Escrito pelo competente Peter Morgan (dos ótimos “O Último Rei da Escócia”, “A Rainha” e “Frost/Nixon”), o roteiro de 360 estabelece um intrigante panorama circular onde pequenas ações interferem na vida de uma celeuma de desconhecidos dispersos ao redor do mundo, e retornando ao catalisador dos eventos fechando a figura geométrica sugerida no título. A partir de pontos tangenciais definidos nos encontros, as vezes forçadamente acidentais, a história discorre sobre o efeito borboleta – a alegoria da teoria do caos na qual o bater de asas de um desses insetos poderia provocar um furacão no outro lado do globo – e quando é bem sucedida, consegue retratar de maneira singular o desenvolvimento de seus personagens. Logo no começo, somos apresentados a Mirka (Siposová), uma mulher decidida a ganhar a vida na rede de prostituição chefiada por Rocco (Krisch), para reprovação de sua irmã recatada Anna (Marcinkova). O seu primeiro trabalho é em Viena durante a feira de automóveis da qual participa Michael Daly (Law), um inglês introvertido vivendo um casamento distante e frio com Rose (Weisz). Ela, por sua vez, tem um relacionamento extraconjugal com Rui (Cazarré), um fotógrafo brasileiro residente em Londres e namorado da carioca Laura (Flor). Estes relacionamentos conexos compreendem ainda um muçulmano argelino (Debbouze), um pai amargurado (Hopkins), um criminoso sexual (Foster), a russa Valentina (Drukarova) e o guarda-costas Sergei (Vdovichenkov).
Aturdido pela engenhosidade do formato proposto, Fernando Meirelles falha em conferir a uniformidade exigida pela narrativa, alternando altos e baixos nas suas quase 2 horas. A exuberante fotografia de Adriano Goldman até consegue criar vínculos estreitos entre as múltiplas histórias através da estética visual de cores lavadas calcadas em um brutal realismo urbano. Contudo, ainda que a proposta, e o formato antológico, sugira a relevância igual de todos os personagens, existe uma predileção de uns em detrimento de outros. A subtrama passada em um aeroporto atingido pela nevasca é satisfatória, assim como a envolvendo personagens do leste europeu; por outro lado, o casal vivido por Jude Law e Rachel Weisz é desinteressante e banal para merecer só uma superficial pincelada, enquanto Juliano Cazarré, Dinara Drukarova e James Debbouze são praticamente descartados sem um desfecho apropriado.
Pensando dessa forma, os personagens de 360 bem que mereceriam uma hora a mais: enquanto a doce Anna não desgruda do seu exemplar de Anna Karenina, ensaiando uma atitude impulsiva igual a heroína do romance de Tolstói, a paixão tímida do argelino esbarra nos dogmas do islã, corroendo-o mesmo que ele tenha aprendido a não demonstrar seus sentimentos (o minimalismo da atuação de Debbouze é algo louvável). Mesmo Michael e Rose teriam algo mais a revelar além do casamento arruinado, o que a direção de arte faz com competência na frieza e impessoalidade de uma residência sem sequer um porta-retratos romântico na cabeceira da cama. Falta homogeneidade à narrativa, compensada pelas boas atuações, sobretudo do conflituoso Ben Foster (com sua tradicional cara psicótica), do brutamontes de bom coração vivido por Vladimir Vdovichenkov e Anthony Hopkins, em uma atuação discreta e paternal, embora obrigado a recitar um testemunho demasiadamente comprido.
Sem conseguir dar substância ao conceito, Fernando Meirelles saí-se melhor na obsessão por espelhos, transformando-os na rima visual das decisões que movem a narrativa, as tais bifurcações, e da ambiguidade dos sujeitos neles refletidos, além de funcionarem esteticamente para conferir um ar enigmático a mise-en-scène. Criticando a inércia que aflige seus personagens, Meirelles os põe em movimento constante proporcionando encontros em meios de transporte (ônibus, avião ou durante um passeio de carro) que mostram a importância de seguir adiante e sair do repouso – veja como o cineasta é inteligente ao tornar imprescindível uma viagem para reconciliação de um casal. Especialmente a montagem de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por Cidade de Deus, além de Tropa de Elite e Árvore da Vida) transmite a ilusão de movimento através do uso da tela dividida e cortinas, aninhadas lado-a-lado da mesma forma como se corrêssemos os olhos por dentro de um círculo.
Se acerta muito, certas intervenções de Meirelles só poluem gratuitamente a narrativa nas mudanças de foco despropositadas e na ilustração exibicionista de um motorista dirigindo com sono. Da mesma maneira, a escolha musical é preguiçosa e as composições de gosto duvidoso conferem uma identidade cultural rasteira a cada nacionalidade.
Fácil de ser dissecado em uma análise racional, mas incapaz de atingir as emoções do espectador e tornar seus personagens mais humanos, 360 padece da ambição do seu diretor em uma receita de sabores diversos, pouco recheio, muito confeito e um sabor singular, mas pouco prazeroso. Mas, mesmo diante desse novo percalço, o cinema nacional ainda deve muito a esse sujeito.

Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.
5 comentários em “360”
Você tem boas críticas, mas as vezes tem tanta necessidade de escrever em quantidade, se importando em colocar mais palavras pra tornar o texto bonito, que o torna cansativo e prolixo.
Agradeço o elogio e aceito a crítica de bom grado. Obrigado pelo feedback 🙂
Estou interessada em ver o filme. apesar das críticas, gosto dos filmes do Meirelles, inclusive ensaio sobre a cegueira. Acho que foi uma adaptação aceitável.
Gostei da sua crítica. Espero assistir em breve.
Carissa
Arte around the World
Estou curioso para assistir a esse filme, parece verdadeiramente interessante.
Não amei o filme, mas também não desgostei por completo.
Vale mais pelo esforço de Meirelles e a confiança que ele está tendo de fora.
Poses e Neuroses