Crítica | Silêncio

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O silêncio é o termômetro da espiritualidade; é o que comunga o homem finito com o que existe de infinito dentro dele, no que depende da opção religiosa ou então da falta dela; é o meio com que tocamos e sentimos aquilo que as palavras abafam; é, por que não, a essência da fé, que parte da crença de que existe quem escute nosso íntimo e responda através de signos que evocam verbos mudos. É esse o mistério espiritual sobre o qual Martin Scorsese debruça-se no poético Silêncio, uma trama que parte da perseguição aos jesuítas no Japão do século XVII (1640 para ser exato) para ser um argumento contrário à intolerância religiosa e à inclinação em atentar contra a liberdade de credo de outrem ou, inclusive, o ateísmo, dois temas que infelizmente mantêm-se tão contemporâneos quanto na época em que católicos ateavam fogo em bruxas ou em que cristãos eram devorados por leões nas arenas de Roma.

A trama co-escrita por Jay Cocks (indicado ao Oscar pelos roteiros de A Época da Inocência e Gangues de Nova Iorque) e Scorsese, baseada no premiado livro de Shūsaku Endō, que o diretor vem tentando adaptar há 25 anos, acompanha a cruzada espiritual dos padres portugueses Rodrigues (Garfield, de Até o Último Homem com o qual este trabalho faz uma dobradinha interessante) e Garupe (Driver, de Star Wars – Episódio VII) para tentar descobrir se, de fato, o seu mentor, padre Ferreira (Neeson) apostatou, ou seja, renegou a fé cristã. O único indício é a carta recebida pelo Vaticano, que pode ser autêntica ou não, uma dúvida pertinente se considerada a inquisição japonesa que perseguia e torturava cristãos com requintes de maldade. Guiados pelo enigmático Kichijiro (Kubozuka), Rodrigues e Garupe reacendem a fé dos habitantes locais que encontram e se colocam como alvos de Inoue (Ogata, o Imperador Hirohito de O Sol), que pretende manter o Japão fiel à doutrina budista.

Partindo da tela escura ao som de cigarras, cuja duração estende-se o bastante para imergir o espectador no estilo da narrativa,  antes de chocar com a imagem de cabeças decapitadas e Liam Neeson, desolado, ajoelhando-se naquela que é uma das cenas mais emblemáticas da narrativa –, Scorsese, após haver explorado a violência física e psicológica, volta-se à tortura espiritual através da carne, mas também da alma. Assim, permanecer crucificado alto o suficiente somente para não morrer imediatamente afogado pelo avanço da maré ou então mergulhado, de ponta cabeça dentro de um poço, largado para sangrar até morrer machucam o corpo até chegar no espírito; entretanto, há formas mais elaboradas de matratá-lo e que tocam no âmago da fé: a conversão forçada àquilo em que não acredita, o sacrifício das ovelhas que prometeu cuidar, a proibição ao martírio, nada mais o desejo maior da fé cristã: o de repetir os passos de Jesus. Porém se engana quem supôs que Scorsese coloca-se como defensor do cristianismo católico em detrimento dos maus japoneses, cuja violência, apesar de indefensável, parte de uma premissa válida: a de que o silêncio ou a não propagação dos dogmas próprios simboliza o respeito à doutrina do próximo.

Nessa queda de braço em que não há vencedor, a violência em Silêncio não é fim, mas meio para debater a ditadura religiosa e a noção paulina de que, tal como Rodrigues hesitou, “acreditamos que trouxemos a verdade”. Se este conceito é inexistente em parte dos campos do conhecimento, que dirá da religião: intangível, pulverizada, desconstruída e interpretada por ser produto histórico-geográfico codificado no espírito familiar não coletivo. Isto é incontestável pois se os japoneses cristãos concebiam o deus católico de forma distinta da que faziam os portugueses – para aqueles, o sol é deus –, assim como faziam com o conceito nuclear do cristianismo, a ressurreição, reencenada para eles dia após dia no nascer e por do sol, então o plantio da semente no solo japonês resultaria em algo novo e que despertaria a intolerância contra a qual se punham os jesuítas – uma ironia, para dizer o mínimo.

Tais contradições estão bem ilustradas no desenrolar da narrativa, cujo conceito central é o de que a religião não pode ser imposta por palavras (catequização) nem por força (perseguição, intolerância); mas é vivida no íntimo e individualmente, sem prestar contas com ninguém senão consigo mesmo. É este o arco dramático de Rodrigues, que se agarra à imagem em madeira de Jesus com a força para enfrentar a provação imposta por Inoue – como não se recordar de O Segredo dos seus Olhos? E por citar o ídolo, a trama está repleta de símbolos bíblicos, p. ex.: o pescador de gente, a negação tripla de Pedro ou a queda de Paula no desfiladeiro, apesar de, devo insistir, não defender credo ou denominação religiosa.

Nesse sentido, a fotografia indicada ao Oscar de Rodrigo Prieto retrata a desumanidade e desesperança através da paleta de cores pálidas encartada dentro da pesada neblina, que representa as próprias trevas (o purgatório?) a que está submetido Rodrigues, ao passo que os planos contra-plongé – filmados como se a câmera estivesse literalmente no céu – e os planos abertos sugerem, até de forma óbvia, a presença divina que observa e preenche os espaços antes de ser brutalmente substituída por planos fechados mais próximas à dominância da maldade humana. Já a montadora Thelma Schoonmaker – vencedora de 3 Oscars e colaboradora habitual do diretor – dita o ritmo a partir da proposta meditativa e contemplativa da narrativa, e haverá espectadores que confundirão esta escolha diegética com adjetivos como chato ou lento. Por fim, a trilha sonora de Kim Allen e Kathryn Kluge não se permite interferir na oração feita pela narrativa, e nem poderia pois a mixagem de som reduz a trilha a níveis mínimos mas identificáveis.

Com ranhuras tal como todas as religiões – o flashback ao fim do segundo ato é dispensável e enfraquece determinado personagem –, Silêncio recorre à capacidade de enxergar e sentir o cinema com o espírito, e é irrepreensível nesse intento.


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