Círculo do Medo

Cape Fear, Estados Unidos, 1962. Direção: J. Lee Thompson. Roteiro: James R. Webb baseado no livro de John D. MacDonald. Elenco: Gregory Peck, Robert Mitchum, Polly Bergen, Lori Martin, Martin Balsam, Jack Kruschen, Telly Savalas e Barrie Chase. Duração: 105 minutos.

Antes de Martin Scorsese, em 1991, adaptar a obra de John D. MacDonald Os Executores(sob o título de Cabo do Medo), estrelando Robert De Niro e Nick Nolte, o diretor J. Lee Thompson, em destaque após a surpreendente indicação ao Oscar por Os Canhões de Navarone, interessou-se nesta história a respeito da vingança do ex-presidiário Max Cady, condenado a exatos oito anos, quatro meses e treze dias de prisão, contra a testemunha da acusação determinante para o desfecho do julgamento: o advogado Sam Bowden. Envolvendo valores que, mesmo quando irregularmente desenvolvidos, provocam o espectador, e mexem com o seu brio, levando-o a encarar o rosto da maldade sem restrições e falsas pretensões de piedade, Círculo do Medo é um eficiente exercício na construção de tensão, um thriller acima da média e plenamente consciente do potencial da premissa e da natureza animalesca do antagonista.
Dono de um histórico de agressão contra mulheres, Max Cady é naturalmente um sujeito mau e não tem a menor vergonha de disfarçar. Dedicado a empreender uma guerra de nervos, Max aprecia alimentar a insegurança de Sam, seguindo-o abertamente em plena luz do dia e ameaçando a sua família de maneiras que não possa ser repreendido pela lei, tanto que vadiagem e libertinagem parecem as únicas atividades “ilícitas” que o sujeito pratica. Ademais, se na obra de Scorsese, Sam é tão imoral e culpado, pois é graças à negligência no cargo de defensor público que Max é condenado por suposta agressão, aqui ele é alguém pacato, chefe de família tipicamente norte-americana, cumprindo seus deveres de cidadão ao depor sobre a indubitável brutalidade de Max. Essa sensível mudança restringe as atitudes de Sam à unidimensionalidade ao passos que torna Max um sujeito mais perverso do que aquele interpretado por Robert De Niro.

Por outro lado, em ambas as versões Max teve tempo de sobra para aprender um pouco sobre as leis no encarceramento. Sabendo que jamais seria condenado por aquilo existente apenas no seu íntimo, ele manipula Sam e o leva a afrontar a ética profissional, forçando-o a se valer de suas amizades na polícia e de meios ilegais, inclusive. Quem poderia julgá-lo? A inquietude provocada pela repetida sugestão de que abusaria sexualmente de sua esposa ou filha adolescente bastam para movimentar o mais manso, quiça alguém não particularmente inocente. E se de um lado há a agressividade e ardil, do outro alguém dedicado a interpor o poder em seu benefício, criando um questionamento instigante até onde se pode ir quando não se está acobertado pelo manto legal.

Assim, pela maneira com que se dispõem as peças, não é difícil que a interpretação magnética e intensa de Robert Mitchum eclipsem o desinteressante Gregory Peck, engessado numa articulação inexpressiva em face de um tormento que exigiria mais do que apenas uma sobrancelha arqueada. O que explica o porquê de Max ser frequentemente enquadrado de baixo para cima ou em close, enquanto Sam em tradicionais planos médios. Mas, não pára aí, pois a mise en scène de J. Lee Thompson busca formas de ressaltar a dominância de Max, seja colocando-o num ponto elevado (a cena no píer), quanto na maneira onipresente com que surge nas cenas (na perseguição a Lori no colégio). E já que falei na jovem, é inquestionável o desleixo de Peggy (Bergen), sendo que a orientação expressa de Sam havia sido não deixar Lori sozinha em hipótese alguma.
Inspirando-se no cinema noir e com influências hitchcockianas (a escolha do compositor Bernard Hermann não é ao acaso), J. Lee Thompson aposta em um crescendo de agressões que culminam no irrepreensível clímax ambientado no Cabo do Medo do título original. Mantendo a aflição sempre constante, o diretor abusa dos planos inclinados, do angustiante silêncio seguido de incômodo barulho de mosquitos e da trilha sonora impactante que acentua a transição das ameaças para a ação concreta de Max, um autêntico predador que terminando de brincar com a sua presa, partia para o ataque final.
Fotografado em preto e branco, o que reforça a comparação do parágrafo anterior, não consigo sequer imaginar como a alternativa em cores pudesse valorizar à produção: a parca iluminação e as sombras desempenham um papel importante demais para serem descartadas prontamente. Abdicar disto prejudicaria o esgueirar de Max Cady por entre as escuridão da vegetação ciliar; no final das contas, fundamental para esta narrativa gratificante sobre a ineficácia das leis e até que ponto um homem precisa recorrer à violência para proteger os seus de um sádico.

Agora, imaginem se fosse dirigido pelo mestre do suspense? 

Esta crítica integra o especial do Cinema com Crítica que celebra o aniversário de clássicos que completaram 50 anos de idade. Na próxima edição, Vício Maldito.
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3 Comments on “Círculo do Medo”

  1. Apesar de uma críticas suas ao filme, confesso que fiquei interessado em vê-lo. E meu interesse agora é maior por esse file do que é pela obra de Socrsese de 1991, que, aliás, eu tinha muita vontade de ver.
    Adorei seu texto.

  2. Cabo do Medo é uma das obras mais ímpares na cinematografia do Scorsese. Robert De Niro está em uma de suas melhores atuações, num papel absolutamente assombroso. Sempre me contentei com a "refilmagem" do mestre, mas seu texto me instigou a ver Círculo do Medo, sobretudo pela diferente de abordagem do antagonista (aliás, se em Cabo do Medo ele já é extremamente perverso, imagino aqui!).

  3. Gosto bastante, mas acho que esse é um raro caso de refilmagem melhor que o original. Mitchum é estupendo, mas Peck e sua família são meio… desinteressantes, são perfeitinhos demais. No remake, os personagens são mais cinzentos.

    Ótimo texto, parabéns.

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