Entre passado e presente, Isabelle Huppert transformou a condessa-vampira Elizabeth Báthory de The Blood Countess, dirigida por Ulrike Ottinger, em uma figura de mais presença do que complexidade, que se impõe pelos figurinos, pelo andar afetado e pelo poder do espaço de eternidade que ocupa. Em entrevista na 76ª Berlinale, atriz e diretora descreveram para o Cinema com Crítica que enxergam a personagem não como um estudo dramático tradicional, mas como performance e diversão.
Em uma Berlinale cada vez mais cobrada por posicionamentos políticos, a diretora alemã apresenta uma obra que aposta na artificialidade, na composição frontal, na teatralidade do gesto e na diversão. Nesse sistema, Isabelle Huppert é convidada a deixar de lado qualquer profundidade reflexiva sobre sua personagem: não há interioridade a revelar. Ottinger revela que pediu que Huppert construísse os maneirismos de sua personagem “como alguém que atravessa o tapete vermelho”. E sobre isso, a atriz elaborou: “Nesses momentos (e acho que em todos os momentos do filme) você não sente que está interpretando um personagem com uma abordagem psicológica. São situações e diálogos muito estranhos. Então você não pensa muito, o que é bom, porque se começar a pensar demais, você falha, porque não tem respostas. Você se deixa ser tomada pelas situações, que muitas vezes são bastante engraçadas, e é daí que vem a energia.”
Curiosamente, Huppert revela que nunca se sentiu atraída por interpretar essa figura fantástica em sua carreira: “Não, nunca fui fascinada por vampiros. A abordagem não é psicológica nem dramática nem real. É pura invenção. Senti que eu era quase uma mensageira indo de um lugar a outro tentando encontrar esse segredo mágico, carregando essa grande questão metafísica: por que estamos aqui e para onde vamos.”

Ottinger conta que o roteiro foi escrito ainda em 1998. Vampiros, policiais, aristocratas e criados existem sempre em relação, sustentando-se mutuamente dentro da estrutura do filme: “Você tinha os dois vampiros idosos, tinha o Barão que tem como desejo mais simples tornar-se um ser humano comum e, no fim, finalmente morrer, realizando esse desejo quase comovente; e depois há o inspetor de polícia com o seu assistente. Portanto, todos são pares que se apoiam mutuamente de uma forma dramatúrgica. E assim também acontece com Isabelle. E, no caso de Isabelle, isso foi muito interessante, porque ela está acostumada a interpretar, normalmente, personagens muito psicológicas, nas quais pode ter emoções voltadas para nós. E acho que discutimos bastante isso no início.”
No caso de Isabelle Huppert, isso significou um deslocamento importante em relação ao tipo de personagem que a atriz costuma interpretar. A diretora reforça a orientação da personagem para a atriz: “Você é uma ditadora, você é forte, vai direto ao ponto, toma atalhos para fazer as coisas, e isso também precisa ser mostrado na sua expressão facial, nos seus gestos — esse é o papel.” Para a atriz, o figurino teve um papel decisivo na construção da personagem, ajudando a definir sua presença e a dimensão atemporal do filme.
Tanto a atriz quanto a diretora destacaram a importância da cidade na narrativa. Huppert afirmou que filmar em Viena foi uma descoberta, porque muitos dos lugares utilizados não fazem parte do circuito turístico habitual e carregam uma forte presença histórica: “Eu conhecia muitos dos lugares que a maioria das pessoas conhece quando vai a Viena como um bom turista, e foi bem emocionante encontrar todos esses novos, quer dizer, novos antigos lugares, mas novos para o meu conhecimento. E acho que o filme é realmente uma homenagem a Viena porque está carregado de passado e isso ajuda a abordar essa história atemporal que navega constantemente entre o passado, o presente e o futuro. Você sente e percebe a energia dos lugares onde está.”
Huppert conta, ainda, sobre seu interesse em trabalhar com a diretora: “Eu estava realmente interessada em trabalhar com a Ulrike. Ela é uma figura muito interessante. Tem visões muito fortes. Você não entende exatamente de onde vem, mas quer segui-la. E o roteiro era muito bem escrito, também escrito pela Elfriede Jelinek. Ela tem uma imaginação incrível, um mundo imaginário muito poderoso.” E ainda: “Ulrike tem uma visão muito forte. Eu sou como uma ferramenta, me deixo conduzir por ela, pelos figurinos. Havia muito trabalho prévio com cabelo, maquiagem. O tom do filme você sente desde o início, como música. Nada deve ser levado muito a sério.”

