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Entrevista: A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai

Exibido na 76ª Berlinale, na Mostra Generation Kplus, A Fabulosa Máquina do Tempo leva ao festival alemão uma reflexão lúdica sobre transformação social, infância e futuro. Dirigido por Eliza Capai, o documentário parte do município de Guaribas, no Piauí, como a primeira cidade a receber o programa Bolsa Família, para acompanhar o impacto do programa na vida de meninas que cresceram sob essa nova realidade.

Na entrevista a seguir, a cineasta detalha como a pesquisa evoluiu para um projeto que encontrou, no olhar das crianças, a chave narrativa do filme. Entre oficinas, brincadeiras e cenas construídas coletivamente, a obra aposta na fabulação como ferramenta política e poética. O resultado é um retrato que discute desigualdade, gênero e mobilidade social sem perder a leveza, e que, ao ser exibido para plateias internacionais, amplia o debate sobre o que significa, na prática, falar de políticas públicas e direito ao futuro.

Confira:

Natália Bocanera: O município de Guaribas – PI foi o primeiro a receber o programa Bolsa Família, que é o mais importante programa social do Brasil. Esse interesse para o filme veio por conta do programa, do território, ou por algum outro motivo? Como você chegou até aqui?

Eliza Capai: Em 2013 eu li o livro do Vozes do Bolsa Família, da Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani, que contava como acompanhou os cinco primeiros anos do Fome Zero, que vira Bolsa Família. Para quem não conhece o mecanismo, em geral, o dinheiro é dado para mulheres, porque se observou, em outros países, inclusive, que quando os homens recebem, eles gastam em álcool, gastam muitas vezes com outras mulheres na rua, e o dinheiro não chega e não transforma as famílias. Quando o dinheiro é dado para as mulheres, o primeiro investimento é comida, o segundo é material escolar. Por isso, o Bolsa Família privilegia a entrega para as mulheres e uma das contrapartidas para se receber é que as crianças e adolescentes estejam na escola. Esse livro falava como nos rincões mais pobres do Brasil começava uma mudança nos diálogos de gênero na família, porque a mulher era a única pessoa que recebia dinheiro todos os meses. Eu fiquei muito curiosa com essa informação e graças a uma bolsa da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, eu pude investigar o que é que estava acontecendo nesses lares. 

Tinha um milhão de possibilidades de cidades interessantes para ir e eu acabei decidindo por Guaribas por ser a cidade piloto, por ser por ser o berço. Eu vou para lá e converso com muitas mulheres da minha idade e todas dizem frases muito parecidas: “Eu vivi a escravidão”. Sem sandália, sem comida, sem nada, isso era de cortar o coração. Eu perguntava a elas qual era o sonho de cada uma, e elas me respondiam: “meu sonho é pegar um marido bom que me dê valor”. Ou seja, a realização vem a partir do olhar do homem. Eu decido começar a conversar com as filhas dessas mulheres, que eram bem nutridas, que eram fofas, que eram estavam na escola e quando eu perguntava os sonhos, todas elas me falaram: “eu não quero casar, eu não quero ter filhos”, “eu quero ser médica”, “eu quero ser advogada”.

Para mim era muito claro que boa parte delas iria casar, mas o simples fato da subjetividade delas permitir que o sonho máximo fosse a partir da própria autonomia, isso já era uma transformação muito profunda. Eu saí de lá em 2013, entendendo que estava presenciando um momento histórico e com a certeza que eu iria voltar.

Através da parceria com a Mariana Genescá (esse é nosso terceiro longa juntas), a gente consegue um fundo do Festival de Gotemburgo, em 2021. Eu volto para lá (Guaribas), nesse momento eu conheço as novas crianças que já nasceram com benefício, ou seja, que já nasceram comendo. Eu me apaixono, porque além delas estarem na escola, estarem comendo, elas eram tiktokers, elas estavam integradas de uma outra forma. Eu me senti numa máquina do tempo, de grandes transformações num curto período de tempo.

