Texto publicado durante a coberta da 44ª Mostra de Cinema em São Paulo
Imagens fragmentadas da tragédia ilustrada neste Nova Ordem antecedem a retirada de pacientes às pressas de um hospital público, um evento ignorado, é óbvio, pelos frequentadores do casamento entre Marianne e Alan, membros da alta sociedade mexicana. Enquanto os noivos só aguardam a chegada da juíza que selará mais este contrato matrimonial, a mãe da noiva arrecada dinheiro para Rolando, um antigo empregado que bateu na porta da mansão no casamento e pediu-lhe ajuda à cirurgia da esposa, retirada do hospital onde aguardava cirurgia e que deve, portanto, procurar um hospital privado.
Os 35 mil pesos, obtidos menos por generosidade e mais para que Rolando deixasse o casamento, representam menos de um quarto dos custos hospitalares. Como consequência disto, sem acreditar na insensibilidade dos seus, Marianne decide por conta própria, junto ao relutante Cristian, também funcionário, temporariamente abandonar o casamento e arcar com os gastos no hospital para então retornar. Se esta decisão do roteiro parece idealista demais para que nela acreditemos, a sucessão de eventos oferecerá a prova somente de que isto era irrelevante, e talvez seja este o ponto positivo do terror absoluto do Golpe de Estado executado naquele momento.
Logo após Marianne e Cristian deixarem a mansão, um movimento não especificado e integrado por membros das Forças Armadas, em conluio com os funcionários, presenteia os convidados com caos e pânico enquanto os saqueiam, violentam e até assassinam. Esta Nova Ordem que toma o Poder à força é a resposta artística de Michel Franco (de Chronic e Depois de Lúcia) a este cenário atual de incerteza promovido pela ascensão de governos que atentam contra a democracia e se associam a milícias paramilitares.
A narrativa, assim, não trata da desigualdade social, nem de pobres contra ricos, ao melhor estilo Robin Hood, mas como aqueles podem ser usados como massa de desestabilização por sujeitos mais astutos e escondidos às claras que pretendem tomar o poder para si. Não demora até que a mesma violência praticada contra os filhos/as das elites seja desferida também contra aqueles subjugados ao domínio do capital, apesar de esta ocorrer diferentemente. É porque o cão raivoso do fascismo, quando solto, não enxerga o rosto do dono, somente ataca o que está em sua frente.
A lógica da estrutura narrativa de Michel Franco estimula a desorientação através da ignorância, a qual é materializada no mínimo acesso à informação e mesmo na incapacidade em discernir quem é quem detrás de balaclavas. O emprego de subtramas construídas em torno de elipses breves, que ressaltam somente a violência em matéria bruta, auxilia em torno o espectador refém do momento e em insegurança absoluta ao que acontecerá no momento seguinte.
Entretanto, por mais que a violência seja necessária até certo ponto para ilustrar a consequência de atos de quem despreza a humanidade, é também excessiva e desprovida de maior senso crítico. Mas isto não significa ser gráfica em todo momento, porque Michel Franco acautela-se em encenar, fora de campo, assassinatos a sangue frio em que escutamos o efeito sonoro do disparo somente. Ao mesmo tempo, o diretor exibe falta de tato em submeter Marianne à violência, inclusive sexual, sem que isto tenha propósito senão evidenciar o abominável.
Um regime de exceção/fascista é monstruoso e a violência por este praticada é insensata, contudo se assenhorar dela e utilizá-la como dispositivo narrativo com fim em si próprio até o instante final, não ajuda Michel Franco senão em ser óbvio, maniqueísta e provocar a aversão do espectador. Além disto, o diretor, ao amarrar a trama ironicamente, não percebe sua ingenuidade em tornar o capital um refém do poder, quando, na verdade, facilitam-se mutuamente.
Apesar de abordar um tema importante, Nova Ordem alerta apenas o sabido: a violência é indistinta a ricos e pobres, empregadores e empregados, opressores e oprimidos, e subjuga as boas intenções daqueles que não se curvam à insanidade perpetrada. Um tema cuja seriedade inspiraria algo mais além do mero exploitation.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.