Crítica | As Crónicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada

A adaptação de As Crônicas de Nárnia começou sua carreira no cinema em 2005, após o fascínio causado por outro exemplar fantástico: O Senhor dos Anéis. Mas, as adaptações das obras de C. S. Lewis jamais conseguiram atingir a magia e ameça da trilogia dirigida por Peter Jackson. Um pouco culpa do tom infantil que afastou a ambição de criar uma obra sombria, do elenco pouco carismático e unidimensional ou da alegoria Cristã que martelava incansavelmente a cabeça dos espectadores.

Aí chegamos ao terceiro exemplar da série, entitulado A Viagem do Peregrino da Alvorada, e no qual infelizmente constatamos que todas as dificuldades na pré-produção resultaram em um filme que nasceu fracassado, um aborrecimento. Desde a mudança na distribuidora, com a saída da Walt Disney e entrada da Fox, à cessão da cadeira de diretor para Michael Apted que substituiu Andrew Adamson (que, bem, não fez grande coisa) e a escolha de uma temporada menos competitiva para estréia (os antecessores estrearam no verão de blockbusters). Até mesmo a metragem, reduzida em 30 minutos em relação aos outros dois, indica a falta de ambição da equipe de produção.

Remontando novamente a 2ª Guerra Mundial, mencionada brevemente, reencontramos Lúcia e Edmundo (Susana e Pedro se mudaram pra os Estados Unidos) morando com os tios e o insuportável primo Eustáquio. Retornando a Nárnia à bordo do Peregrino da Alvorada, os jovens e o Rei Caspian deverão buscar os sete desaparecidos lords e completar de quebra uma série de tarefas, no melhor estilo videogame. Assim, cada fase é uma ilha e tem o seu chefe respectivo, sendo a última fase convenientemente batizada de Ilha do Mal.

Responsáveis por esta estrutura narrativa terrivelmente esquemática, os roteiristas Christopher Markus, Stephen McFeely e Michael Petroni põe os jovens em conflito com mercadores de escravos e criaturas invisíveis (os Tontopédes), os levam à ilha de Midas até a derradeira batalha final. Entre cada segmento, acompanhamos a incômoda narração de Eustáquio que nada acrescenta aos personagens ou à história. A narrativa também insiste em diálogos embaraçosos (“Para derrotar as trevas lá fora, vocês devem derrotar as trevas interiores”), descrições pífias (a da Ilha do Mal: “O que vocês acham que tem lá? Nossos piores pesadelos. Nossos desejos obscuros”) e na insistência da fé em Aslam, o leão que na concepção de C. S. Lewis representa Jesus, como justificativa da viagem dos jovens. Os roteiristas sequer conseguem responder a uma garotinha quando esta indaga “porque Aslam não impediu que sua mãe fosse levada”, perdendo a única boa oportunidade de um questionamento sobre a fé.

Mas a má decisão dos roteiristas poderia resultar em algo ao menos passável se as aventuras trouxessem senso de perigo, o que jamais acontece. O diretor Michael Apted, mais interessado no aspecto técnico e em indiretas cristãs, em momento algum cria a tensão que nos faça temer pelo destino dos personagens. Assim, quando Caspian e Edmundo são sequestrados sabemos que o resgate virá a qualquer momento e quando uma violenta tormenta atinge o barco dos heróis nada mais acontece de perigoso. Até mesmo o duelo com uma gigantesca serpente marinha carece de criatividade e tensão para ser o clímax narrativo.

Tecnicamente, A Viagem do Peregrino da Alvorada é apenas correto, com bons efeitos especiais (apesar dos Tontopédes denunciarem o uso de computação gráfica) e a fotografia de Dante Spinotti que enfatiza uma natureza épica inexistente da aventura através das tradicionais tomadas panorâmicas retratando a pequenez do barco em meio a um infinito oceano ou explorando as ilhas destino dos jovens.