Com as coproduções a gente volta numa pequena equipe, decidida a dar uma oficina para as crianças, para meninas de 7 a 12 anos e que a partir dessa oficina, a gente poderia entender como contar essa história de saída da miséria, de machismo estrutural pelo olhar e pelo sentimento de crianças, como que essa nova geração dialoga com esse mundo e sonha com outros mundos. 

Começa a nascer A Fabulosa Máquina do Tempo. Tem uma família que eu acompanhei desde 2015, são meninas que falavam que não iam casar. Eu termino gravando o casamento de uma e a outra indo para a universidade, a primeira mulher de todas as gerações a fazer isso. A gente ficou editando um filme e aí chegou uma hora que falamos: “São dois filmes”. 

Isso impôs urgência de falar sobre o programa social num país que vê isso de uma forma tão partidária e pobre. Ninguém vai terminar esse filme e falar: “Ah, essas crianças não deviam estar na escola, deviam estar lá na roça, passando fome”. É um desejo de entender que, quando você fala de programa social, do que está se falando. Estamos falando de crianças terem o direito de comer, de ir para a escola, de sonhar, de terem futuros melhores.

Natália Bocanera: Tanto que você só vai dar a informação de que essa cidade é piloto do programa ao final.

Eliza Capai: Isso foi muito bonito, foi muito pensado. Esse não é um filme sobre o Bolsa Família, embora tenha nascido desse lugar, ele não explica o Bolsa Família, ninguém fala a palavra Bolsa Família, mas ele existe por causa do Bolsa Família. Então eu achei importante que essa informação estivesse lá, porque eu acho que isso agrega um uma nova camada. O filme parece uma cebola. Você vê primeiro a transformação para depois descobrir da onde ela veio. Isso é muito, muito interessante.

Natália Bocanera: Eu gosto muito de filmes que trabalham com crianças, principalmente no documentário, porque eu acho que você lida com um campo em que você não consegue controlar algumas coisas. Existe ali uma naturalidade, um improviso. Como foi trabalhar com essas meninas?

Eliza Capai: A gente escreve o argumento, a gente escreve o pré-roteiro, eu sempre sinto que se eu voltar, se eu entregar o filme que eu escrevi antes de sair, é porque eu fracassei retumbantemente. Mas nesse caso era ainda muito mais forte, porque eu não queria ter controle. O descontrole era um dos principais elementos, porque a gente se propôs a brincar com elas. A gente foi entendendo que a brincadeira era a forma que elas elaboravam essas grandes questões. A Manu descobre que a mãe é frustrada porque teve filho cedo. Ela vai brincar de casinha onde ela é a mãe frustrada. A Sofia descobre que criança morre. Ela vai brincar de zumbi. Isso não foi proposto. Ela quer entender como é morrer. E ela ainda ressuscita nessa sabedoria infantil da reconstrução. Então a gente entendeu que a forma era brincadeira. Pode até ter uma regra no início, mas ela vai mudar e daqui a 5 minutos vai mudar de novo. Essa é a graça da brincadeira, brincar com as regras também. Eu me esforcei para não ter controle, para estar muito permeável na escuta, na escuta de quais eram os temas, de como esses temas eram vistos e de como esses temas deveriam aparecer no filme.

Essa preocupação com a brincadeira esteve desde o primeiro momento até o final da pós-produção. Na cor a gente começou a falar: “Vamos brincar aqui”. A colorista trouxe isso, eu fiquei em choque, porque eu estava há um ano vendo aquela imagem, e eu falei: “Nossa, que estranho, adorei”. Sempre teve esse lugar de deixar todo mundo brincar e todo mundo brincou com o filme. A edição de som brincou com filme, a montagem brincou, a cor brincou, a trilha é uma grande brincadeira ali com as meninas. A gente sabia que o melhor resultado era deixando a brincadeira seguir. 

Equipe de A Fabulosa Máquina do Tempo (Imagem: site oficial da Berlinale)

Natália Bocanera: Totalmente lúdico. Você passa o bastão de cineasta para elas, basicamente, para contarem do jeito delas a história delas. 

