A capacidade do cérebro e de sua complexa rede neural em capturar experiências e armazená-las sob a forma de memórias modula a maneira como as vivenciamos, tanto positiva quanto negativamente. Diante de uma experiência dolorosa, é possível guardá-la a sete chaves, quase ao ponto do esquecimento – contudo, o menor dos gatilhos é capaz de reativar o sentimento original, deflagrando a repetição do trauma. Por outro lado, as memórias afetivas tendem à idealização: são marcas tão singulares que qualquer tentativa de reencontro corre o risco de maculá-las, resultando em frustração.
O que é o cinema senão, também, a possibilidade de reproduzir memórias afetivas sem maculá-las? O que é o cinema senão, ainda, a preservação dessas memórias? O curta-metragem FrutaFizz, dirigido por Kauan Okuma Bueno e em exibição no 12º CineFest Votorantim, reflete justamente essa capacidade – tanto humana quanto cinematográfica – pelo ponto de vista de seu protagonista, Mauro (Renato Novaes), e do próprio realizador, ao conceber uma obra que reuniu, em sua produção, diferentes gerações do fazer fílmico.
Mauro é um motorista que, em razão de seu ofício, visita em seu percurso uma cidade do interior que marcou sua infância durante um ligeiro período de férias – um espaço, portanto, repleto de experiências positivas que ele vai recordando por onde passa. Acompanhado de seu colega de trabalho, João (Alvim Silva), ele busca resgatar os sabores, sons e afetos de outrora por meio dos espaços que frequentou, das figuras da época e dos costumes. FrutaFizz é o nome do refrigerante de gosto duvidoso sabor de chiclete que ele faz questão de provar novamente em sua primeira parada nessa rápida empreitada: um bar local, muito tradicional de qualquer cidade do interior Brasil afora.
FrutaFizz é universal. Todos nós guardamos lembranças como as de Mauro; portanto, a identificação e a sensação de acolhimento vêm muito facilmente ao espectador. Todos nós possuímos, ainda, uma tia ou um parente que guarda espaços especiais em nossa infância — pessoas que, em razão da passagem do tempo, sequer conhecemos mais. A conversa despretensiosa de bar que dá origem a diálogos quase imperceptivelmente reflexivos ocorre de forma muito natural – uma característica, diga-se, muito própria e autoral de Renato Novaes (certamente é impossível imaginar o filme sem ele).
O diretor é extremamente gentil não só com o protagonista, mas também com João, uma vez que a empolgação do colega ao contar as histórias de infância o estimula na construção de sua própria memória acerca daquela cidade e das imagens que elabora ao cruzar a vivência alheia com a pessoal. O manifesto interesse por esses dois personagens torna-se evidente nos poucos, mas precisos, movimentos de câmera de Kauan Okuma Bueno – afinal, o cineasta não hesita em, subitamente, em meio ao entretenimento proporcionado pelas narrativas de Mauro, voltar o olhar para a rotina de João, sem que percamos o fio da fala do primeiro.
Resgatar memórias afetivas envolve um certo risco. No caso de Mauro, assistimos com leveza e humor ao modo como ele cai na armadilha decepcionante de tentar reencontrar um tempo que não volta mais.
FrutaFizz é, ainda, um idealizador da valorização daqueles que fazem e fizeram o cinema acontecer. Essa, de fato, é uma reflexão implícita que o curta suscita ao contratar o argentino Rodolfo Sánchez para fotografar o filme — responsável por trabalhos como O Beijo da Mulher Aranha, Pixote: A Lei do Mais Fraco e Sonho de Valsa, apenas para citar algumas de suas obras seminais. Sánchez estava, há anos, afastado do mercado cinematográfico. Okuma Bueno é muito jovem e este é seu primeiro filme. Veja-se que, em que pese ser um cineasta em amadurecimento, sua consciência da essência do cinema como arte coletiva – que, muito embora se renove, precisa encontrar um equilíbrio geracional para sua própria sobrevivência e aprendizado – consiste em uma afirmação da sétima arte como ato político em todas as suas camadas.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

