Crítica | Um Limite entre Nós

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Através de dez montagens teatrais, cada qual relacionada a uma década particular do século passado, o dramaturgo August Wilson retratou, de maneira tragicômica, a construção sociohistórica da identidade da comunidade afroamericana de Pittsburgh dispensando o espetáculo para enfocar tópicos cotidianos e dramas ordinários enfrentados dentro dos lares naquele período. Este Um Limite entre Nós, adaptação da peça vencedora do Tony, ambienta-se na década de 50 e pauta-se no relacionamento aparentemente controlado entre Troy Maxson e Rose Lee, e deles com as próprias frustrações.

É assim que o roteiro escrito pelo próprio August Wilson, antes do seu falecimento em 2005, e retocado por Tony Kushner (de Munique Lincoln), cujo nome, entretanto, não consta nos créditos do roteiro por determinação de Denzel Washington, leva-nos à época em que crianças jogavam, despreocupadamente, beisebol nas ruas residenciais e em que “apenas brancos têm banheiros dentro de casa“, e a constatação de que esta afirmação não é mais tão verdadeira vem como um choque para Troy, anos antes da ascensão de Malcolm X e Martin Luther King a frente dos movimentos organizados e da luta por direitos civis. Nesta década de mudanças ainda tímidas, Troy (Denzel) sonha em ser o primeiro motorista negro da empresa de coleta de lixo para a qual trabalha como gari ao lado de Jim (Henderson). Após o expediente, ambos ensaiam sua própria versão de happy hour no quintal da casa de Troy, sob o olhar desabonador, porém não repressivo de Rose (Davis, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante).

Sem negar suas raízes teatrais, a narrativa comandada por Denzel é construída sobre os diálogos rápidos que escondem ressentimentos e a mise-en-scène convencional, confinando a espaços fechados ou ainda que abertos, bem demarcados, seus poucos personagens: Gabriel (Williamson), cuja guerra custou-lhe a sanidade mental; Lyons (Hornsby), filho do primeiro relacionamento de Troy, que sonha poder viver da música; e Cory (Adepo), filho de Troy e Rose, que deseja seguir carreira de jogador profissional. As vidas deles são afetadas, de uma forma ou de outra, por ações de Troy que parece pairar sobre todos como um semideus arrogante, ególatra e verborrágico, azedo com a vida após ser rejeitado como atleta nas ligas de beisebol. E por mais que seja Denzel Washington que dê vida a Troy, nem mesmo seu carisma bonachão mascara o câncer que ele provoca internamente na família, humilhando cada membro de forma bastante peculiar, com exceção do irmão com quem lida com doçura e proteção.

Ainda assim, é curioso que até em frases ásperas como “Eu não preciso gostar de você; você é a minha responsabilidade”, dita a Cory, ou no machismo indiscutível com que trata Rose (“Você deve vir quando eu te chamo”, reclama em tom jocoso), o espectador não antipatiza Troy. Mas sente compaixão e pena. Troy é vítima de suas próprias expectativas, todas frustradas, e que inevitavelmente castraram os sonhos substiuindo-os por uma rotina que somente não ojeriza mais por causa da garrafa de gim esperando-lhe no fim do dia. Denzel encontra no sutil overacting a maneira de verbalizar o rancor de Troy que não poupa sequer a morte, no típico monólogo declamado ao vento mais propício ao teatro, mas que o ator acerta ao não o estender além do necessário.

Curiosamente, Viola Davis é a antítese de Troy: à sombra do marido, muito por causa do patriarcalismo e machismo da época, Rose aceitou o papel de chefe de casa (é para ela que Troy dá seu salário após tirar sua mesada para o álcool), mas sua discrição não se confunde com conformismo, e sim como maneira de lidar com a alternância do humor de Troy. As poucas palavras não significam inexpressividade; são, sim, parte da postura cautelosa e observadora de Rose que se manifesta sobretudo através do olhar. E, apesar de haver mencionado na crítica de Moonlight – Sob a Luz do Luar, não custa salientar que Rose não é coadjuvante, mas co-protagonista, mais inclusive do que Troy pois, apesar de este ter mais tempo em cena e mais diálogos, é ela quem sofre as consequências da narrativa.

Mais discreto e generoso na direção do que na atuação, Denzel Washington, junto ao montador Hughes Winborne, é experiente para identificar os pontos capitais da performance de cada ator e realçá-los com movimentos de câmera simples, como os travellings em direção ao rosto de Hornsby ao expor sua mágoa ou ao de Viola depois de certa confissão. Denzel também é astuto para compor quadros que dizem muito com pouco: em certa cena, Cory e Rose estão separados por uma bola de beisebol que, irrevogavelmente, simboliza Troy a partir de uma dicotomia de sonho e decepção. Por fim, os anos 50 são recriados através da textura e das cores lavadas da fotografia de Charlotte Bruus Christensen, e de um trabalho cuidadoso no design de produção e nos figurinos típicos da época e da comunidade afroamericana.

Tendo como ponto fraco a atuação de Jovan Adepo, bem abaixo dos demais intérpretes, Um Limite entre Nós reflete não acerca das questões sociais propriamente ditas que viriam a eclodir nos anos seguintes, mas sobre suas consequências diretas e tangenciais naquele núcleo familiar, cuja amargura é adocicada e construída a partir de duas grandes atuações.


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