Ottinger definiu os espaços como protagonistas. Segundo ela, há um diálogo visual constante entre os personagens e a história das locações, que permite atravessar diferentes épocas dentro do mesmo filme. O interesse pelo vampiro nasce justamente dessa relação com o tempo, para a qual passado, presente e futuro coexistem.
Essa dimensão também aparece no trabalho com os figurinos e a cenografia. A diretora contou que desenvolveu um livro visual com fotografias, desenhos e referências para cada personagem e que trabalhou durante meses com as equipes de figurino e direção de arte antes do início das filmagens. A escolha do figurinista, Jorge Jara, foi pensada pela afinidade com o barroco e com a tradição visual católica.
A respeito do vampirismo, para Ottinger, o interesse pelo mito não está no aspecto de horror ou na dimensão biográfica de Elizabeth Báthory, mas na possibilidade de trabalhar com o tempo e com estruturas que atravessam séculos. Ela mencionou ainda a relação com o presente, especialmente a obsessão contemporânea pela juventude e pela tentativa de prolongar a vida, como um dos elementos que dialogam com a figura da condessa. Huppert, por sua vez, disse que nunca teve um interesse particular por vampiros e que viu a personagem mais como uma invenção do que como uma figura ligada à tradição do gênero.
Apesar dos temas, tanto a diretora quanto a atriz insistiram no tom leve do filme. Huppert afirmou que desde o início se percebe que nada deve ser levado de forma excessivamente dramática e que há um senso de humor constante. A presença da drag queen austríaca Conchita Wurst, a ênfase no figurino, e o humor no vampirismo apontam para uma dimensão camp que impedem a monumentalização da alegoria. A diretora afirmou: “A participação da Conchita Wurst foi muito divertida. Pensei em uma música e depois encontrei ‘Rise Like a Phoenix’. Enviei um e-mail ao agente e um minuto depois ele me ligou. Acabou interpretando três papéis. Aprendeu russo, sabia o texto perfeitamente, mesmo depois de filmar a noite inteira. Foi seu primeiro papel no cinema e ele é maravilhoso.“
Muito embora a margem para interpretações seja vasta, ao ser questionada a respeito de uma possível dimensão política que permeia a permanência da figura vampírica como imagem política de um poder que se recusa a morrer, como o próprio continente europeu, Huppert acrescenta: “Um poder que se recusa a morrer. Uau. É exatamente disso que eu gosto. O que é poderoso no filme é que ele simplesmente te leva até lá, te conduz a muitos lugares, porque basicamente lida com essa coisa metafísica e metafórica. Nós somos todos mortais e é disso que ele trata essencialmente. Então, a partir disso, as possibilidades e o potencial são infinitos. Imagine: se você começar a pensar sobre isso e a contar histórias sobre isso, isso vai se expandir. Temos este filme, mas amanhã pode haver outro. É um tema enorme.”
Para a diretora, uma possível interpretação política de The Blood Countess se relaciona com a obsessão pela juventude: “Há essa ideia desse fascínio que temos hoje na sociedade de otimizar os corpos e de nos tornarmos sempre mais jovens. As pessoas muito ricas colocam muito dinheiro nessa ideia de escapar da morte, que é definitivamente o nosso destino. Então, para mim, isso é realmente uma espécie de hibridização, essa ideia de que você pode comprar a eternidade. Você pode comprá-la e fazer coisas incríveis… terríveis, na verdade — mas não contra a sua própria natureza. Esse ‘hype’ também é um pouco aquilo que a nossa sociedade é: um pouco obcecada com isso. E isso é interessante, quando você faz esse tipo de filme em que as estruturas da sociedade se tornam visíveis. Isso é algo que me interessa, e é tão bonito.”
Questionada sobre o que busca hoje em um papel, Isabelle Huppert respondeu que procura encontros com diretores e não personagens específicos. Ao ser questionada pelo Cinema com Crítica se gostaria de trabalhar com diretores brasileiros, com muito entusiasmo ela rasga elogios a O Agente Secreto, e revela o desejo de trabalhar com Kleber Mendonça Filho, Karim Aïnouz, e especialmente, Wagner Moura, a quem se referiu com evidente emoção.


Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


