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Se eu Fosse Vivo… Vivia | 2026

Classificado como 5 de 5

Se eu Fosse Vivo... Vivia

2026

101 min

Classificado como 5 de 5

Diretor: André Novais Oliveira

Somos expostos a uma profusão de estímulos e nos deixamos conduzir pela automaticidade dos acontecimentos de tal modo que raramente percebemos que a vida é feita muito mais por gestos rotineiros e singelos do que por grandes acontecimentos. Ambos, é certo, têm peso na memória e na formação do que somos, mas insistimos em estabelecer hierarquias de importância – uma viagem para a Europa, por exemplo, parece merecer mais atenção do que o café da manhã compartilhado diariamente; ou ainda, uma única discussão permanece mais vívida do que inúmeros passeios de mãos dadas. Aquilo que se dilui no cotidiano e que nos passa despercebido, é o que o cinema de André Novais Oliveira eleva e transcende, recordando-nos que, no simples, podem habitar memórias, afetos e existências inteiras. 

Se Eu Fosse Vivo… Vivia, novo filme do diretor que integrou a mostra Panorama da 76ª Berlinale, oferece-nos uma história de amor que atravessa o tempo e o espaço, e que se prova genuína através dos atos mais elementares da vida. Um momento romântico e feliz do início do relacionamento entre Jacira (vivida por Tainá Evaristo na juventude e por Conceição Evaristo na terceira idade) e Gilberto (interpretado por Jean Paulo Campos na juventude e por Norberto Novais Oliveira posteriormente), nos anos 1970, salta num piscar de olhos para 50 anos depois, quando já idosos eles compartilham, ternamente, uma vida vagarosa, calma e absolutamente comum, entre churrasquinhos, copos de cerveja, cafézinhos, serviços domésticos, remédios, doenças e consultas médicas.

O começo desse romance de uma vida inteira é a idealização de uma memória plenamente feliz. O prólogo de Se Eu Fosse Vivo… Vivia carrega a inocência, o afeto e o perfeccionismo de quem deseja reconstituir um tempo, um momento específico, e protegê-lo, incólume, numa redoma segura. André Novais Oliveira reconstrói os bailes black dos anos 1970 tal como contaram nossos pais, e principalmente, os pais de (nossas) famílias pretas: a discoteca é ritmada por Tim Maia em seu auge, pulsa a vida e vibra o corpo dançante, a presença e o estilo do penteado black power, as calças boca de sino e cintura alta, as cores e brilhos provenientes dos tecidos estampados. A composição detalhada e carinhosa de um Novais apaixonado envolve-nos magneticamente, mas é ingenuidade de uma serenata de amor (e um pedido de perdão) de Gilberto para Jacira, ainda jovens, que abraça-nos para, como se provará no decorrer do longa, nunca mais desejarmos soltar esse casal. Uma máquina do tempo simbólica se materializa na forma de uma luz intensa emanada de um objeto desconhecido, responsável por nos conduzir ao futuro daquele casal.

Tainá Evaristo e Jean Paulo Campos (Filmes de Plástico)

Observar esse futuro é um deleite melancólico. Jacira e Gilberto representam, nos pequenos passos e atos do dia a dia, no microcosmo de sua nostálgica casa, típica de avó, com abundância de plantas no quintal, o grande desafio que é sobreviver entre prazeres nocivos e o zelo pela saúde. André Novais parece compreender intuitivamente esse dilema, pois atribui a ele tamanha humanidade que não há qualquer espaço para julgar a preferência pela carne gordurosa ou pelo cigarro, ou mesmo as tentativas de omitir essas pequenas alegrias aos médicos nas consultas que o casal realiza conjuntamente, em cenas agridoces e tragicômicas de um modo especialmente familiar e brasileiro.

A prevalência, em Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de uma humanidade singela, acolhedora e calorosa é fruto não apenas da imensa e perceptível sensibilidade de Novais, mas também do bonito trabalho de Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira, intérpretes não profissionais — ela, em especial, em sua estreia como atriz. É justamente na naturalidade que emana dessa escolha que reside o charme do filme. Identificamos, nas figuras desses personagens, pessoas que nos são muito próximas, familiares, vizinhos, entes queridos, com quem, ainda que não convivamos hoje, já cruzaram o nosso caminho e permanecem em nós de maneira afetuosa. Há, na representação desse casal, um sentido de universalidade.

Se Norberto Novais Oliveira oferece o silêncio e o empenho de um marido fervoroso, Conceição Evaristo faz viver em Jacira uma senhora dengosa, uma mulher que merece o tratamento de rainha que o marido lhe dedica, que com seu jeitinho manhoso e sua meiguice consegue aquilo que deseja. O amor entre eles ocupa, tal qual a memória dos anos 1970, um espaço de quase idealização – já que a perfeição, de fato, não existe, Jacira e Gilberto podem ter alcançado, em Se Eu Fosse Vivo… Vivia, o ápice humanamente possível que se espera de um relacionamento de longa data.

O filme se abre ao fantástico quando Jacira adoece. A doença constitui o grande conflito de Se Eu Fosse Vivo… Vivia, a questão incontornável da existência, da qual se torna cada vez mais difícil escapar à medida que o tempo avança. Abre-se um abismo no relacionamento, porque a personagem vai se distanciando até o inalcançável. Sua presença viva, deliciosamente exigente, é uma falta que sentimos e que abala as estruturas de Gilberto (e as nossas). A atmosfera melancólica avança na medida em que o personagem se perde e não mais consegue encontrar seu caminho de volta para casa, para a vida de antes. 

