50 Anos | Guerra, terror, faroeste e múltiplas narrativas

Aí você começa a ler uma publicação em que A Conquista do Oeste, Muralhas do Pavor e O Mais Longo dos Dias dividem o mesmo destaque e se pergunta como isto é possível. A resposta não está no gênero, na nacionalidade ou na equipe envolvida, mas no formato de múltiplas narrativas empregado seja na forma de uma antologia de histórias de terror, seja nos diferentes pontos de vista de um mesmo evento ou ainda na segmentação de uma história vivida por diversos personagens ao longo de décadas.

A Conquista do Oeste (How the West Was Won) – Direção: John Ford, Henry Hathaway e George Marshall.

A Conquista do Oeste não é sentar diante de um produto cinematográfico, mas uma aula de história satisfatória que superficialmente acompanha os eventos do século XIX durante a progressiva ocupação do oeste norte-americano. Da chegada dos primeiros pioneiros à descoberta da primeira petita de ouro, da guerra civil à construção das estradas de ferro e às disputas com os índios, culminando no velho oeste retratado tradicionalmente nos faroeste clássicos de xerifes e bandidos, o roteiro segmentado de James R. Webb e o esforço de três grandes diretores do gênero (John Ford, George Marshall e Henry Hathaway – que assumiu mais da metade da produção) é responsável por um trabalho interessante que, se não inova no ponto de vista narrativo, ao menos é grandioso o bastante para povoar cerca de 3 horas de narrativa.

A história acompanha a família Prescott que vem do leste para começar uma nova vida e montar uma fazenda na região. Mas as herdeiras Eve (Carroll Baker) e Lilith (a bela Debbie Reynolds) têm objetivos distintos: esta deseja residir em uma grande cidade e ter uma vida de luxo, roupas de seda e jóias; aquela já não vê problema algum em se estabelecer na região, sobretudo depois de se apaixonar por Linus Rawlings (James Stewart), um caçador e comerciante de peles. Um incidente trágico provoca a separação das irmãs, mas não impede a história de escrever o nome Prescott (ou Rawlings) nos eventos retratados adiante, seja no retorno de Lilith à sua casa ou nas figuras de Zebulon (Karl Malden) e Zeb (George Peppard), filhos de Eve.

Usando temas romantizados clichês (o amor de uma mulher independente por um homem interesseiro, o sonho de um jovem em participar da guerra até descobrir que esta não era tão gloriosa quanto ele esperava), A Conquista do Oeste impressiona mesmo por seu visual espetacular fruto do trabalho de quatro diretores de fotografia (todos premiados com o Oscar) com as trabalhosas câmeras Cinerama. Capturando a essência da estéril paisagem em planos abertos e panorâmicos, são sensacionais as sequências como o tiroteio sobre um trem em movimento, o ataques dos índios a uma diligência e a luta para sobreviver em uma corredeira, pois se hoje todas recorreriam a efeitos especiais (as vezes, artificiais), antes havia só planejamento e criatividade dos realizadores e nada mais real do que ver uma manada de centenas de búfalos em disparada destruindo tudo a sua frente na melhor cena do filme.

Também não há como não se conquistar (argh, trocadilho pavoroso!) por um elenco que envolve participações de lendas como Gregory Peck, Robert Preston, Eli Wallach, John Wayne, Henry Fonda, Lee J. Cobb, Carolyn Jones e a narração de Spencer Tracy. Mesmo demasiadamente quadrado e pouco desafiador, este faroeste ensina sobre a história dos Estados Unidos e cinema, no gênero mais querido por nossos pais e avós, condensando décadas de faroestes na robusta e épica saga de uma família de desbravadores.

Muralhas do Pavor (Tales of Terror) – Direção: Roger Corman

A reputação de Roger Corman não deixa dúvidas do que se pode esperar de uma produção que carrega a sua assinatura. Rei dos filmes B, Corman gostou de brincar de macabro na sua longeva carreira, investindo em narrativas trash que provocavam pouquíssimos sustos (ou melhor, nenhum), mas divertiam na metáfora da sisudez descompromissada com que eram enxergadas. Era apenas uma questão de tempo para que sua carreira cruzasse com a de um autor que amava o sinistro e do qual se separava por mais de um século: Edgar Allan Poe. Assim nasceu este Muralhas de Pavor, uma antologia de três histórias de terror baseadas em contos de Poe e adaptada por Richard Matheson (o autor dos contos em que se basearam Eu sou a Lenda e A Caixa).

Tendo como elemento comum o além vida, Corman usa como pivô das três histórias Vincent Price, o seu ator favorito, interpretando personagens distintos, porém diretamente envolvidos com os casos vindos da mente doentia de Poe. Em todas as histórias também há uma donzela loira e angelical (Maggie Pierce, Joyce Jameson e Debra Paget), estopins de ações irreversíveis postas a cabo por homens cuja aparência ameaçadora nem esconde a sua maldade. Se os olhos esbugalhados e a postura franzina de Peter Lorre disfarçam a índole perversa do alcoólatra Montresor, Basil Rathbone imprime arrogância através da frieza de sua voz e do seu olhar malicioso, fazendo o especialista em hipnose Carmichael um homem a se temer.

