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Para os Guardados

Classificado como 4 de 5

Para os Guardados

2026

58 min

Classificado como 4 de 5

Diretor: Desali e Rafael Rocha

Em Minas Gerais, na periferia do bairro Nacional, em Contagem, a A.P.N, sigla para Aliança Periférica Nacional, é um coletivo que instrumentaliza a arte como arma política, social e educacional, que, dentre outras ações, possibilita a realização do cinema de Desali e Rafael Rocha, diretores de Para os Guardados, filme experimental híbrido vencedor do prêmio da Mostra Aurora na 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, que se une aos trabalhos anteriores dos diretores como uma construção uniforme e continuada de propósito político, de modo a dar visibilidade às lutas deste microcosmo que, nas mãos dos artistas, se universaliza. 

Vindos das artes plásticas (Desali é artista plástico e Fael Rocha está em formação), utilizam da experimentação da linguagem como mote para um impacto visual e sensorial elaborado de forma tão precisa, que mesmo o espectador menos habituado à inventividade e liberdade de ideias do cinema experimental se envolve com facilidade na causa representada por seus filmes. 

Se no trabalho anterior, o curta Estudo para uma pintura: o lavrador de café, de 2023, as pinturas de Cândido Portinari são reelaboradas para concentrar na figura de uma criança negra a referência do lavrador de café, e ainda, enquanto no curta de 2021, A.P.N, o movimento assume uma postura de guerrilha para mostrar que suas armas são pincéis e telas de pintura dadas às crianças para criarem livremente, em Para os Guardados o lado social da A.P.N na luta pela efetividade do direito das pessoas presas é abordado sob uma atmosfera reflexiva e íntima, composta de relatos muito pessoais de encarcerados que se mesclam com imagens que simbolizam, poética e vigorosamente, a resistência que se afirma do lado de fora das prisões.

Para os Guardados (Imagem: divulgação)

O lado de fora, a liberdade dos não encarcerados, é visual, constitui uma experiência cinematográfica completa. O lado de dentro, os guardados, é auditivo e sensorial. A imagem trepidada revela as figuras daquela luta externa, enquanto ouvimos áudios dos enclausurados, que relatam situações opressoras, violentas e de desumanização. A A.P.N, responsável por organizar e levar kits JUMBO (pacotes de mantimentos, higiene, limpeza e vestuário) aos presos através de seus familiares, não consegue alcançar seu objetivo – o sistema prisional está impedindo visitas e a entrega dos kits. 

Ouvimos ruídos, vemos os kits sendo preparados, e a estabilidade da imagem oscila. Reproduzem-se as grades, os sons das celas que se fecham dão entrada a cada capítulo do filme, e os personagens simulam fotografias de identificação prisional, um a um, representando aqueles que não podem se fazer representados por si. Em Para os Guardados os diretores e outros membros da A.P.N  impõem-se como corpos e vozes dos que não as possuem no mundo livre, daqueles que são incapazes de reivindicar de dentro.

A abordagem política e a colocação da causa como uma luta é semelhante à do curta A.P.N: o figurino militarizado e as máscaras que cobrem a face de figuras que encaram a câmera, sem medo, posicionadas ao lado de bandeiras da aliança, expressa com ímpeto a oposição ao sistema, que se concretiza, dessa vez, não por pincel e guache, mas pelas câmeras nas mãos dos cineastas – a insurgência se materializa em cinema.

Ainda que diante de um sistema que degenera no lugar de regenerar, e mesmo diante de tantos relatos desoladores trazidos pelos áudios diretamente gravados por aqueles em situação de clausura, Para os Guardados é esperançoso. Encontra forças no trabalho coletivo, nas mãos que trabalham, nos olhares e expressões que, ao afrontar a câmera, nos fazem um convite ao amor e a ansiar por uma vida mais digna àqueles cujos clamores não são ouvidos. 

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