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Isabel | 2026

Classificado como 2.5 de 5

Isabel

2026

85 min

Classificado como 2.5 de 5

Diretor: Gabe Klinger

O vinho como libertação, como desinibidor de timidez, como terapêutico, como elemento de aproximação ou de afastamento de personagens, ou simplesmente um prazer a ser apreciado com elegância. A presença da bebida milenar no cinema pode vir acompanhada de simbolismos dos mais diversos, como também pode ser um mero objeto de cena para composição da personalidade de personagens. Pensemos em Sideways, de Alexander Payne, que traz o vinho como elemento de estudo profundo ao qual o protagonista vivido por Paul Giamatti dedica uma paixão fervorosa, mas principalmente, atua como intermediário de autoconhecimento, cujo efeito entorpecedor causa em nós um torpor que facilmente transita para melancolia. Lembremos de Entre Vinho e Vinagre, de Amy Poehler, e de como o chardonnay que reúne as amigas para celebrar, cumprindo seu papel inebriante, também pode ser o estopim de conflitos.

Em Isabel, novo filme da RT Features dirigido por Gabe Klinger, o vinho assume um papel de libertação feminina. A bebida, cujo estudo é sempre muito associado à figura masculina, é apropriada pela mulher através da personagem-título, vivida por Marina Person, uma sommelier defensora da vertente muito específica dos vinhos naturais fabricados em pequenas vinícolas brasileiras. Muito embora invejavelmente especializada, ela vê-se em conflito com aquilo que acredita ao exercer seu trabalho, pois laborando no restaurante do chef Tomás (John Ortiz), se afasta cada vez mais de seu objetivo profissional de incentivar o mercado nichado e familiar, obrigando-se a inserir no cardápio representantes menos artesanais da bebida.

No início de Isabel, logo compreendemos que a protagonista está contextualizada num sonho. Klinger nos engana ao colocá-la, sob os raios do sol, feliz com o marido, fazendo a pisa da uva, produzindo seu próprio vinho, personalizando a garrafa de modo muito pessoal, numa atmosfera de realização. Frases como “Viva os vinhos vivos” e “Sem censura e sem sulfito” surgem para significar o caráter afrontador que a personagem atribui à bebida. Que trata-se de um sonho falido, porém, é o entendimento que o filme vai nos inserindo aos poucos.

Michelle Ellyse e Marina Person em Isabel (Imagem: divulgação

É fato que Isabel retrata a realidade de uma classe média progressista e elitizada, e que seu sonho seja ter o próprio negócio para servir os vinhos que bebe e acredita com fé, faz parte dessa representação. Ao mesmo tempo em que assume um caráter, com o perdão do trocadilho, wine (e white) people problems sem qualquer compromisso em ser algo diferente disso, nos engana de forma gradativa quanto ao lugar que essa mulher ocupa na sociedade. Ela declina socialmente em nossa percepção, passando-nos a imagem inicial de ser uma mulher de elite, rica e desocupada, que aprecia vinhos como ratificação de sua classe social, para mostrar-se uma trabalhadora comum, frustrada por não fazer aquilo que gosta e com notórios problemas de alcoolismo.

Ainda assim, uma trabalhadora que, mesmo desempregada, seguirá sobrevivendo com conforto e sem prejuízos, ainda pertence aos espaços elitizados. O desafio de Isabel é carregar um freezer no metrô da cidade de São Paulo, é buscar nos melhores bairros o lugar ideal para seu bar, e nessa jornada, conhecer hortas e cozinhas orgânicas, fazer amizades com estrangeiros que com ela se conectam – o motivo de serem estrangeiros, e o fato de ser casada com um francês, só leva a crer que o filme a coloca (e ao vinho natural brasileiro também) como incompreendida por seus próprios conterrâneos. 

Com ares de comédia romântica que fica na amizade e uma câmera que emula o documental em alguns momentos livremente filmados nas ruas de São Paulo, Isabel é mais despretensioso que a taça de vinho natural brasileiro de pequenos produtores que ela tanto ama. O fato do bar dos sonhos da protagonista receber a denominação “Rejeitados” faz refletir qual seria o contexto de sua rejeição, e quiçá, signifique a exclusão da própria elite que ela não consegue pertencer em plenitude. De qualquer modo, ainda que repleto de conveniências de roteiro (o marido que nunca retorna da França é claramente uma delas) a falta de pretensão rende leveza e momentos divertidos – como o descompromissado vinho de piscina que ela detesta.

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