É nesse ponto que André Novais Oliveira, tão gentil com essa história, permite que aquilo que é insolúvel em nosso universo encontre outras vias em diferentes mundos, tempos e espaços. Se Eu Fosse Vivo… Vivia sabe que não desvenda os mistérios do amor nem da existência, e por essa razão, se afirma como o mais puro cinema justamente por possibilitar que o fantástico atribua sentido ao cotidiano.

If I Were Alive…

We are exposed to a profusion of stimuli and allow ourselves to be carried along by the automatic flow of events in such a way that we rarely realize that life is made far more of routine, simple gestures than of grand occasions. Both, of course, carry weight in memory and in shaping who we are, but we insist on establishing hierarchies of importance — a trip to Europe, for example, seems to deserve more attention than the breakfast shared daily; or a single argument lingers more vividly than countless walks hand in hand. What dissolves into everyday life and goes unnoticed is precisely what André Novais Oliveira’s cinema elevates and transcends, reminding us that within the simple may dwell memories, affections, and entire existences.

Se Eu Fosse Vivo… Vivia, the new film by the director who took part in the Panorama section of the 76th Berlinale, offers us a love story that spans time and space, proving itself genuine through the most elementary acts of life. A romantic and happy moment at the beginning of Jacira’s relationship (played by Tainá Evaristo in her youth and by Conceição Evaristo in old age) and Gilberto (portrayed by Jean Paulo Campos in his youth and by Norberto Novais Oliveira later on) in the 1970s jumps, in the blink of an eye, to 50 years later, when, now elderly, they tenderly share a slow, calm, and utterly ordinary life — filled with little barbecues, glasses of beer, small cups of coffee, housework, medications, illnesses, and medical appointments.

The beginning of this lifelong romance is the idealization of a fully happy memory. The prologue of Se Eu Fosse Vivo… Vivia carries the innocence, affection, and perfectionism of someone who wishes to reconstruct a time — a specific moment — and preserve it, unscathed, inside a protective dome. André Novais Oliveira recreates the Black dance parties of the 1970s as our parents told them — and especially the parents of (our) Black families: the disco pulses to Tim Maia at the height of his career; life beats and the dancing body vibrates; the presence and style of the black power hairstyle; the bell-bottom, high-waisted trousers; the colors and sparkle of printed fabrics. The detailed and loving composition of a Novais in love envelops us magnetically, but it is the innocence of a love serenade (and a plea for forgiveness) from Gilberto to Jacira, still young, that embraces us so that, as will be proven throughout the feature, we never again wish to let this couple go. A symbolic time machine materializes in the form of an intense light emanating from an unknown object, responsible for leading us into that couple’s future.

Observing this future is a melancholic delight. Jacira and Gilberto represent, in the small steps and daily acts within the microcosm of their nostalgic, grandmother-typical house — abundant with plants in the backyard — the great challenge of surviving between harmful pleasures and caring for one’s health. André Novais seems to intuitively understand this dilemma, as he attributes to it such humanity that there is no room for judgment regarding a preference for fatty meat or cigarettes, or even the attempts to omit these small joys from doctors during the appointments the couple attends together — in bittersweet and tragicomic scenes in an especially familiar and Brazilian way.

The prevalence, in Se Eu Fosse Vivo… Vivia, of a simple, welcoming, and warm humanity is the result not only of Novais’s immense and perceptible sensitivity but also of the beautiful work of Conceição Evaristo and Norberto Novais Oliveira, non-professional performers — she, in particular, in her acting debut. It is precisely in the naturalness emanating from this choice that the film’s charm resides. In these characters, we recognize people who are very close to us — relatives, neighbors, loved ones — with whom, even if we no longer share our daily lives, have crossed our path and remain within us affectionately. In the portrayal of this couple, there is a sense of universality.

If Norberto Novais Oliveira offers the silence and dedication of a fervent husband, Conceição Evaristo brings to life in Jacira a doting elderly woman — a woman who deserves the queenly treatment her husband devotes to her, and who, with her coy manner and sweetness, manages to get what she wants. The love between them occupies, much like the memory of the 1970s, a space of near idealization — since perfection does not, in fact, exist, Jacira and Gilberto may have reached, in Se Eu Fosse Vivo… Vivia, the highest point humanly possible to expect from a long-standing relationship.

The film opens itself to the fantastic when Jacira falls ill. Illness constitutes the great conflict of Se Eu Fosse Vivo… Vivia, the unavoidable question of existence, from which it becomes increasingly difficult to escape as time advances. An abyss opens in the relationship because the character distances herself until she becomes unreachable. Her living presence, deliciously demanding, becomes an absence that we feel and that shakes the foundations of Gilberto (and our own). The melancholic atmosphere deepens as the character loses himself and can no longer find his way back home, back to the life he once knew.

It is at this point that André Novais Oliveira, so gentle with this story, allows what is unsolvable in our universe to find other paths in different worlds, times, and spaces. Se Eu Fosse Vivo… Vivia knows it does not unravel the mysteries of love or existence, and for that very reason affirms itself as the purest cinema precisely by allowing the fantastic to attribute meaning to the everyday.

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