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Na Passagem do Trópico

Classificado como 3.5 de 5

Na Passagem do Tempo

2025

88 min

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Francisco Miguez

Problemas graves no mundo seguem dependendo de um fator primordial para serem solucionados: a ação do ser humano. Não importa o quão grave seja a adversidade, a boa vontade das pessoas e o abandono da inércia são os impulsos principais, por exemplo, para que projetos saiam do papel, vidas sejam resgatadas ou salvas e trabalhos importantes sejam exercidos — observe-se bem a palavra “trabalho”, já que, voluntário ou remunerado, é a força do labor o motor para as transformações remediativas mencionadas aqui. 

Na mesma medida em que detém a capacidade de solucionar, o ser humano é hábil para, muito mais rápida e eficazmente, provocar problemas e destruir aquilo que, posteriormente, lhe custará caro. Em Na Passagem do Trópico, exibido na 6ª edição do Festival de Documentários de Ilhabela (Citronela Doc), o diretor Francisco Miguez parte de um percalço gravíssimo – o deslizamento de terra na cidade de Ubatuba (SP) – e faz de seu filme um empreendimento de esforços para não só tentar desatar os nós dessa questão, mas compreender suas causas e consequências. O longa expõe, de forma agridoce, bem-humorada e ponderada, que dirimir situações de risco frequentemente constitui tarefa que está nas mãos de trabalhadores cansados e desprovidos do mínimo para exercerem suas funções de forma satisfatória. 

Na Passagem do Trópico adota o formato híbrido ao ficcionalizar o personagem responsável pelo estudo e mapeamento de áreas reais de risco nas encostas da Mata Atlântica da cidade. O ator Marat Descartes interpreta o topógrafo que, na medida em que é chamado para medir e realizar seu trabalho, vai construindo um mapa expansivo tanto geográfico quanto humano, uma vez que abre-se um leque diverso e abrangente de situações que parecem, cada vez mais, se enredar em distanciamento de alguma conciliação ou desfecho, ao passo que o obreiro desgasta-se nas condições precarizadas de seu ofício e aproxima-se do cansaço e da inércia. 

Miguez atribui um certo humor melancólico, quiçá tragicômico, ao seu filme — muito pelas situações de ironia nas quais coloca o topógrafo e também pela personalidade estressada, obsessiva, ranzinza e por vezes preguiçosa que Descartes imprime ao personagem. O diretor nos faz observar o profissional e suas medições pacientes sob uma trilha sonora que carrega exatamente esse tom tragicômico, o que instiga nossa curiosidade enquanto nos perguntamos: como toda essa medição pode resolver os problemas de deslizamento na cidade? 

O trabalhador ironicamente ocupa, nesse contexto, o papel de herói capaz de salvar, com o mapeamento preventivo, a vida das pessoas que residem sob risco de desabamento. Todavia, seu teodolito é antigo e está quebrado, e ele não possui auxiliares para ajudá-lo a exercer seu ofício plenamente. Ele reclama do trabalho, suspira, faz medições obsessivamente e toma uma cerveja após uma rotina exaustiva. Aquele cujo trabalho pode salvar vidas precisa dormir, tem jornada laboral a cumprir e é cheio de limitações. 

Além disso, trata-se de um profissional que, enquanto enfrenta paradoxos em seus percursos, encontra pessoas que se recusam a deixar suas casas por motivos familiares, hereditários ou existenciais, e estuda os ambientes ao lado de ativistas e comunidades indígenas para nos fazer compreender que a preservação da Mata Atlântica é fundamental à prevenção dos deslizamentos, viaja e reflete no tempo através da mirada de seu instrumento de trabalho. Cada olhar seu pela lente do teodolito é uma passagem para outras épocas: imagens de arquivo que retratam as origens de um problema antigo que apenas se arrasta e se agrava. 

Marat Descartes em Na Passagem do Trópico (Imagem: divulgação)

A lente ampliada do teodolito é também a lente observadora da câmera de Miguez, que ora revela uma aproximação tão profunda a ponto de fazer a superfície rochosa parecer a da Lua. Nessas retrospectivas, vemos trabalhadores de outrora, jornais do passado anunciando tragédias que se repetiriam e pessoas aproveitando a praia tanto no presente quanto no passado. Somos, então, retirados bruscamente dessas imagens de lazer para adentrar registros de desmoronamentos que atravessam a temporalidade por meio do instrumento de trabalho, o qual nos conduz por épocas distintas também pelas texturas e formas da imagem. 

Praticamente toda a cidade de Ubatuba encontra-se em zonas de risco e cerca de 40% das ocupações são irregulares — ou seja, em um município de aproximadamente 97.500 habitantes, é inviável simplesmente remover cerca de 40.000 pessoas de suas casas. A imensidão desafiadora desse dilema não é evidenciada pelo diretor apenas por dados estatísticos, mas também pela relação de seus personagens com a espacialidade ao redor. Isso se destaca sobretudo quando vislumbram áreas devastadas pela tragédia ambiental: raízes expostas e encostas com o solo visível compõem um plano de fundo visualmente aterrador. 

Por vezes, Na Passagem do Trópico assume um didatismo quase destoante de sua dimensão ficcional, o que torna, inclusive, as relações cinematográficas de causa e efeito um pouco confusas. Há de se compreender, entretanto, que, ao adotar a hibridez de linguagem que funde documentário e ficção, assume-se também o risco de desorganizar o tom e a unidade estilística. Isso ocorre, principalmente, porque, no momento em que o olhar se acostuma com o ator Marat Descartes, sente-se logo a quebra da ficção por meio das pessoas reais que ele interpela. 

De fato, outra constatação não há: o ato de resolver problemas e, principalmente, o de salvar vidas, por ser humano, é naturalmente falho. Não é à toa que Na Passagem do Trópico se inicia quase como uma brincadeira entre dois trabalhadores que se comunicam à distância por aparelhos que distorcem suas falas. O labor é, aqui, distorcido; aquilo que precisa ser cumprido ou resolvido nunca se esclarece em sua totalidade – e essa é a única certeza que se tem enquanto o filme se desenrola de forma paulatina e paciente. 

É como dissemos inicialmente: por maior que seja o problema a ser resolvido, quando não há estrutura estatal que ampare o trabalho humano, quando faltam maquinários e instrumentos adequados para o exercício do ofício, quando prazos impossíveis são estabelecidos, quando o indivíduo é precarizado e desprovido de suporte para ser o “herói” que exigem que seja, precarizado também será o resultado. Afinal, a solução segue nas mãos do trabalhador cansado. 

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