Por Alvaro Goulart
“As coisas têm o valor do aspecto, e o aspecto depende da retina” dissertou Machado de Assis ao narrar o suicídio do latifundiário riograndense, em A Semana.
Minha primeira interação com o cinema de Agnès Varda foi com Os Catadores e Eu, e não poderia ter sido uma escolha mais adequada. Fiquei impressionado com a energia e a sensibilidade daquela senhora com uma câmera na mão abordando temas tão atemporais. Em tempos de fartura de escassez e tantos problemas socioeconômicos assombrando a realidade, Varda faz seu registro com poesia e autorreferência durante seu filme-ensaio.
O remontar a história social do “catar” através de pinturas, usando a própria imagem como tela dá início a sua dissertação empática. E a mesma reflete, dentro e fora de campo, traçando seus comentários irreverentes enquanto presta reverência ao solo para poder catar o que fora deixado por outros. Afinal, “catar” e “colher” são ações distintas e simbolicamente opostas. A primeira exige curvar-se à natureza para almejar aquilo que lhe é oferecido ou deixado. A segunda é bem mais orgulhosa, faz-se com a cabeça erguida e o braço esticado.
Quando o desperdício é regra e o acesso ao que foi preterido é proibido aos rejeitados, Agnès traz a lei para restabelecer a ordem do que deveria ser natural. A colheita, por lei, precisa responder à sua função social. Cumprindo-se os critérios legais, o acesso ao alimento não pode ser alienado àqueles que têm fome. E dada a natureza mesquinha do descarte, é revoltante ter ciência da pandemia de fome – fora as demais moléstias – que há tempos perdura.
O ressignificar perpassa os alimentos e até mesmo os objetos. Varda também ressignifica nosso olhar sobre os catadores, revelando nossos preconceitos e julgamentos tolos. Sua câmera captura história de homens que consomem alimentos descartados não por condição financeira, mas como manifestação política – um deles, um professor com títulos, que dedica seus recursos a ensinar imigrantes.
A diretora nos convida ao seu íntimo. Não apenas mostrando sua moradia e as marcas do tempo que consomem sua estrutura. Ao emoldurar cada imperfeição, bolor, ela revela também seu próprio corpo. O filmar uma mão com a outra mão é muito mais que um simples gesto. E que seleção singular um relógio de vidro sem ponteiros recém tirado do lixo para não marcar o tempo em sua casa.
Agnès desde sempre é uma catadora – como se assume no título original Les glaneurs et la glaneuse. Ao longo do filme cata alimentos e objetos, mas acima de tudo é uma catadora de imagens. Seu olhar sensível e sua língua afiada fazem o seu cinema único. E sua partida, em 2019, um lamento. O cinema e o mundo carecem de mais Agnès.

JORNALISTA E PUBLICITÁRIO. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.
1 comentário em “Os Catadores e Eu”
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