A era de um James Bond machista ou mesmo misógino parece haver chegado ao término com o arco de histórias protagonizado por Daniel Craig iniciado há 15 anos com 007 – Cassino Royale (2006). Em vez de se aproveitar das mulheres e descarta-las, James Bond é definido por elas, em particular pela traição e morte de Vesper Lynd. A experiência fulminou a capacidade de o espião confiar nas pessoas ao seu redor, e até mesmo de amar, devolvendo-lhe a uma espécie de misantropia até ser resgatado por conexões com M, Q, Moneypenny, Félix, os personagens clássicos da série de livros de Ian Flemming, e também Madeleine (Seydoux).
Madeleine é o norte do roteiro de Neal Purvis e Robert Wade, retrabalhado por Cory Joji Fukunaga (de True Detective e Beasts of no Nation), que dirige, até a versão final de Phoebe Waller-Bridge (de Fleabag). Apresentada, na infância, a partir do flashback que a associa ao misterioso vilão Lyutsifer Safin (Malek), Madeleine guarda, no interior do armário, esqueletos que receia exumar, e retarda a revelação a Bond por acreditar terem todo o tempo do mundo a aceitar o passado e recomeçar a vida juntos. Isto muda após a emboscada, diante do túmulo de Vesper, de que Madeleine pode, ou não, ter tomado parte, encerrando o relacionamento iniciado em 007 contra Spectre (2012) e enviando Bond à reclusão, mas não à desatenção, até ser encontrado por Félix (Wright), que o convida a mais uma missão.
A maioria dos personagens deste capítulo derradeiro estão oprimidos pelo passado que os impede de experimentar o agora: Bond em razão dos infortúnios decorrentes de haver baixado a guarda ao amor; Madeleine, do fato de ser a filha da mente criminosa Blofeld (Waltz); Safin, da chacina de sua família de que é o único sobrevivente; e mesmo M (Fiennes), do desejo de implementar ordem e paz a partir de meios inadequados. É o tempo que separa o passado do presente, um tempo cronológico indicado no tique taque do relógio no escritório de M – realçado pelo silêncio ensurdecedor da edição de som – e o tempo sensível, que define a duração de reencontros, descobertas e perdões. Um conceito opressor por os personagens desconhecerem o tempo restante, mas simultaneamente libertador ao permitir-lhes vivenciar o presente.
Com 163 minutos de duração, 007 – Sem Tempo para Morrer é o mais extenso da série e aproveita sabiamente a metragem para acomodar as personagens e intenções múltiplas, hipóteses e soluções. A montagem de Tom Cross e Elliot Graham concilia o desenvolvimento da trama e dos personagens e as sequências de ação, filmadas dentro dos padrões clássicos da franquia, mas não influenciadas diretamente pelas séries de filmes de Missão: Impossível, Jason Bourne ou John Wick. Desta maneira, o desenvolvimento não é negligenciado em função da ação, e vice-versa, oferecendo uma trama que é pessoal ao protagonista, sem se afastar de apresentar uma ameaça globalizada à sociedade.
Paralelamente ao núcleo narrativo, o roteiro expande a franquia cinematográfica com a introdução de Nomi, a 007 (Lynch, de Capitã Marvel), a partir da dinâmica construída em torno da rivalidade e do respeito mútuo com Bond, sem abdicar do humor ácido britânico, conveniente e coerentemente, a exemplo da sequência em que Bond substitui palavras por disparos de metralhadora. Além disto, a narrativa acentua a personalidade contraditória do personagem depois de tratar Madeleine com rispidez para, na cena imediatamente seguinte, abrir-lhe a porta do carro. E, a todo momento, existe a homenagem à mítica do personagem, seja no texto, ao retornar ao MI-6 com o crachá de visitante que não lhe cai bem, seja na forma, em como Fukunaga encena, simbolicamente no clímax, o disparo tradicional dos créditos iniciais desde dos tempos de Sean Connery.
O elenco trabalha consistentemente com a urgência e tensão típicas de desfechos, em que nenhum personagem está a salvo. Daniel Craig, que realizou boa parte das cenas de ação, despe-se da rudez e aspereza características de seu Bond, enquanto Léa Seydoux mistura doçura e inconformismo por conta do passado violento e dos vínculos sanguíneos – que serão mais importantes do que somente a frase na crítica. Já o elenco de apoio com Ralph Fiennes, Jeffrey Wright, Ben Whishaw e Naomie Harris enriquecem os personagens de que talvez estejam se despedindo. Então chego a Rami Malek, uma má decisão da direção de elenco em encerrar a série que teve Javier Bardem, Mads Mikkelsen ou Christoph Waltz com um ator que não adiciona qualquer estofo a Lyutsifer, proporcional à tolice e infantilidade de batizá-lo com o nome de sonoridade de Lúcifer.
Não é que a atuação de Rami seja necessariamente o ponto fraco da narrativa, mas a caracterização incompleta e narcisista e de como o plano caminha de encontro à trajetória intimista de Bond, sem que ambos estejam correlacionados senão forçadamente no diálogo travado em certo instante. Por outro lado, a narrativa é precisa em relacionar a infância de Madeleine à de Mathilde, e como isto impacta na tomada de decisões de Bond, até a conclusão melancólica mas muito satisfatória.

Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.