O Abrigo

(Take Shelter), Estados Unidos, 2011. Direção: Jeff Nichols. Roteiro: Jeff Nichols. Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet, Kathy Baker. Duração: 120 minutos.

Maçãs parecem sempre cair próximas das árvores. Depois de vivenciar a dramaticidade do diagnóstico de esquizofrenia paranoide da sua mãe, na época aos 30 e poucos anos, o ordinário trabalhador, marido e pai de família Curtis (Shannon) depara-se com o imaginário de uma assustadora e devastadora tempestade, a qual apenas ele consegue escutar, sentir e observar. Metaforicamente assumindo os contornos da loucura e escondendo nos relâmpagos o reflexo de descontroladas sinapses nervosas, uma tempestade da magnitude vislumbrada por Curtis naturalmente sugere a construção de um abrigo subterrâneo para o resguardo e a proteção de sua família. Trilhando o percurso minimalista da investigação do íntimo de seu atormentado protagonista, o brilhante O Abrigo é uma poesia alucinatória sobre o apocalipse pessoal presente nos nossos piores pesadelos.

Irmão de alma de Melancolia, outra obra-prima, este é apenas o segundo trabalho do roteirista e diretor Jeff Nichols que, aos 34 anos, ironicamente idade próxima da do seu protagonista, tem uma maturidade e sensibilidade de causar inveja a muito diretor experimentado no relato da história de um sujeito comum atormentado por sucessivos e violentos pesadelos e delírios relacionados a uma devastadora tempestada. Transformando a penosa jornada de Curtis em um exercício complacente de piedade, Jeff Nichols submete clichês ordeiramente observados em produções análogas a um intenso e rico experimento de drama, terror e devaneio caracterizado por um perigo iminente e oculto, menos aos olhos dos demais participantes, inclusive o espectador, que assume o íntimo espaço da psiquê de seu protagonista.

Contrapondo a relativamente bucólica e veraneia paisagem com o negrume das nuvens e a escuridão pouco convidativa do abrigo, a fotografia de Adam Stone leva-nos a questionar a “profecia” de Curtis, um esforço teoricamente simplório, porém jamais menos interessante e provocador, calcado no prejudicial conceito que homens e mulheres traçam dos párias da sociedade. Mas, e eis a melhor sacada do filme, Curtis é um cara aparentemente agradável e dócil, embora extrovertido: sua esposa o ama, ele é afetuoso com seu cachorro, tem bons amigos que pode confiar e, oras, até mesmo o gerente do banco reconhece o esforço do homem em manter o financiamento da casa e dos carros em dias, orientando a não contratar um novo empréstimo (caminho diametralmente inverso de 99,9% das produções). Entretanto, Curtis é um mistério para o público enfatizado desde o primeiro quadro, quando o vemos vivenciando um de seus delírios: a viscosa chuva comparada ao óleo do motor de um carro. Sem revelar o estopim da instabilidade mental de Curtis – a hereditariedade é claramente determinante – penetramos e desvendamos o íntimo do protagonista a partir de suas ações mais racionais, como a busca de sintomas de sua condição em livros especializados e a regular ida ao consultório do psicólogo.

Contudo, há racionalidade na loucura? A resposta não poderia ser mais afirmativa. Apresentando o abrigo do título como a segurança desejada por Curtis para se livrar da vindoura tempestade, a sua loucura, a construção subterrânea não demora a agitar as fundações da vida familiar e da rede de amizades de Curtis, provocando intensas e drásticas, talvez irreparáveis, consequências no seu cotidiano. O que existe de são nisso que supostamente deveria nos proteger? Assim, mais do que visto somente no seu propósito literal, o abrigo também parece encerrar as portas da loucura, o tormento obsessivo-compulsivo, a síndrome do pânico e a mania de perseguição frequentes nos pesadelos envolvendo o ataque de seu fiel cachorro, um acidente de carro e a ameaça de sua mulher.

Encarnando Curtis como um homem frágil, apesar da composição avantajada, e lúcido, apesar da aparente insanidade, Michael Shannon curva-se a uma interpretação minimalista, atormentada e convincente de alguém cujas palavras são pronunciadas sem a menor inflexão dos lábios, como se a boca tivesse vergonha dos devaneios profetizados. De olhar pesaroso proveniente da noção de que suas ações competem contra a cirurgia de implante auditivo de sua pequena e adorável filha surda (Stewart), não obstante Curtis mantém agredindo a ponta do prego sem, contudo, despir-se do traje vulnerável tocado pelas mãos de sua esposa Sam (Chastain). Com mais uma interpretação digna de todas as premiações possíveis – não estou me referindo ao chato Histórias Cruzadas, mas a Árvore da Vida -, Jéssica Chastain é a cúmplice e porto seguro do marido, e mesmo quando age impulsivamente (nas agressões físicas frutos do descontentamento), é inegável o sentimento de companheirismo e compreensão da mulher.

