Crítica | Os Penetras

Título original: Os Penetras | País de origem: Brasil | Ano de lançamento: 2012 | Dirigido por: Andrucha Waddington | Escrito por: Marcelo Vindicatto | Elenco: Marcelo Adnet, Eduardo Sterblitch, Mariana Ximenes, Andrea Beltrão, Luis Gustavo, Stepan Nercessian, Luiz Carlos Mele, Susana Vieira, Elena Sopova | Duração: 1h35min.

Sempre encaro maus bocados para extrair leite de pedra e conseguir produzir um texto sobre um filme que não é ruim a ponto de ser desprezível e nem bom o suficiente para inspirar alguns elogios. Mas, ainda que nos trancos e barrancos normalmente alcance um final feliz na minha tarefa, Os Penetras elevou o grau de dificuldade a um patamar novo. Nesse sentido, bem mais difícil do que encontrar o ponto de partida da crítica, é descobrir o que exatamente pretendia Andrucha Waddington nesta bagunça autointitulada comédia e que, para manter o nível das produções nacionais do gênero lançadas neste ano, explora pobremente o potencial de dois bons humoristas: Marcelo Adnet e Eduardo Sterblitch.

Explorando o filão de comédias bromance popularmente estreladas por Paul Rudd, além de se inspirar em Penetras Bom de Bico e tomar emprestado o ritmo agitado e desregrado de filmes como Uma Noite fora de Série, com o qual também flerta com o tema de troca de identidades, o roteiro escrito por Marcelo Vindicatto baseado em história de Andrucha Waddington sequer consegue sedimentar a amizade entre o trambiqueiro Marco Polo (Adnet) e o desiludido Beto (Sterblitch), que dirá então pensar em situações engraçadas que extraiam bons momentos da inusitada dupla. Assim, empurrando goela abaixo do espectador um primeiro encontro mal acabado, Marcos se vê obrigado a impedir o suicídio de Beto que anteriormente havia se esgueirado no city tour sabe-se lá como, pois não pagou, ou mesmo porque iria tomar aquela atitude.

Mas se derrapa miseravelmente no bromance, o roteiro erra feio na construção de seus personagens. Beto, cuja maior qualidade é parecer com um ator inglês que beijou a Hebe, é um daqueles sujeitos tão ingênuos a ponto de caminhar pelo calçadão do Rio com a carteira entupida de dinheiro, prestes a distribuir um trocado ao primeiro que pedir. Emocionalmente desequilibrado, característica que Eduardo Sterblitch explora com mediano sucesso, o personagem parece implorar por uma piada que não se resuma a álcool ou sexo e só a encontra ao rever a sua Lúcia. Enquanto isso, Marco Polo é um tremendo babaca que não hesita antes de filmar a mulher com que transou, nem tenta esconder seus planos de “depenar Beto” e fugir com quem acredita ser a mulher do cara, interpretada por Mariana Ximenes. Prato cheio para que o roteirista invente um arco dramático reconciliatório jamais claro para justificar a mudança anunciada a plenos pulmões para Beto próximo do final.

Falhando no instante em que a história deveria deslanchar, a narrativa não convence o espectador de que Marco Polo confundiria Laura, obsessão de Beto, pela Laura namorada do rico fazendeiro Anchieta (Luiz Gustavo). E não satisfeito de ter escancarado desde cedo que uma não era a outra, o diretor Andrucha Waddington sequer toma o cuidado de evitar sequências inverossímeis, como o do baile no palácio do Catete. Nela, a falsa Laura e Anchieta dançam exatamente ao lado de Beto e a russa Svetlana, fato que passa desapercebido aos olhos do astuto Nelson (Stepan Nercessian), embora logo no instante anterior ele havia avistado a moça supondo que ela fosse a Laura. Confuso? Nem tanto, já que o mínimo que se esperaria dele era desconfiar de não ter havido a menor tensão ou desconforto de um próximo ao outro – o que seria só natural de Beto.

Com uma enxurrada de enquadramentos inusitados para uma comédia, a direção investe em ângulos baixos, closes e contra-plongé que nada acrescentam à narrativa, embora um raccord de movimento no rodopiar no baile seja plasticamente belo. Porém, é no humor (ou a falta dele) o maior pecado cometido por Waddington: desperdiçando Adnet e Sterblitch, além de um elenco coadjuvante variando entre regular e o bom, o cineasta produz uma única cena que é verdadeiramente hilária. Trata-se daquela envolvendo uma dupla de policiais corruptos e um certo própolis cujo nonsense compensa a falta de lógica na sequência – observe que Adnet, apesar de ingerir a substância, é o único a não ficar ligado, mantendo o mesmo comportamento que teria se estivesse sóbrio.

