As Aventuras de Tintim

As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin, Estados Unidos/Nova Zelândia, 2011). Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Steven Moffat, Edgard Wright e Joe Cornish baseado nos quadrinhos de Hergé. Elenco: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost, Simon Pegg, Daniel Mays, Gad Elmaleh, Toby Jones, Joe Starr. Duração: 107 minutos.
Falar d’As Aventuras de Tintim é recordar o Steven Spielberg que, mesmo aos 65 anos, mais parece um garoto detrás das câmeras extasiado com as infinitas possibilidades apresentadas pelo mundo da animação (é a sua estréia no formato). De espírito jovial, movimentos de câmera surpreendentes e um ritmo empolgante que concatena um clímax atrás do outro, ajudando a disfarçar a fragilidade do roteiro, o diretor nos recorda de suas melhores aventuras, como os Caçadores da Arca Perdida, Parque dos Dinossauros e Minority Report – A Nova Lei. Nem parece o mesmo Steven Spielberg que há algumas semanas nos brindou com o pieguismo melodramático de Cavalo de Guerra e que substituiu a arma na mão do policial por um inofensivo walkie-talkie em E.T. – O Extraterrestre. Com Tintim, ele redescobre a coragem comprometida na demasiada cautela com que comandou filmes como Guerra dos Mundos, criando uma narrativa que não hesita em colocar seu herói em perigo de morte e de apresentá-lo ostentando uma arma como sempre o fizera nas tirinhas do cartunista Hergé.

Sem investir tempo apresentando Tintim ao grande público, o roteiro de Steven Moffat retocado por Edgar Wright e Joe Cornish limita-se a descrever a personalidade do jovem repórter através de suas aventuras e observações realizados cotidianamente, como a curiosidade e fascínio despertado pelos mistérios existentes em antiguidades. Ele e seu inseparável fox terrier Milu eventualmente esbarram em uma réplica do Licorne, a mítica embarcação comandada pelo capitão Frances Haddock desaparecida sem deixar vestígios, e que desperta o interesse do colecionador Ivan Sakharine. Perseguido por seus capangas que desejam pôr as mãos no pergaminho escondido em um dos mastros da miniatura do Licorne, Tintim é literalmente arremessado em uma aventura que o leva a alto-mar, ao deserto do Saara e a um longíquo território árabe (a fictícia Bagghar) na busca do segredo encerrado na história de Francis Haddock. Expondo sua fragilidade no tom episódico da narrativa, o roteiro compensa suas falhas nas abundantes sequências de ação que deslumbram e cegam o espectador, impedindo-o de enxergar que a simplicidade da história contada realmente não faz jus à perspicácia do seu herói.

Reconhecendo a importância de Tintim ao apresentá-lo nos traços originais de Hergé desenhados por um retratista de rua, Steven Spielberg também homenageia e atualiza a clássica ilustração de Tintim e Milu correndo acompanhados pelas luzes de um holofote. Transformando-o numa espécie de jovem Indiana Jones (as semelhanças são óbvias demais para serem descartadas), Spielberg organicamente incluiu outra referência a seu trabalho anterior, associando a marca registrada de Tintim, o seu topete, com seu Tubarão (há um empalhado no barco de Sakharine). Confortável com a câmera digital, Spielberg investe na liberdade dos movimentos, ângulos e tomadas, e até mesmo acompanhar Milu em perseguição revela-se um ótimo momento de escapismo e diversão.

Nesse sentido, Spielberg usa bem o humor como maneira de dosar a ação ininterrupta e a presença dos engraçadinhos irmãos policiais Dupond e Dupont é bem-vinda, pois não é exagerada ou excessiva. Incluindo os tradicionais e inusitados bordões de Tintim, “papagaio Louro” ou “pipocas”, que distraem pela nostalgia que os acompanha, até mesmo a ferocidade de Milu diante do ataque de um Rottweiller não chega a incomodar. Com alguns diálogos inspirados na interação de Tintim e o capitão Haddock (neto do capitão do Licorne), a piada envolvendo a amnésia alcóolica do capitão é hilária, Spielberg apenas derrapa no vôo de um monomotor que recorre a arrotos e um personagem atingido por um relâmpago, destoante em tom de todo o restante da narrativa.

Com uma técnica de captura de movimentos mais evoluída daquela apresentada por Robert Zemeckis nos seus filmes (O Expresso Polar, Beowulf ou Os Fantasmas de Scrooge), a animação não cessa de surpreender nos pêlos arredios de Milu e nos fios presos no casaco de Tintim, bem como nas imperfeições da pele dos personagens, as manchas, cravos e a barba a fazer. Nem mesmo os olhos vidrados revelam-se um inconveniente, pois a animação ressalta sua natureza na extrapolação de certas características dos personagens, como os narizes protuberantes. Apresenta uma perfeita animação de fluidos (não faltam cenas no mar), a técnica peca na reprodução do fogo, artificial e pouco convincente. Mesclado com o olhar minuncioso de Spielberg, repare nas gotículas de água nas janelas das cabines, a direção de arte, que apresenta brevemente os feitos de Tintim em recortes de jornal, e a fotografia com bom uso de sombras e fachos de luz são uma constante (Janusz Kaminski atuou como consultor), e fazem d’As Aventuras de Tintim uma animação visualmente impressionante.

Mas é a fluida montagem de Michael Kahn, colaborador habitual de Spielberg, e as intensas cenas de ação os verdadeiros tesouros do filme. Certamente consumindo semanas em storyboarding e apresentando uma mise-en-scène e decupagem milimetricamente perfeitas, a fuga de Bagghar é o ápice da narrativa. Com a boa utilização do 3D para conferir a profundidade necessária às múltiplas ações ocorridas na perseguição a Tintim e o capitão Haddock, a sequência de 6-7 minutos impressiona pela quantidade de opções proporcionadas, como as consequências da destruição de uma barragem, e pela dinamismo com que ocorrem, frequentemente uma ação desenrola-se no segundo plano interferindo no primeiro plano, estabelecendo-se como um dos planos-sequência mais intensos e empolgantes vistos em animação. Curiosamente, o desfecho é prejudicado por comparação, pois embora seja um bom momento, não chega aos pés do visto anteriormente, revelando-se aclimático. Já Michael Kahn usa a liberdade proporcionada pela animação para investir em transições inteligentes, como as fusões envolvendo um oceano e uma poça d’água ou as dunas do deserto e as ondas revoltas. Transformando o flashback das lembraças de Francis Haddock em um momento de rara inspiração, no qual presente e passado se revelam nos reflexos de uma espada, na queda de um mastro ou mesmo no ventilador do teto (!), o montador confere vitalidade e dramaticidade a uma impiedosa batalha naval.

Com a ótima trilha sonora de John William (a melhor deles em anos), combinando o tom aventuresco com elementos noir e acordes prosaicos, os créditos iniciais revelam o melhor do compositor que derrapa pontualmente nos toques cômicos inseridos nas conversas de Tintim e Haddock. Provando novamente porque é quem é, Spielberg finalmente afugenta a covardia que vira e mexe prejudicam seus filmes e não pisa no freio sequer na imagem de um marujo que perdera as pálpebras (uma imagem certamente incômoda para os mais novos). No processo, ele abraçou o jovem cineasta vivo dentro de si e criou uma aventura excitante que, contornando o fiapo de história no qual é baseado, inaugura uma formidável franquia nos cinemas.

E Tintim realmente merece esse esforço. Agora, é aguardar e ver o que Peter “O Hobbit” Jackson vai preparar para nós na antecipada continuação.

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