É sobre os trilhos deste relacionamento que a simbólica narrativa de O Abrigo caminha: um interessante e racional estudo de personagem revestido da ameaça de um mal inevitável e que nos leva a questionar o corolário apresentado logo no início desta crítica. Pois, nem sempre as maçãs caem próximas às árvores; as vezes, elas percorrem caminhos próprios e dissimulam na semelhante infelicidade de um horizonte límpido e prazeroso, uma escuridão que apenas poderia existir dentro de cada um de nós. E tal como o ribombo de um trovão, testemunhar esta escuridão é uma experiência assustadora e trágica.

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17 Comments on “O Abrigo”

  1. WOW! Que texto. Revi Take Shelter ontem, já considerava-o grandioso à primeira vista, mas ainda não tinha me emocionado tanto que realmente é capaz ou criado tanto apego quanto o longa de estréia de Nichols: Shotgun Stories. Agora é oficial: Take Shelter é um dos melhores filmes do ano.

  2. Parabéns pelo texto, uma maravilha! Agora acho que fui o único que não vi nada de tão excepcional em O Abrigo. Sim, o elenco é impecável, nunca vi Michael Shannon tão bem e Jessica Chastain me deixa mais feliz a cada filme que faz. Mas acho que o tema da loucura já foi tão utilizado no cinema que, com a abordagem que O Abrigo faz sobre o caso de Curtis, ele me pareceu não O filme, mas apenas mais um filme. E nem o final dúbio conseguiu me fazer mudar minha opinião. Achei, no fundo, um bom filme.
    Abraços!

  3. filme impar,poucos diretores conseguem orquestrar um filme assim,filme que vai servir de cliche pra muitos outros.excelente filme vai servir de estudos e debates em faculdades.so ha um filme dubio assim que o diretor deixa voce queimando neuronios: sangue negro.

  4. É um bom filme, achei interessante como Nichols conseguiu transformar Take Shelter num suspense psicológico acima da média à partir de um texto simples. Boas atuações e a cena dúbia no final ficou bem legal, trilha sonora ajudou bastante no impacto da ausência parcial da catástrofe (não fosse ela, ele seria frustrante). Mas achei que fica só nisso, nada de muito excepcional. Apesar de tudo, a crítica está excelente, parabéns.

  5. Mensagem do filme: O medo é sempre de algo real. A ansiedade intensa que marca a época, que leva milhões a se medicarem, que aumenta em progressão geométrica o número de "distúrbios" na lista dos psiquiatras, não tem a ver com perturbações internas à consciência e ao cérebro, mas com algo que está lá fora. O filme diz: pro inferno com o psicologia e com a psiquiatria que querem reduzir os distúrbios a problemas individuais, da química cerebral ou das vivências. Há algo no mundo que nos ameaça e nos apavora. A paranoia e a esquizofrenia são uma espécie de extremo de um medo, uma ansiedade, uma angústia que se originam da realidade. É isso que tiro do filme.

  6. É de se sentir um pouco apagado com tantos comentários e um texto tão excepcional como o que li aqui. Expressando minha opinião como leigo, um simples fan da arte cinematográfica, custo arriscar dizer que, nenhuma obra antes, repito, nenhuma obra, teve tao grande impacto em minha vida, personalidade e moral quanto "O abrigo". Algumas coisas simplesmente não podem ser explicadas, é como ouvir um sino tocar dentro de seu coração, acordando sua alma, para uma situação fictícia, mas tao próxima de nossos sonhos que passa a ser, por um momento, real, como se estivéssemos observando o futuro a nossa frente. Algo que permite observar a mente humana de modo mais preciso, em seu mais intimo momento, conhecendo oque realmente somos por dentro.

  7. Concordo com o Gabriel Neves. O filme é interessante e interpretação dos dois protagonistas é excepcional, mas a história poderia ser melhor trabalhada, principalmente o final que poderia ser mais explorado.

  8. Ou ele chutou o balde e mergulhou de cabeça na paranoia delirante, ou realmente a coisa ficou braba por lá… eu fico com a segunda opção, porque foi a filha que chamou a atenção dele, diferente das outras vezes e do sonhos quando ele que via.

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