Vencedor do prêmio de melhor elenco na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, Flor de Buriti é espécie de continuação espiritual de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018), também vencedor daquela Mostra, dos mesmos diretores Renée Nader Messora e João Salaviza e com enfoque da mesma tribo Krahô, no cerrado brasileiro. A história tem a mesma textura híbrida do antecessor, com ênfase em temas urgentes e contemporâneos à vida nativa no Brasil: a invasão do agronegócio e a demarcação de terras.
Há um misto de documentário etnográfico, com a problemática decorrente desde os tempos de Jean Rouch, de ficção poética, com a história do Krahô e o contato com o povo branco, e de documentário político, no reflexo da terra arrasada deixada pelo governo passado. Estas frentes caminham lado a lado de modo harmônico e dispensando comentários explicativos, diante da explicação contida na imagem. Eu admiro a dedicação de Renée e João, mas não gostei tanto quanto gostaria da obra.
Mais de meio século após Jean Rouch receber críticas em relação ao Olhar dirigido a tribos indígenas africanas, retratadas de modo exótico, antinatural e bestial até, Flor de Buriti evita os mesmos erros. Na cena inicial, os diretores enquadram os indígenas, de baixo para cima contra o céu estrelado, enquanto o chefe da tribo canta pelo parto que está acontecendo na tenda, e cujo desfecho acontecerá somente ao término da narrativa. Não há a estranheza ao enxergar o Outro, pois a câmera aproxima-se e celebra, em vez de se manter distante e voyeur. Se há juízo, é do espectador, não da câmera. No lugar da aparente neutralidade de Jean Rouch, há uma transformação da imagem que favorece a empatia ou a compreensão.
Enquanto a câmera troca a objetividade pela subjetividade, o fato pela poesia (a exemplo da sugestiva sobreposição de imagens durante um sonho premonitório), os diretores procuram identidade. A crítica à sociedade patriarcal também pode ser feita à comunidade indígena, e basta conferir quantas mulheres xamãs existem. A sequência lúdica da caça ao tamanduá é sugestiva da curiosidade e não difere se fosse o olhar indígena ou não indígena. Já os pais querem proteger a família; as mães, amá-la. A relação é imediata e não precisa adicionar X e Y para perceber que não há nada que difira este ou aquele povo no que de fato importa.
Ainda assim, há um distanciamento entre quem filma e quem é filmado, produto da cena em que o líder da tribo aponta a flecha à câmera e ao olhar do espectador ou então da reflexão que é trazida durante um protesto no Congresso: “É justo que povos não indígenas decidam sobre os povos indígenas?”, que pode ser expandida em relação ao cinema. A etnografia só será verdadeira quando for o Outro que registrar a si mesmo, por mais que a direção deseje e se esforce em não cultivar o olhar exploratório.
Já a intromissão de vídeos de discurso de Sônia Guajajara ou mesmo do protesto de povos indígenas quebra a essência etnográfica da obra – por melhor intencionado seja – e também o ritmo contemplativo, em favor da práxis. A crítica a Jair Bolsonaro, após a eleição de Lula, é anacrônica, porque somente serve para colocar o nome do ex-presidente em evidência e torná-lo o maior responsável de um comportamento sistemático do agronegócio em termos de desmatamento e de invasão de terras.
A política enfraquece a política da arte, que, em termos concretos, era mais forte quando os indígenas comentavam a respeito da perda dos costumes (as vestimentas, exemplo) ou a imagem expusesse a transformação da cultura oralizada e tipicamente indígena em uma cultura audiovisual, com o registro e a exibição das imagens de arquivo dos Krahô. Eu sinto que a direção diluiu o que funcionou em Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos em favor de um engajamento político óbvio – não é difícil compreender o motivo – e de pronunciamentos idem.
Melhor mesmo é o momento em que estamos na companhia da tribo, com a câmera posicionando o olhar nem à distância, nem em superioridade aos observados, mas no pé de maior igualdade que pode haver na linguagem do cinema, enquanto ouvimos a história, reconstituída, de como os fazendeiros da região realizaram um massacre com uma espécie de cavalo de Troia do cerrado e aos nativos restou apenas a resistência.
Eu tenho orgulho da vitória da narrativa, apesar de considerá-la inferior ao trabalho anterior dos cineastas.
Crítica publicada durante a cobertura do Festival de Cannes 2023

Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.