâmica fílmica encantadora, uma caixinha de surpresas muito boas a cada intervenção que acompanha a narração – as vozes que ouvimos são ora de Yo, ora de Anna. A protagonista está fisicamente no corpo ainda vivo em tela, está em marionete, está em fotos antigas que se tornam colagens e sobreposições. Se podemos tomar Yolanda como roteirista natural de Yo (Love is a Rebellious Bird), já que todo o restante é realizado ao redor do que ela transmite sobre sua vida, Anna Fitch se assume como regente do projeto de ficcionalização e imortalização. Assusta quando somos enganados pela imagem e só nos damos conta de estarmos na maquete quando a cabeça da diretora surge em proporção muito maior, como uma gigante invadindo aquele mundo simples. Essa surpresa é recorrente ao longo da obra: a cada cabeça humana que surge na janela da maquete e a cada mão que conduz carrinhos por suas ruas, nos surpreendemos deliciosamente com um sorriso no rosto.

A rebeldia desse pássaro de forma idosa é sua imposição como pessoa que existiu como gostaria, que disse os nãos necessários em seu trajeto, inclusive, aos vínculos familiares que lhe fizeram mal, que assume o gosto por fumar maconha e manuseia a erva sem qualquer problematização, e que não tem medo de ser filmada nua, em sua banheira, expondo-nos seu corpo idoso em processo progressivo de morte, reclamando sobre a dificuldade de tomar banho, pois penoso o respirar. Essa afronta imagética, que, digamos, sequer deveria ser lida como tal, diz muito mais sobre nós do que sobre esse próprio espírito livre. A rebeldia é social, é dos que fecham os olhos para a naturalidade da existência para impor regras e pudores sobre como a vida e a arte devem ser. Anna Fitch e Banker White não precisam levantar qualquer bandeira explícita: a defesa da liberdade de Yo é inerente ao filme e cativa-nos naturalmente através do afeto.

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