Pesadamente investindo na alegoria Cristã, de forma escancarada, somos apresentados à terra de Aslam (o Paraíso), as tentações que assumem a forma de uma fumaça verde e o absurdo momento em que o leão diz que “Em seu mundo, eu tenho outro nome”. Ok, entendi, no meu mundo o chamam de Simba, acertei?

Se as idas à Nárnia eram gratificantes quando as aventuras assumiam a sua natureza de fuga de um mundo em guerra para outro no qual aqueles jovens eram reis, rainhas e príncipes, neste último exemplar é um capítulo melancólico e aborrecido de uma série de filmes que, adorando a imagem de um leão, esqueceu o verdadeiro heroísmo e realeza presente nos corações dos jovens Pevensies.

Avaliação: 2 estrelas em 5.

Próximo

Crítica | Tron - O Legado

Em 1982, Tron - Uma Odisseia Eletrônica empregou maciçamente efeitos especiais gerados por computadores na construção de cenários e demais elementos interagindo com os atores. À grosso modo, ele representou ... Read more

Anterior

Crítica | Senna

Pouco mais de 16 anos após a morte do maior piloto brasileiro, o documentário Senna carece, à princípio, de momento. Pois, lançado mais de duas décadas após ter despontado como ... Read more

6 Comments on “Crítica | As Crónicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada”

  1. Olas,
    legal seu comentario sobre narnia, confesso que concordo com vc em vários aspectos, mas gostaria apenas de ressaltar algo que acredito que tenha se esquecido, o filme é tem como publico de interesse as crianças, um filme infanto juvenil, assim, quando assisti o filme no cinema, pude constatar ao meu lado, uma criança que estava totalmente entretida com o filme, conseguindo acompanhar facilmente a historia que é contada de forma da simples e direta, como vc msm disse, tudo se resolvendo de maneira rápida, dialogos simples e diretos, talvez, para o universo infantil, essa questAo da historia ter sido contada como "fases"de video-game pode ter sido mt bom, por vezes a criança disse "mae to com medo" o que mostra que se a nos adultos o filme nao demonstra nem sentimento de perigo, para as crianças parece que atingiu o objetivo.
    enfim, so queria ressaltar isso, que devemos analisar o filme de acordo com seu publico de interesse. Mts vezes as pessoas nao entendem narnia pois veem com olhos de adultos que esperam um filme epico como senhor dos aneis.

  2. "Em seu mundo, eu tenho outro nome"

    Não é invenção de produtores roteiristas ou o diretor do filme,esta escrito no livro.

  3. Não falei que era invenção de roteiristas, produtores ou diretor. Mas algo que funciona na obra literária de C. S. Lewis (que eu não li), não necessariamente funcionará da mesma forma no cinema.

    É decisão daqueles personagens incluir ou não elementos do livro, e a frase em questão além de escancarar de vez a alegoria Cristã (que já era mais do que óbvia), ainda elimina qualquer sutileza que a leitura da obra cinematográfica (e não literária) pudesse causar no espectador.

  4. eu li os livros da cronicas de narnia

    e fikei imerso nos livros e no tema assim como o suspense

    + nen chegou proximo a isso nos filmes

    1° harry potter é um otimo exemplo toda criança adora

    mas não foi feito para crianças

    e alem do mais cronicas de narnia pecou ao tentar c dirigir ao publico infantil CUIDADO SPOILERS A FRENTE !!!

    por q no final do ultimo livro quando todos os personagens c juntam na batalha final

    eles descobrem q morreram no mundo real

    e vaun viver pra sempre em narnia

    ai a produtora iria pular como iria retratar algo assim em um filme infantil ?

    e a susana ela c torna taun mesquinha e imersa em objetos materias q elas esquece de narnia e vive o

    resto d sua vida sosinha pois todos os que ela conhecia

    seus irmãos e amigos morrem

    entaun por essas e outras razoes naun deveriam a ''cagar'' os livros das cronicas de narnia nos cinemas

  5. É bastante engraçado ver alguém reclamar de 'indiretas cristãs' num filme baseado em um livro cristão.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *