Crítica | Fome de Poder

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O McDonald’s revolucionou o mundo não por causa da comida fast food que desnutre milhões em vez de alimentá-los, mas por haver construído um modelo de negócios empresariais tão rentável que centenas de marcas tentaram xerocopiá-lo até com maior qualidade no produto final, embora sem o mesmo sucesso. A propósito, poucos conhecem o curioso trunfo do império McDonald’s, e adianto que não são as batatas fritas, crocantes por fora e macias por dentro: é ser um dos maiores proprietários de imóveis do mundo, atrás da Igreja Católica, cujas cruzes cristãs ainda (repito, ainda) são mais numerosas do que os arcos dourados da rede de fast food.

Escrito por Robert Siegel, de O Lutador e da animação Turbo (?), a trama tem início em 1954 enquanto Ray Kroc (Keaton) tentava convencer proprietários de restaurantes a adquirir seu novo produto: um mixer de milk-shake. Kroc, longe de ser um empresário fracassado, não é exatamente quem gostaria de ser, e isto é sugerido pela cor marrom clara, antiquada e inofensiva do paletó que veste. Certo dia, ao visitar um estabelecimento que encomendou não seis, mas oito mixers, Kroc surpreende-se tanto com a qualidade e agilidade do método criado pelos irmãos McDonalds, Dick (Nick Offerman) e Mac (John Carroll Lynch), que resolve convencê-los a admiti-lo na sociedade sob condições contratuais rígidas com o fim de franquear a rede de uma costa a outra na América.

Saber o desfecho dessa história de sucesso do capitalismo selvagem não significa não ter menos prazer em desfrutá-la e Fome de Poder é um bom filme, certamente interessante, embora não menos quadrado ou mais funcional quanto gostaria de ser. Em certo instante, Ethel (Dern), esposa de Kroc, pergunta-lhe “Quando o bastante será o bastante para você?”, para que, minutos depois, Kroc se encontre no terreno onde será construído o inapropriadamente denominado McDonald’s #1 e implora em voz baixa “Esteja certo. Pelo menos uma vez”, enquanto segura nas mãos a terra, e nós, espectadores, descubramos que até anti-heróis inescrupulosos sofrem nas mãos de clichês mal utilizados.

Por mais atípico que seja o arco dramático do protagonista, em se tratando do drama biográfico de superação de um mau-caráter, a narrativa não está imune a problemas sérios na direção de John Lee Hancock, que é incapaz de ilustrar qual o momento exato em que o vendedor ambicioso, mas não traiçoeiro, tornou-se o empresário ardiloso para quem contratos e corações servem somente para serem quebrados. A trama sugere que isto se deu com a entrada do personagem interpretado por B. J. Novak, o estereótipo do advogado cafajeste e consigliere de Kroc, o que ironicamente minimiza a atuação de Michael Keaton, que nasceu para viver personagens escorregadios, magnéticos e de índole duvidosa, e também os bons figurinos de Daniel Orlandi, que esbravejam nuances da personalidade do protagonista em particular ao substituir o terno marrom por outro preto, ameaçador e dominante.

Uma sutileza inexistente no roteiro, cujos acasos e coincidências são mais pertinentes às histórias reais do que à narrativa cinematográfica, e repare como esta é enfraquecida logo quando o único obstáculo financeiro – artificial, é bom salientar –, é solucionado por Novak em um piscar de olhos equivalente a 2-3 minutos em cena; isto sem destacar o surgimento de um judeu vendedor de Bíblias que entra e saí da trama sem jamais dizer para que veio. E, apesar de Kroc ser desacreditado e ridicularizado – a cena em que ele está jantando com amigos ricos é reveladora em razão do desconforto acentuado pelo enquadramento –, ele não era nem de longe o fracassado por quem o espectador torceria. Isto só me faz ter certeza de que se existe uma história a ser contada no surgimento do McDonald’s como hoje o conhecemos, esta não é a de Ray Kroc, desprovido da figura do antagonista e impiedoso para atravessar feito um rolo compressor sobre quem quer que se colocasse no seu caminho, mas dos irmãos Dick e Mac, cujo estabelecimento e sonhos escapam das suas mãos, irônica e tragicamente, até sequer poderem utilizar o próprio sobrenome.

A própria dupla, Nick Offerman e John Carroll Lynch, oferece performances surpreendentemente emotivas sobretudo considerada a carreira de ambos: enquanto Offerman, comediante, destaca-se pela forma desconfortável e relutante com que encara a perspectiva do próprio sucesso; Lynch, habituado a interpretar vilões (Zodíaco, Na Companhia do Medo, The Invitation etc), encontra no tom de voz baixo e olhar amistoso a maneira para enfrentar sua doença, disparada pelo estresse. E, dado o flahsback em que ambos relatam, com entusiasmo, a concepção do método Speedee e os contratempos que superaram antes de Ray Kroc, o maior deles, aparecer, reforço a certeza de que assistimos ao filme certo do ponto de vista errado.

Isso pode ser sinal dos tempos atuais, em que a sociedade privilegia aqueles dispostos a vencer a qualquer custo, e que maldosamente confundem a definição de persistência para disfarçarem a própria torpeza e enganarem outros no processo. Não todos, nem John Lee Hancock, que além de evitar celebrar Ray Kroc, critica-o através dos planos gêmeos que abrem e fecham a narrativa: primeiríssimos planos em que Michael Keaton conversa diretamente com o espectador e a câmera, em travelling, afasta-se gradualmente; na primeira vez, por que não caímos no conto do caixeiro viajante; na segunda, simplesmente por que não queremos mais estar na companhia daquele cara que dá a empreendedorismo um mau nome.


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