Contando com a sensacional fotografia de Ricardo Della Rosa – a melhor coisa do filme -, cuja paleta de cores quentes e a superexposição do quadro no contraluz conferem uma identidade deslumbrante à cidade maravilhosa, e o céu carioca capturado após o pôr do sol mereceria uma moldura de tão belo que é, Os Penetras não chega a ser um desastre como foi Totalmente Inocentes e Até que a Sorte nos Separa, mas acaba, por comparação, fazendo com que E aí… Comeu? seja surpreendentemente a melhor comédia nacional do ano.

Quem sabe eles acertam na inevitável continuação.

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19 Comments on “Crítica | Os Penetras”

  1. Quando, no início do texto, vc se pergunta o que é pretendido com esse filme te digo minha opinião. Eu sinceramente acredito que há uma intenção desesperada em trazer o grande público pro cinema. Os diretores querem que a galera vá ao cinema pensando "hoje vou ver esse filme nacional". Nosso cinema ainda tem mto estigma e investir em produção mto legais, de grande conteúdo não é fácil, barato e as vezes não atrai tanto. Então, a tática é fazer do cinema uma continuação do que aparece na TV. Isso é ruim pra gente que é mto crítico e está sempre procurando um bom filme, mas acho que essa uma forma de mudar um pouco o estigma do "cinema nacional é uma merda" na cabeça do povão.

  2. Concordo com vc amigo… Sinceramente gostei muito do filme… Tem um enredo com uma sequência lógica, e não as piadas soltas comuns em alguns filmes de comédia, tanto nacionais quanto internacionais, vale a pena assistir.

  3. Fui no cinema, paguei o ingresso, entrei na sessão disposto a me divertir e foi isso o que aconteceu. Voce falou que a direção investiu em ângulos baixos, closes e contra-plongé, eu não sei nem que porra é essa, mas ri pra cassete do filme e indiquei aos meus amigos, que também gostaram. Abraços

  4. Bons comediantes mal aproveitados. A fotografia estava impecável, e só. Faltou conteúdo, continuidade e principalmente graça.

  5. 3
    Nao sei de que porra o cara falou, mas concordo que a cena que realmente me fez rir copiosamentefoi a dos policiais, o policial que tava dirigindo era impagael

  6. Concordo com a crítica.
    Se querem que o cinema brasileiro deslanche, o roteiro e a atuação devem ser mais trabalhadas. O Eduardo parece ser o mesmo personagem que ele representa no Pânico. Já o Adnet, como ator, ainda não convence.
    Além de td, eu espero um filme q esqueça o Rio de Janeiro. É impressionante como os filmes tendem pro carioquês. Ou são ambientados em morros/favelas, ou exploram em demasia o estilo carioca de ser, com a malandragem, sempre alguma piada envolvendo policiais corruptos, etc e etc. Já cansou. O Brasil não é só o Rio (ainda bem).
    Vamos fazer filmes para o Brasil, não só pro Rio.

  7. na boa pra gostar desse filme so tendo merda na cabeça, so gostar de porcaria, nao dei uma so risada com o filme e olha q sou fã dos protagonistas. Acho q o Adnet esta se queimando no cinema, ele so faz ponta ou filme ruim, se ele for fazer outro filme espero que ele escreva o roteiro para nao ter q passar mais vergonha do q esta passando.

  8. o filme é um lixo, e ainda falam dos Filmes do bruno mazzeo, porra diante do q o adnet fez o Bruno é "o mais foda do mundo", sou fã so Adnet mas ta dificil pra ele no cinema.

    ps: Odeio o Bruno Mazzeo, mas nao posso negar que ri infinitamente mais com os filmes dele do q esse lixo dos Penetras q na ri nenhuma vez, tudo muito forçado e Eduardo reprisando o Polvilho/freddy mercury.

  9. Eu gostei do filme justamente pela história não centrar em "coisinhas brasileiras". Apesar que já não fui muito entusiasmada porque sabia que ia ter pegação de mulher. As pessoas deveriam dar um desconto, nunca vi um filme brasileiro que não fosse duramente criticado.

  10. Você está sendo injusta e desinformada. Busque no meu blog a tag "Brasil" e veja como não é verdade esta história de criticar duramente o cinema nacional (que, pelo contrário, é excepcional em sua diversidade). Este ano tivemos os ótimos Paraísos Artificiais, Xingu, Heleno, A Música Segundo Tom Jobim, À Beira do Caminho, dentre outros.

  11. Pronto, agora estou em dúvida sobre ir ou não pra ver esse filme. Robson Eustáquio de Mesquita

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