A burocracia soviética mata
O ucraniano de origem bielorrussa Sergei Loznitsa é relembrado por documentários, e não por ficções, e foram estas que disputaram a Seleção Oficial do Festival de Cannes: Uma Criatura Gentil (2017), Na Neblina (2012), Minha Felicidade (2010) e, finalmente, Two Prosecutors se beneficiam imensamente da facilidade com que a Loznitsa articula o seu conhecimento dos fatos históricos com a sua habilidade narrativa. Obras que somente poderiam nascer do olhar politicamente sensível de quem não despreza a história, mas a compreende como o instrumento para evitar a repetição dos mesmos erros. Baseado na obra de Georgy Demidov, sobrevivente de um gulag soviético, o roteiro ambienta-se na União Soviética, em 1937, durante o período denominado Grande Expurgo, no qual a perseguição política e o terrorismo de Estado se mostraram ainda mais proeminentes, com a apreensão, tortura e assassinato dos adversários políticos do regime.
Um desses “adversários” é o promotor Stepniak (Aleksandr Filippenko), cuja carta de defesa, escrita a sangue e que deveria ter sido queimada, chegou às mãos do idealista promotor Kornev (Aleksandr Kuznetsov). Em busca da justiça, Kornev então decide ir ao presídio onde Stepniak está detido e entrevistá-lo, embora enfrente um obstáculo draconiano: o regime corrupto e burocrata soviético. A trama é até simples: entrar no presídio, obter o depoimento de Stepniak e finalmente convencer um líder do partido socialista de que houve uma injustiça cometida, confirmando a sua suspeita acerca de ações de opositores dentro do partido. Kornev é inocente; Loznitsa, não.
Existe um senso de humor tragicômico que atravessa a narrativa. Nós podemos sorrir da burocracia soviética, na combinação agridoce da incompetência dos membros, dos deveres de obediência à morosa cadeia de comando e da crueldade destes sujeitos que não hesitam em violentar direitos humanos enquanto esboçam sorrisos maldosos. O roteiro menciona a renovação do aparato estatal do país, mas pelo quê? Funcionários ineficazes, incompetentes ou puxa-saco, que apenas estão onde estão por acidente do destino tê-los posto na hora e no momento certos da revolução socialista. Um deles alerta Kornev que poderá pegar uma doença infecciosa caso entre na cela onde está o detido Stepniak, um motivo ofensivamente esdrúxulo, até pior do que o chá de cadeira que o protagonista enfrenta em múltiplas oportunidades.

O tempo é empregado a favor da narrativa, e contra aqueles que acreditam que só há uma maneira de trabalhá-lo. Sentimos o passar do tempo através do tédio da falta de ação. Kornev espera, e nós também o fazemos, e a imagem do relógio é sublinhada na narrativa. O socialismo stalinista não é ruim apenas por perseguir, torturar e matar os dissidentes, mas também por ser incompetente, nepotista e lento, e apesar de não ir a fundo em comparar as violências estatais, ambas caminham de mãos dadas, criando a sensação de um regime opaco decidido a portas fechadas, o que torna mais marcantes as imagens inicial e final.
Aliado ao tempo, o espaço é trabalhado pela direção com uma obsessão meticulosa, de tal maneira que os planos com as câmeras estáticas convidam o espectador a se perder e ser absorvido para o interior deles. Isso é ainda reforçado na direção de fotografia de Oleg Mutu, cuja aparência praticamente monocromática sugere como os funcionários do regime parecem confundir-se com os espaços que ocupam. Eles não estão, mas são, a subversão dos espaços de poder dentro do Estado, em que o público deixa de sê-lo e passa a ser privado. Quando Kornev retira a carteira vermelha — um recurso análogo, formalmente, à garota de A Lista de Schindler —, Loznitsa sublima o papel do indivíduo dentro da burocracia: um homem idealista, que se destaca por agir, embora a cor dessa ação seja o mesmo vermelho do sangue de Stepniak, antes de coagular-se.
Ainda que na ficção, Loznitsa repete o tema condutor da obra, a crítica à violência e à opressão estatal, que interpreto como um registro histórico, e também como denúncia ao governo Putin e conto de alerta para o amanhã. A carta de Stepniak não incinerada é como o filme inconveniente sobre o passado que teima em ser presente.
Two Prosecutors integrou a Seleção Oficial do Festival de Cannes 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

