Crítica | TOC: Transtornada, Obsessiva e Compulsiva

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A sequência inicial de TOC: Transtornada, Obsessiva e Compulsiva dá o tom do que esperar do restante da narrativa: no cenário pós-apocalíptico inspirado em Mad Max, também chamado de Amorgeddon, em que os sobreviventes comunicam-se através de linguajar estranho, meio latinizado, a personagem de Tatá Werneck arranca com um disparo de flecha os testículos de um estuprador, para decapitar outro em seguida, e a cena somente não surpreende mais por estarmos nos sonhos / delírios distópícos da subcelebridade em ascensão Kika K., relatados, na íntegra, à empresária interpretada por Vera Holtz, com o mesmo semblante sério com que repetirá, na sequência, o refrão de uma canção de axé do Timbalada. A meu ver, não há nada mais tão engraçado quanto comunicar estupidezes e tolices com a expressão de quem leva a sério cada palavra que saí da boca – no humor característico de tipos como Zach Galifianakis, em Se Beber, não Case – e que aqui funciona bem por causa do talento de Tatá.

E por mais que a comédia seja o gênero mais subjetivo que há, afinal o que me faz rir não é o que fará vocês rirem, é possível criticá-lo pelo que se propõe a ser. Nesta comédia dramática escrita e dirigida pela dupla Paulinho Caruso e Teo Poppovich, Kika K. sofre de transtorno obsessivo-compulsivo (uma espécie de bipolaridade) traduzido, visualmente, na impossibilidade de ela caminhar sobre pisos de diferentes cores (semelhante a Melvin Udall, personagem clássico de Jack Nicholson em Melhor é Impossível) ou de expressar um pavor inexplicável por supor ter deixado a chama piloto do fogão acesa (o que é retratado de modo inteligente na boa montagem sobre a qual conversaremos a seguir). Fato é que a condição da protagonista não é confortável para quem está em ascensão rumo ao estrelato, o que requer participar de eventos superficiais, tipo um programa de auditório tosco ou a promoção do livro de autoajuda que sequer escreveu. E é nesta ocasião que Kika é surpreendida pelo verdadeiro autor, que lhe entrega uma cópia com a mensagem cifrada do que pode ser a felicidade. Obstinada a decifrar seu conteúdo, Kika alia-se ao vendedor da livraria Vladimir (Furlan) e parte em busca do escritor-fantasma.

Fiel ao humor da Tatá Werneck, a narrativa é autodepreciativa (diverte-se zombando de si mesma, sem deixar-se levar a sério) e crítica, uma de suas virtudes: consciente do atual estágio da produção nacional, Kika afirma que a comédia nacional é uma “bosta” (sem esquecer que as produtoras e distribuidoras desta são as mesmas das “comédias” que alfineta (Se Eu Fosse Você 1 e 2, Até que a Sorte nos Separe 1, 2 e 3Os Penetras 1 e 2, O Condidato HonestoMeu Passado me Condena 1 e 2 etc), expressa seu desejo de gravar com “o pessoal de Recife”, fazendo alusão às produções recentes e desafiadoras de Pernambuco e confessa que a única novela a que assistiu foi “Vamp” (afirmação que deve ser verdadeira para metade dos brasileiros). E se citei os malfadados folhetins do plim-plim, o debute de Kika K. para a fama foi justamente com uma personagem estereótipada e caricatural típica das produções da Globo.

Mas não basta fingir ser crítico sem verdadeiramento sê-lo, e, mesmo com problemas, TOC não morre com o veneno da própria língua: a comédia é uma alternativa inusitada e original ao marasmo que assola o gênero, e os diretores / roteiristas saem-se bem na tarefa ao evitar gags toscas e substitui-las pelo humor caústico e ferino, além de escorar a trama em pontos de virada inesperados e soluções narrativas que nem de longe se assemelham às comodidades e artificialidades nas quais somente quem acha que comédia é gênero inferior pode pensar: e adianto, não é, embora esta seja a posição de parte significativa de membros da indústria, no cego favorecimento ao drama.

Se citei este gênero (ou anti-gênero), TOC introduz elementos dramáticos que funcionam ora no desenvolvimento do personagem, ora na própria história que se conta de busca pela felicidadee: o isolamento físico e emocional somado com namorado (Gagliasso) exclusivamente bitolado em sexo; os tons azuis na paleta de cores representam as cores habitualmente associadas à depresão; ou os versos da canção Ouro de Tolo, de Raul Seixas. A isto, soma-se a desenvoltura de Tatá Werneck em transitar, com segurança, da comédia à tragédia e vice-versa, o que é fundamental para o sucesso da narrativa. Assim, se em um instante Kika encontra-se com sua ídola (e maior rival) Ingrid Guimarães, no outro, nós a vemos dentro do carro, inclinada no vidro enquanto parece suportar um estilo de vida que não combina com ela.

Quanto a montagem, é um dos elementos primordiais da comédia cinematográfica e responsável pelo timing cômico da narrativa quando prolonga ou interrompe um diálogo para obter o efeito cômico desejado. Posto isso, os montadores Marcelo Junqueira e Fernando Stuts podem até não resistir à tentação de opor a negativa de Kika para mostrá-la fazendo exatamente o contrário na cena seguinte, porém este é apenas um capricho na competente montagem que repete uma vez mais o refrão “Eu fui embora meu amor chorou” ou que traduz, de modo econômico e simbólico, através de inserts sequenciados, o humor de Kika ou mesmo a síntese que precisávamos para saltar à cena seguinte.

Pois tal como uma comédia de esquetes, TOC: Transtornada, Obsessiva e Compulsiva namora a oportunidade de introduzir elementos só para superexplorá-los em hipérboles que vão do fã stalker à troca de nudes, e faz isto sem jamais perder de contato o fio condutor da trama: Tatá.

Nota: 


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