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Entrevista: İlker Çatak, diretor de Yellow Letters, na 76ª Berlinale

Yellow Letters, dirigido por İlker Çatak, diretor alemão de origem turca que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional por A Sala dos Professores (2023), é obra politicamente indissociável do contexto mundial em que estruturas de poder então democraticamente consolidadas flertam como o autoritarismo. Em entrevista concedida a alguns membros da imprensa na 76ª Berlinale, entre eles, a representante do Cinema com Crítica no festival, a crítica Natália Bocanera, a política e as redes sociais foram o mote temático dos questionamentos e da fala do diretor – no contexto fílmico e extra fílmico. 

Seu novo longa aborda a opressão do autoritarismo e suas consequências diretas na vida do indivíduo a partir do ponto de vista de uma família, especificamente uma família de artistas, esses que são os primeiros a serem perseguidos em regimes de exceção. A mãe, Derya (Özgü Namal) é uma atriz de teatro famosa, o pai, Aziz (Tansu Biçer) é diretor das peças teatrais que carregam o protagonismo da esposa, que vivem, com a filha adolescente de 13 anos (Leyla Smyrna Cabas), uma vida de conforto e tranquilidade que passa por uma reviravolta após a demissão de ambos – reflexo da perseguição política que passam a sofrer.

Na conversa, o diretor afirmou que seu novo filme aborda a política a partir do espaço íntimo, defendendo que toda decisão privada é também uma decisão política. Interessado nas dinâmicas de poder, ele constrói personagens que revelam sua natureza sob pressão: “É sempre mais interessante olhar para o privado quando você quer dizer algo político, certo? Se quer fazer um filme sobre política, você deve sempre procurar o privado, porque a política começa no privado. Então é uma decisão política como você cria seu filho. É uma decisão política se você é feminista, se acredita na igualdade, se acredita em certos valores. E é por isso que encenamos este filme no âmbito privado.”

Ademais, o cineasta analisou os mecanismos do autoritarismo, trazendo conceitos como “morte civil” e “morte social”, e destacou como a estratégia de “dividir para conquistar” continua sendo eficaz, especialmente na era das redes sociais, que, segundo ele, atuam para ampliar as polarizações e empobrecer a reflexão: “Li muito sobre ‘morte social’ e ‘morte civil’. ‘Morte civil’ significa que você é colocado sob julgamento, perde seu trabalho, mas não sabe quando terá um julgamento justo. Isso aconteceu com muitos judeus na Alemanha antes, que foram excluídos da sociedade, sem julgamento justo, vivendo em um limbo. Foi interessante explorar os mecanismos do autoritarismo e a diferença entre autoritarismo e totalitarismo.”

Tansu Biçer e Özgü Namal em Yellow Letters (Imagem: site oficial da Berlinale)

Diante das críticas recebidas pelo presidente do júri desta da edição, Wim Wenders, por dizer, durante questionamento sobre a situação de Gaza na coletiva de imprensa do festival, que “filmes podem mudar o mundo, mas não de um jeito político” e que cineastas “devem ficar fora da política”, İlker Çatak também criticou a exigência contemporânea por posicionamentos imediatos e públicos através de um único recorte que reduz a vida de um cineasta em uma sentença. Para o diretor, o debate atual carece de complexidade e profundidade: “Acho que ele foi um pouco mal compreendido. É muito difícil fazer perguntas complexas e esperar respostas breves e concisas. A arte pode ser política. Não precisa ser, mas cada artista deve decidir por si mesmo se quer ser político ou não. Neste momento da minha vida e carreira, quis fazer um filme assim. Não sei como serei em 10 ou 15 anos. Talvez queira fazer uma comédia sem abordagem política. Eu acho que Wim é um cara tão incrível, ele se comprometeu a vida toda com cinema, escreveu livros, tem uma Fundação onde ele está tentando ajudar jovens cineastas, e agora ele foi reduzido por uma sentença dita quando ele estava sob pressão, e as pessoas estão cancelando-o por esse motivo. Eu não acho que seja justo.”

Ao comentar a indústria cinematográfica, apontou que grandes estúdios produzem filmes como estratégia de imagem, o que dificulta a realização de obras mais ousadas. Ainda assim, demonstrou esperança na força do cinema independente e no desejo do público por narrativas que estimulem reflexão: “Acho que sim. A maior parte da produção comercial evita riscos. Quando estive em Los Angeles, um executivo da Amazon me disse que o negócio de filmes ali é apenas imagem, cosmético. Não é onde o dinheiro está. Quando filmes são feitos assim, você nunca terá um filme subversivo. Por isso é importante proteger a integridade artística e o cinema independente. Espero que as pessoas acordem e digam: ‘Esses filmes não estão alimentando nosso cérebro. Queremos algo diferente.”

O papel das redes sociais e da inteligência artificial foi bastante debatido: “Houve um tempo em que achei que as redes sociais eram uma ótima ferramenta para organização. Mas desde o segundo mandato de Trump e desde que vi que estão apoiando abertamente partidos de direita, me distanciei. Não acho que sejam saudáveis. E, em tempos de IA, estão causando danos aos nossos cérebros. São estruturadas de maneira que devemos nos tornar viciados nelas. As melhores mentes da psicologia e da tecnologia trabalham para nos manter presos. É como fumar: você nunca deveria ter começado. E pode parar hoje. Então, simplesmente pare de fumar.”

Sobre o lançamento do filme na Turquia, Çatak diz que não vê razão para que não seja possível: “Não vejo razão para não. É um grande filme. Há muito interesse,  É com a maior estrela da Turquia. Seria uma surpresa se não fosse possível.”

Quando questionado a respeito da relação de Yellow Letters com seu filme anterior, A Sala dos Professores, que explorava responsabilidade moral dentro de estruturas institucionais, o diretor brinca que seu novo filme talvez seja o primo maior do anterior: “Estou sempre procurando histórias nas quais posso colocar meus personagens sob pressão, porque acho que a verdadeira natureza de um ser humano é revelada quando você o coloca sob pressão. É sempre fácil ser gentil quando tudo está bem. Mas no momento em que as coisas ficam estressantes,  também na vida profissional é assim, então você realmente vê o verdadeiro rosto da pessoa. O poder é algo que me interessa.”

Em resposta ao Cinema com Crítica, quando questionado sobre os motivos pelos quais a arte costuma ser silenciada em regimes autoritários, ele responde que tanto a arte quanto a ciência moldam pensamentos — e é justamente isso que as torna ameaçadoras: “tem a ver com o fato de que a arte, e também a ciência, é impactante e pode moldar pensamentos. Imagino que essa seja a razão.” 

A respeito do empobrecimento do debate político nos filmes, Çatak disse ao Cinema com Crítica que se antes as pessoas assistiam aos filmes e discordavam de seus posicionamentos, como outrora já aconteceu a Martin Scorsese, hoje o público opta por nem dar chance às obras cinematográficas através apenas do que mostram os trailers: “Recentemente vi um documentário sobre Martin Scorsese. Quando ele fez ‘A Última Tentação de Cristo’, houve um grande escândalo. Sempre houve algo perturbador em filmes políticos. Mas antes as pessoas pelo menos assistiam ao filme. Hoje não assistem nem ao filme, veem o trailer e enlouquecem. Isso é muito triste.”

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