Crítica | Dunkirk

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Por estarmos mais habituados a “assistir” a histórias em vez de “sentir” narrativas, Dunkirk pode provocar estupor, seguido de estranhamento, antes de atingir o puro êxtase. É uma experiência cinematográfica – como Gravidade fora – que evidencia por que alguns filmes demandam serem vistos na tela grande, com o melhor equipamento de áudio possível e o comprometimento irrestrito e absoluto do espectador. Em troca, oferece uma experiência indescritível de imersão cuja sensação, ao término de 107 minutos, é de alívio, no bom sentido, ao nos libertar da infernal praia-título e seus arredores e nos devolver ao mundo real, sobreviventes iguais aos soldados ingleses mais afortunados.

Escrito e dirigido por Christopher Nolan, que dispensa introduções, o roteiro retrata a parte operacional da Operação Dynamo, que objetivava resgatar a maior quantidade de aliados ingleses encurralados pelas tropas alemães em território francês. É para lá que somos atirados depois de o título surgir sobre o pano de fundo preto e os letreiros inicias oferecerem informações bastantes para contextualizar a ação, e antes de o primeiro disparo zunir, literalmente, pelos ouvidos, em um susto ensurdecedor que recria em nós, de imediato, o mesmo ímpeto de sobrevivência do cabo Tommy (Whitehead). Único de seu pelotão a chegar com vida à praia, Tommy junta-se a outros 400 mil soldados aliados aguardando um resgate que parece mais difícil a cada vez que os aviões alemães sobrevoam a área e bombardeiam, sem dificuldades, as presas fáceis e os poucos navios que Winston Churchill dispensou para a missão.

Mas a ação não se restringe à terra. Com uma estrutura narrativa intrigante que combina ações que se desenrolam em temporalidades distintas, Nolan também nos coloca a bordo da embarcação particular do Sr. Dawson (Rylance), requisitada pela Marinha, como tantas outras, para auxiliar no resgate milagroso, e dos caças pilotados por Farrier (Hardy) e Collins (Lowden), pilotos convocados para escolta e proteção. Antes, porém, de estas tramas concorrentes e complementares convergirem na mesma página do tempo, Nolan e o montador Lee Smith (seu colaborador habitual) tratam de administrar a dilatação e contração do tempo narrativo, pois enquanto os eventos terrestres estendem-se ao longo de 1 semana, os em alto-mar e no espaço aéreo têm durações mais modestas, 1 dia e 1 hora, respectivamente. Cumprem isto de modo irrepreensível, reconhecendo a inteligência do espectador em se situar sem mastigar a narrativa além do necessário: aqui, um evento é visto de um outro ponto de vista; ali, um personagem ressurge em um contexto ironicamente distinto do que agora se encontra.

Um em que o desejo de sobreviver está descasado de justiça, heroísmo ou moralidade. É este o tema de que Nolan apropria-se tão bem: o instinto animal de permanecer existindo. Por isto que a narrativa pode dispensar, sem maiores inconvenientes, a presença concreta de antagonistas, senão as consequências de seus disparos e bombas – a primeira revoada de aviões-mina na praia é, aliás, sensacional, na crueza com que os corpos são arremessados ao alto, embora a excelência técnica da sequência argumente contra si mesma, já que Nolan precisa bolar artifícios adequados à classificação indicativa PG-13. Esta, por sua vez, rejeita a violência gráfica e visceral que tão bem combina com o gênero, ou melhor, é indispensável a ele.

Se essa é uma decisão errada, pois movida cegamente pela possibilidade de aumentar o alcance etário e comercial da produção, não posso afirmar o mesmo da forma com que Nolan enxerga seus personagens. Mesmo que possam ser acusados de serem superficiais ou de não estabelecerem uma conexão forte com o público, ao ponto de sua sobrevivência tornar-se essencial, os soldados aqui são apenas um número – é isto o que afirma o personagem interpretado com misto de angústia e esperança por Kenneth Branagh – ou homens sem nome, identidade nem face – o toque do cego, então, adquire contornos poéticos. A maior parte deles são garotos, jovens demais para morrer e dispostos a evitar isto, custe o que custar, ainda que apelem à covardia ou à ingratidão.

Logo, é ideal para a narrativa que o espectador distancie-se o bastante para enxergar o cenário amplo do resgate, não a individualidade, e, em que pese o risco de esta decisão desumanizar a narrativa, o elenco alimenta-se das várias migalhas deixadas por Nolan e constrói homens movidos a sentimentos universais: coragem, heroísmo, temor, a propósito, convenhamos, para quê precisaríamos revisitar, p. ex., o clichê do soldado revendo a foto da amada ou família? Também ajuda a presença de atores talentosos, como Mark Rylance – seu choro emocionado paga a atuação -, Tom Hardy, que interpreta praticamente com o olhar, ou Cillian Murphy, embora sejam os estreantes a surpreender: Harry Styles, Fionn Whitehead e, sobretudo, Tom Glynn-Carney, particularmente na maneira com que mente sobre certo incidente.

E se fôssemos falar em protagonista, este seria o som: assim, a pervasiva, implacável e angustiante trilha sonora de Hans Zimmer tem papel-chave em construir e manter a atmosfera da narrativa; e faz isto em conjunto com a mixagem de som, que enfatiza e, por que não, individualiza mesmo o mais inocente dos projéteis, que dirá, então, algumas das melhores batalhas aéreas já vistas no cinema: um balé da morte dançado ao ritmo da fria estratégia dos pilotos e que preza pelo realismo com que ocorrem os abates.

Para terminar, bom destacar a inteligência de Nolan que, em vez de recorrer a soldados digitais para as cenas da praia, empregou figurantes que conferiram maior verossimilhança. Sem esquecer que o diretor também planeja rimas bonitas, mesmo se trágicas, como aquela que contrasta corpos mortos e flutuantes com os soldados submergindo para permanecerem vivos. É esse o ímpeto de Dunkirk provoca, antes de a bomba relógio ser desarmada e retornarmos, em procissão, à segura e silenciosa realidade.

P. S.: Recomendo assistirem em IMAX, se possível; certamente, nos cinemas.


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