Crítica | Harry Potter e as Relíquias da Morte, Parte 1

Pode-se fazer um paralelo significativo entre a série Harry Potter ao longo de 9 anos e 7 filmes e os jovens intérpretes Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson. Enquanto estes amadureceram, adquirindo complexidade e relevância, o mesmo ocorreu na caminhada da narrativa do jovem bruxo nas telas de cinema. Assim, é admirável reencontrar os intérpretes em uma cena brutal e dolorosa e relembrar que há alguns anos atrás eles eram apenas crianças se maravilhando com aquele mundo de magia e fantasia que se abria a sua frente.

Impacto dramático que se torna o mote principal das aventuras do bruxo e seus amigos. Pois, se antes os víamos em meio a criaturas fantásticas como grifos, em batalhas contra trolls ou nos empolgantes jogos de Quadribol, agora o mundo de Harry Potter está com o pé mais afundado na realidade. Assim, é bem vinda a decisão da narrativa transcender o mundo de Hogwarts e adentrar às ruas de Londres. E se esta evolução não é de agora e vem ganhando forma desde o primeiro minuto da saga no cinema, em As Relíquias da Morte, Parte 1, dá sinais da crescente proximidade de sua catarse na triste trilha sonora de Alexandre Desplat – a música tema de abertura nunca foi tão fúnebre – ou no logo da Warner destruído e decadente.

Neste tom, vemos a família trouxa de Harry Potter fugindo em plena escuridão londrina – saudade dos tempos em que eles pegavam no pé de Harry e este devolvia em grande estilo -, ou Hermione apagando a memória da sua existência de seus pais, em uma cena bela e melancólica. Porém, apesar de sombrio, a narrativa se dá ao luxo de uma reunião saudosista de inúmeros membros da ordem da Fênix e as piadas de Ron, menos frequentes, porém mais do que nunca necessárias para aliviar o pesado clima da narrativa.

Utilizando uma paleta de cores muito próxima do monocromático e mantendo a narrativa quase sempre em uma penumbra assustadora, o fotógrafo Eduardo Serra e o diretor David Yates criam um ambiente claustrofóbico que ilustra com propriedade o exílio do trio de amigos e a perseguição no encalço deles. Até mesmo ao nos depararmos com um “estranho” dia de sol e céu azul, David Yates povoa a imagem com comensais da morte que adentram pelo céu, tornando aquele breve deslumbre no presságio do capítulo final.

Enquanto isto, o roteirista Steve Kloves (que somente não adaptou A Ordem da Fênix) vale-se de momentos mais intimistas que privilegiam o relacionamento do trio e as brigas decorrentes do isolamento. Esta decisão fortalece e valoriza as interações entre os personagens e torna mais cadenciada a narrativa se comparada aos demais exemplares da série, todavia As Relíquias da Morte, Parte 1 não deixa de apresentar bons momentos de ação e tensão, falhando apenas em uma perseguição final que abusa do número de cortes por segundo tornando-a quase incompreensível.

Mas é no trio de protagonistas que reside a principal força deste exemplar. Das olheiras de Ron e do sentimento de exclusão que ele eventualmente experimenta ou à impetuosidade de Harry cedendo lugar à serenidade e o domínio de magias de Hermione, que revela o crescimento e a maturidade da garotinha nerd em uma excepcional bruxa. Todos estes elementos não apenas revelam o cuidado da transposição da saga às telas como são importantes arcos dramáticos, que tornam estes jovens tão importantes para tantos fãs.

Investindo em um interlúdio que revela o Conto dos Três Irmãos, em uma animação que isolada, certamente abocanharia inúmeros prêmios de Melhor Curta, Harry Potter e as Relíquias da Morte, Parte 1tem como contraponto primordial, e aparentemente intransponível, o aposto “Parte 1”. Pois, apesar de ser ótimo, sombrio, amedrontador, o final é muito pouco recompensador. Algo frustrante é verdade, no entanto, indicativo que a tão aguardada “Parte 2”, terá emoções e satisfação de sobra.

Avaliação: 4 estrelas em 5.

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