Crítica | O Discurso do Rei

Em 2009, quando Quem quer ser um Milionário sagrou-se vencedor do Oscar com 8 prêmios, eu me questionei em vão o porquê daquele Cidade de Deus light ser o vencedor da noite desbancando um grande filme como Milk e outros sequer indicados. Na resposta existe uma aborrecida palavra cada vez mais comum no nosso vocabulário: lobby. Neste ano, podemos novamente testemunhar essa nociva e venenosa palavra em ação se o bom, quadrado e longe de espetacular O Discurso do Rei receber a última das estatuetas na noite do Oscar. A história é a mesma, com a maciça (e bem sucedida) campanha de divulgação e publicidade dos irmãos Weinstein, fortes na indústria de cinema, para que esta produção britânica escreve o nome na história.

Narrando fatos ocorridos em meados da década de 20 até a proximidade da 2ª Guerra Mundial, em 1939, este drama histórico nos apresenta o Duque de York, Príncipe Albert e os problemas de expressão – leia-se gagueira – que o levaram a consultar o especialista da fala Lionel Logue. Encarando o microfone como o vilão da projeção da primeira cena, na qual o príncipe deve discursar para uma platéia enorme em Wembley, até praticamente o último quadro, o roteiro historicamente preciso de David Seidler é prejudicado por realizar concessões demais em prol da comédia. Ao invés de mergulhar na dimensão geopolítica dos crescentes conflitos mundiais e à iminência da 2ª Guerra Mundial (Hitler surge em uma gag em que o príncipe elogia sua eloquência), o roteiro estimula o riso nos exercícios vocais do príncipe e na excentricidade de Logue. Outro aspecto ligeiramente desprezado e enxergado com trivialidade é a escandalosa renúncia do Rei Edward VIII por ir contra às determinações da igreja Anglicana no casamento com uma socialite americana divorciada.

Demasiadamente cômico nas folhas de papel, o diretor Tom Hooper (um dos favoritos ao Oscar, mas porque exatamente?) e sua equipe adotam um estilo narrativo diametralmente oposto à comédia. A começar da fotografia de Danny Cohen abusivamente londrina nos detalhes da neblina e utilizando uma paleta de cores frias. O mesmo se aplica à trilha sonora de Alexandre Desplat e à direção de arte de Eve Stewart que acerta nos suntuosos e intimidadores espaços do palácio de Buckingham e no empobrecido consultório de Lionel Logue evidenciado pelas paredes sem pintura e o bolor evidente nos sofás.

Tom Hooper abusa de recursos acadêmicos, empurrando Edward à direita da tela em sinal de sua autoridade durante o primeiro encontro com Logue, só para, no quadro seguinte, o enviar ao lado esquerdo inferiorizado justamente após abrir a boca, denunciando a sua vulnerabilidade e insegurança. Mas falta à narrativa uma lógica que sustente os enquadramentos e mise-en-scène do diretor. Como explicar a ansiedade em chamar a atenção em planos que colocam os personagens em um dos cantos do quadro, a carência de alinhamento em outros e as vezes em que a face do personagem é cortada sem o menor sentido? E poucas vezes vi um filme com tanta ausência de enquadramentos tradicionais como este.

Mas os defeitos da direção equivocada e no pouco ambicioso roteiro de David Seidler são atenuados por um elenco afinadíssimo em todos os aspectos. A começar por Michael Gambon (Rei George V), que em duas breves participações ilustra a austeridade daquele homem que acabou se revelando um dos causadores da gagueira do príncipe, e Guy Pearce (Rei Edward VIII), que mesmo quando revela um carinho ao irmão acaba subjugando-o, as vezes até acidentalmente.

Enquanto isso, Helena Bonham-Carter (Rainha Elizabeth) dedica-se ao marido no olhar de confiança que passa a ele ou no ar de tristeza, mas não de decepção, ao vê-lo fracassar em um discurso em público. Geoffrey Rush cria o melhor personagem em cena na figura do especialista em fala Lionel Logue, um entusiasta de Shakespeare, e “velho demais” para participar do teatro, que confere uma energia contagiante a cada cena, desde à insistência em chamar o príncipe de “Bertie” – e que rende uma boa piada quando a Rainha Elizabeth conhece a sua esposa – à maneira com que conduz o tratamento do príncipe. Apesar da impessoalidade, Logue jamais esconde o respeito e admiração ao príncipe tornando fácil aceitar a amizade entre os dois homens.

E chegamos a Colin Firth, um ator que desde o início da carreira era monótono, monocórdico e aborrecido, até a sua atuação vulnerável O Direito de Amar. Aqui, o ator novamente está muito bem na ilustração não apenas da gagueira do príncipe, mas na composição de diversos traços que ajudam a compreender a dificuldade na fala como consequência natural da baixa auto-estima e passividade em sua vida pessoal. Ao ser confrontando, Firth não apenas fraqueja na fala, como seus olhos imediatamente viram para baixo, em sinal de subserviência. Além disso, suas explosões e gritos surgem de maneira natural retratando a raiva de sua própria inadequação. Finalmente, o tropeçar nas palavras surge de maneira contida, e vejam a diferença entre imitar um gago (Guy Pearce o faz em determinado momento para gozar do irmão) e “ser” um gago, e aí estará a complexidade na atuação de Firth.

Tecnicamente irrepreensível na reconstituição de época, O Discurso do Rei, alavancado por excepcionais atuações, é “apenas” um filme bom, quadradão e comum. Um compromisso agradável a todas os espectadores, mas inferior a quase todos os outros concorrentes em Melhor Filme.

Avaliação: 3 estrelas em 5.

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6 Comments on “Crítica | O Discurso do Rei”

  1. Firth também sempre me pareceu um pouco sem expressão e exatamente igual em todos os filmes. O direito de amar não assisti pra ser sincersa, comecei a ver e achei um pouco chato, mas confesso que sua atuação em O discurso do rei me surpreendeu!
    Gostei do filme, do roteiro, dos atores, mas não gostaria que ganhasse o oscar de melhor filme.

  2. Seria uma piada de mau gosto da Academia premiar um filme tão sem sal como esse no páreo com outros grandes do quilate de Cisne Negro, A Origem, Toy Story 3 ou A Rede Social.

    Até me questiono se Firth realmente é o melhor ator do ano, ou se Bardem não está muito mais complexo e chamativo no Biutiful ou o Franco (eu preciso ver 127 Horas)!

  3. Dar o Oscar de melhor filme para O Discurso do Rei foi a piada mais sem graça do Oscar 2011, poderia ir com o público dando para A Origem, sendo correto dando pra Cisne Negro ou inovando dando para Toy Story 3 (ambos excepcionais)… assim como Firth – como citado – fica abaixo do Bardem e até do – pasmem – James Franco, que segurou um filme excepcional.

  4. O Discurso do Rei não é, de formal alguma, um filme ruim.
    Contudo, foi tão agraciado no Oscar de 2011 que estou, a cada ano, menos feliz com a Academia, que insiste em eleger filmes tecnicamente normais, de narrativa relativamente antigas.
    Minhas apostas no Oscar eram: O Discurso do Rei(filme), Cisne Negro (diretor) e Minhas Mães e Meu Pai (roteiro original).
    Mas nem tudo é perfeito …

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