Mas como geralmente ocorre na obra de Corman, o desleixo, ou melhor, a irrelevância com que o diretor criava a atmosfera, diminuem as já reduzidas chances das histórias serem envolventes e assustadoras. Logo quando Maggie Pierce chega à casa de seu pai, uma enorme neblina cobre dois palmos acima do chão e depois o establishing shot do castelo investe em cores toscas que remetem imediatamente à sua artificialidade. Em seguida, no interior da mansão, a direção de arte revela-se burocrática na repetição de teias de aranha que cobrem móveis outrora imponentes e agora somente sujos; noutra história, as externas da aldeia nem se preocupam em esconder o cenário de papelão e a falsidade dos muros das casas. Finalmente, a decomposição de um personagem em uma massa disforme parecida com chocolate provoca mais risos do que pânico.

Mas, quem sabe não tenha sido esse o desejo de Roger Corman na sua filmografia e eu só tenho entendido tudo errado ao longo dos anos? Independentemente, reconheço a importância do cara para a indústria, mas não consigo engolir quase nenhum de seus filmes. Este não foi diferente.

O Mais Longo dos Dias (The Longest Day) – Direção: Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki.

Certos projetos de outrora parecem impraticáveis nos dias de hoje, e antes que você cite o ambicioso projeto de Clint Eastwood de retratar um mesmo evento através de perspectivas diferentes (vide A Conquista da Honra e Cartas para Iwo Jima), a coordenação que O Mais Longo dos Dias exigiu é uma das coisas mais surpreendentes que me proporcionou esta visita ao ano de 1962. Apresentando os eventos da véspera do fatídico “Dia D”, quando ocorreu o desembarque das tropas Aliadas nas praias francesas da Normandia e o começo da derrocada nazista na 2ª Guerra, este projeto conta com três diretores, cada um responsável por um fronte (o norte-americano, o britânico e o alemão), e tem a proeza de manter coerentemente o tom e o ritmo da narrativa sem, contudo, abdicar da individualização esperada em algo dessa monta.

Encontrando um ponto de interseção na impaciência avolumante e na expectativa da iminente invasão como também na repetida indagação de “De que lado Deus está?“, o roteiro escrito por Cornelius Ryan baseado no seu próprio livro insere diversos pontos que, isoladamente, certamente não seriam capazes de provocar a invasão bem sucedida que a história conta, mas conjuntamente funcionaram como reação em cadeia para a vitória dos Aliados. O alto comando alemão não acreditava que o alvo seriam as acidentadas e longínquas praias da Normandia, antecipando o óbvio confronto em Pas-de-Calais, deixado claro tanto no desforço reduzido dos soldados em organizar as defesas da região quanto na ingerência hierárquica que abriu os olhos tarde demais para o que já estava perdido. Até a enxaqueca de Hitler e o temor reverencial de seus subordinados ajudam no panorama desesperador crescente, enfatizado nos instantes em que o competente diretor Bernhard Wicki impõe uma dimensão claustrofóbica mesmo à mais suntuosa sala de decisão nazista.

Por sua vez, a ousadia dos Aliados em agir da forma menos esperada rende não apenas frutos, assim os diretores Andrew Marton e Ken Annakin fazem questão de trabalhar os becos-sem-saída da narrativa e as piores decisões tomadas ratificando que na guerra não existem vencedores. Se a tropa comandada por Theodore Roosevelt (Henry Fonda) desembarca na região menos defendida da praia de Utah, o erro de cálculo durante o ataque aéreo de paraquedistas na cidade de Sainte-Mère-Église, do qual faz parte Dutch (Richard Burton), atesta a selvageria e covardia de assistir aos soldados sendo alvejados desprotegidos enquanto aterrizavam. Mas não houve momento mais violento do que a invasão da praia de Omaha, realisticamente retratado por Steven Spielberg em O Resgate do Soldado Ryan com maciço emprego de efeitos especiais, mas que aqui recorre apenas a centenas de figurantes, uma mise-en-scène perfeita realçada por tomadas aéreas de tirar o fôlego, planos longos como o que acompanha um destacamento em direção a um cassino e a montagem acertadíssima, sobretudo na terceira hora da narrativa.

Com um grande elenco, no qual se destacam John Wayne, em uma atuação dura e sensível, Robert Mitchum, dono de uma das melhores falas do longa, e Sean Connnery, em uma participação breve mas hilária, O Mais Longo dos Dias é tão impressionante hoje quanto era há 50 anos. De quebra, ratificou que Deus não apoiava nenhum dos lados durante a guerra. Uma neutralidade assustadoramente violenta.

Esta crítica integra o especial do Cinema com Crítica que celebra o aniversário de clássicos que completaram 50 anos de idade. Na próxima edição, O Milagre de Anne Sullivan.
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