Eliza Capai: Isso realmente foi uma brincadeira, isso de cada um escolher o que ia filmar ali foram elas. Tem várias camadas. Tem uma camada que é o cinema direto. A gente acompanha essas meninas na própria oficina, a câmera está ali gravando a oficina, na escola, na igreja, dentro da casa delas e gravando as brincadeiras. Têm muita gente que está achando que são coisas encenadas, e não são. Elas estavam brincando e a gente estava ali com a câmera na altura delas, acompanhando, sempre com a câmera na cintura, na altura delas. Essa é uma camada.

Tem uma camada que é das entrevistas, já é mais clara a intenção. Têm as entrevistas dentro da sala de aula, que são aquelas com quadro verde em que eu entrevisto as crianças e tem a entrevista que elas fazem com as mães. Eram exercícios da própria oficina. Elas estavam aprendendo sobre entrevista. Então, eu as entrevistava e elas tinham que entrevistar as mães.

Eu estava ali também como professora da oficina, junto com elas, apoiando. Essa é uma outra camada. Tem ainda a camada das cenas criadas. Essas cenas, a maioria delas, eu levava o material de 2013 que eu tinha gravado. Então, por exemplo, o homem da Cobra, o Ceará, é material que eu gravei em 2013, que eu mostro para elas e falo: “Que cena a gente faz com isso”? 

Muitas vezes elas propunham uma cena inicial para quebrar o gelo. Em geral, elas achavam muito ruim a minha ideia. Elas vinham propondo coisas e eu começo a observar como elas sempre subvertiam o machismo, o status quo trazido por isso… o que enche o coração, você percebe que essas meninas estão entendendo a opressão e estão pensando em formas de romper com isso e romper em geral com humor.

Vendo aqui as sessões, a galera gargalha no meio do filme, e é um prazer. Eu que vim de Incompatível com a Vida, que era um filme que as pessoas saíam e estavam no banheiro ainda chorando, tinha gente que não conseguia levantar da cadeira, escutar agora a audiência gargalhando… Tô levinha aqui.

Natália Bocanera: É são sessões com crianças, correto? Então acho que você tem uma interação muito gostosa com tudo isso.

Eliza Capai: Nossa, é muito legal. É estranho, como cineasta, ver aquela sessão dublada em alemão ao vivo. Mas quando eu fico pensando que estamos perdendo a edição de som ou a trilha, e depois eu vejo aquele monte de criança alemã ouvindo, rindo e pensando sobre essa outra infância, é muito lindo. Esse festival aqui é muito maravilhoso. 

Natália Bocanera: No término do filme ficamos refletindo se essas meninas de fato vão subverter essa ideia de futuro que é muito determinada, o casamento, ter filhos. Você acha que o filme, de alguma forma, ensina a refletir um pouco melhor sobre isso, a buscar outros caminhos?

Eliza Capai: Com certeza. Eu fiquei muito emocionada antes de vir para cá (a gente veio com três meninas). A Manu escreveu que com o filme ela aprendeu o poder de trabalhar em equipe. Então eu acho que trouxe para elas um senso de comunidade Eu vejo a interação que as três estão tendo aqui. Estão cuidando uma da outra, uma que faz o penteado da outra para ir para as sessões, elas queriam se maquiar com estrelinha para a premiere, é uma coisa muito, muito bonita. Então, acho que trouxe esse senso do do coletivo. 

Quando eu pensei nesse filme lá em 2013, ele não tinha nada a ver com esse filme que sai agora em 2026. Eu torço, do fundo do meu coração, que essas meninas consigam entender o que elas estão propondo nesse filme e aplicar na vida delas de mulheres adultas. 

Natália Bocanera: E eu estou torcendo contigo! 

Eliza Capai: Eu vejo elas aqui, elas dando autógrafo, elas estão adorando dar autógrafo. Eu vejo como as pessoas vêm falar com elas com amor e com curiosidade pela infância delas. Eu vejo como as pessoas em Guariba estão repostando o que elas estão passando por aqui e entendendo o quão especial é essa infância lá. A compreensão dos adultos nisso também é muito importante.

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1 comentário em “Entrevista: A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai”

  1. MARIA CELIA CHAVES RIBEIRO

    Amei a entrevista, muito bem conduzida, e emocionei-me às lágrimas com as respostas de Eziza Capai

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