Capitães de Areia

Capitães de Areia (Idem), 2011, Brasil. Direção: Cecília Amado, Guy Gonçalves. Roteiro: Cecília Amado, Hílton Lacerda (baseado no livro de Jorge Amado). Elenco: Jean Luís Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Israel Gouvêa, Paulo Abade, Marinho Gonçalves. Duração: 96 minutos.
A imagem de um carrossel é um elemento recorrente na história dos Capitães de Areia, nome dado a um grupo de jovens órfãos e pobres em Salvador que sobrevivem de pequenos furtos, migalhas e esmolas recebidas de um bondoso padre, e vivem juntos como uma família em um casarão abandonado, seguindo regras morais e um código de conduta e honra próprios. Eles são versões tupiniquins dos Garotos Perdidos da Terra do Nunca, liderados por Pedro Bala, o seu Peter Pan, e fascinados com a garota que se junta ao bando, Dora, a Wendy da história. No realismo da miséria nordestina e sem o alarde e o misticismo das histórias de piratas e rufiões, na terra localizada a segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer, a obra de Jorge Amado ganha nova vida nas mãos de sua neta, Cecília Amado, que adaptou e dirigiu o drama, o que intuitivamente permite uma beleza lírica na transportação da prosa e observações do livro para o audiovisual e a quente fotografia de Salvador.

Naturalmente que, a adaptação é incapaz de traduzir em imagens o imaginário da obra de Jorge Amado, pecando por excesso de preciosismo em sequer tentar transportar a história para os dias atuais. Poderia parecer oportunismo, mas a temática de Capitães de Areia remonta imediatamente a Cidade de Deus, não propriamente na maneira com que retrata a violência, e sim, na perda da inocência de nossos precoces jovens, crendo falsamente em uma suposta responsabilidade que possuem consigo e com os outros. Esse é o tema central da prosa de Amado, apresentando as abissais desigualdades sociais e como essas produzem adultos que pularam a infância, negando o carinhoso adjetivo menino. É um tema precipuamente atemporal e a adaptação beneficiaria-se de ousar situá-lo hodiernamente, criticando e alfinetando as gestões estaduais e municipais. Cecília Amado transformaria-se em autora; ao invés disso, optou em ser tradutora, o que é uma pena.
Cientes, portanto, da dificuldade da história em preencher os grandes sapatos da obra de Amado, o roteiro adaptado por Cecília e Hílton Lacerda falha em não conseguir encontrar um equilíbrio entre os personagens e seus dramas pessoais e situações, conferindo especial destaque a Pedro Bala (Jean Luís Amorim), o líder, e seu romance com Dora (Ana Graciela). Eventualmente que todos os demais, Profesor (Robério Lima), Sem Pernas (Israel Gouvêa), Gato (Paulo Abade), dentre outros, têm seus momentos de individualização que auxiliam a compreender, e nem que as vezes esteriotipar, cada um daqueles jovens. Apesar disto, qual o núcleo da história de Capitães de Areia? A mera reprodução do dia-a-dia daquele bando acompanhado despretensiosamente pelo público ou a narrativa nos leva de A para B? Infelizmente, a resposta aposta no interesse casual em momentos específicos, saltando de linhas narrativas com a mesma agilidade dos garotos ao bater a carteira de um barão ou turista.
Por outro lado, o roteiro mantém incontáveis momentos de inspiração da obra, que soam mais reais quando pronunciados da boca de jovens atores amadores. Nesse sentido, quando Sem Pernas retruca a bondosa senhora que o acolheu com “Preto não toca piano não, senhora“, ou na descrição da habilidade de desenho de Professor “esse daí desenha até o sentimento dos outros” e nos momentos de inspiração de Boa Vida, o alívio cômico do grupo, é impossível não sorrir quando a prosa de Jorge Amado ganha corpo e vida.
O elenco de atores amadores torna Capitães de Areia uma obra mais realista, mas indiscutivelmente, isto reforça a irregularidade observada no tom episódico do roteiro ou na direção de ritmo trôpego de Cecília Amado. Assim, embora hajam atuações acima da média e momentos inpirados, é lugar-comum na narrativa que o elenco recite os diálogos quase que com a boca engessada, como se estivesse fazendo uma leitura no colégio. O caso mais grave é o da jovem Ana Graciela, esforçando-se, é verdade, em conferir veracidade a sua atuação, porém sem convencer sequer no sotaque baiano. Até o protagonista, Jean Luís Amorim, que tem uma atuação convincente na maior parte do tempo, derrapa nos momentos em que é exigida maior capacidade dramática, sobretudo na morte de uma personagem.
Além disso, a narrativa abandona aquele que vinha sendo o personagem mais rico e complexo, Sem Pernas. Deficiente, a negação da religião é um sinônimo da revolta interna do personagem e, ao ser adotado por uma bondosa senhora, ele começa a vivenciar a experimentar os conflitos de culpa e o arrependimento da vida que goza, o que acaba tornando-no mais amargo e cruel. 
Acertando nos figurinos e composições do elenco, é curioso observar o bigode de Pedro Bala, funcionando quase como um elemento intermediário entre o adolescente e o adulto em duelo dentro de si. Fotografado com extrema felicidade por Guy Gonçalves, as ruas de Salvador ganham um calor intenso e um chamego nordestino, apesar de não negar a pobreza e a miséria das ruas histórias do centro. Finalmente, a trilha sonora de Carlinhos Brown tem a felicidade em inserir canções reflexos do estado de espírito presente em cena.
Falhando em ser uma adaptação regular, Capitães da Areia consegue reproduzir a mensagem da obra de Amado na imagem de um carrossel, sinônimo de uma infância perdida e raramente experimentada por um grupo de jovens que, abandonados a própria sorte, encontraram na amizade a família que lhes foi negada.

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