A Guerra está Declarada

A Guerra está Declarada (La Guerre est Déclarée, França, 2011). Direção: Valérie Donzelli. Roteiro: Valérie Donzelli e Jérémie Elkhaim. Elenco: Valérie Donzelli, Jérémie Elkhaim, César Desseix, Gabriel Elkhaim, Brigitte Sy, Elina Lowensohn, Michèle Moretti, Philippe Laudenbach, Bastien Bouillon. Duração: 100 minutos.
A produção artística naturalmente flerta com elementos da vida real embora incapaz de reproduzi-los fielmente. Dessa forma, é evidente a distinção da via de duas mãos na qual a realidade é ficcionalizada e a ficção recebe contornos reais tornando-a fidedigna. Exemplificando, um documentário representa a posição do seu realizador que, apesar do dever de prezar pela imparcialidade, poderá omitir, acidental ou propositadamente, fatos que modificariam a compreensão daquele tema sujeito da abordagem. Dessa maneira, a narração ou a trilha sonora sutilmente, e as vezes inconscientemente, desempenham papéis chave na decomposição da opinião do documentarista. O mesmo afirma-se da ficção que, inevitavelmente tráz consigo a bagagem de vida e situações prosaicas do cotidiano de diretores, roteiristas e atores na narrativa. Eu, porém, não me recordo de um filme que consiga caminhar no limiar do documentário e ficção com fluência como este A Guerra está Declarada, escolhido pela França para representar o país no Oscar 2012.

Mas, para compreender o porquê da contextualização, é necessário mergulhar nas vidas da diretora, roteirista e atriz Valérie Donzelli  e de seu ex-namorado Jérémie Elkhaim, que co-roteirizou e co-estrelou a produção. Diagnosticado com um tumor cerebral, um carcinoma maligno agressivo, o ainda bebê Gabriel, filho de Valérie e Jérémie, submeteu-se a uma fisica e emocionalmente torturante guerra contra o câncer, a qual produziu um turbilhão no relacionamento do casal e das suas famílias. Tendo vencida a doença, Valérie e Jérémie corajosamente revisitaram a angústia vivenciada naqueles dias negros e desenvolveram a partir de suas experiências um retrato otimista da batalha travada alguns anos antes sem nunca tropeçar no imoralidade de explorá-la despudoramente. Pelo contrário, além de reacender a esperança no coração de muitos que a perderam definitivamente, os realizadores apropridamente agradecem aos médicos e ao corpo hospitalar de Marselha e Paris convidando-os a reviver na narrativa os mesmos papéis que desempenham diariamente no sistema hospital público francês. Assim, documentário inusitado ou ficção realista, a verdade é que A Guerra está Declarada é um grande filme.
Tomando por base as principais características do cinema francês, especialmente o naturalismo desapegado do pieguismo e maniqueísmo, o câncer é imediatamente confrontado desde a primeira cena, a qual encontra Juliette (Donzelli), acompanhando seu filho Adam (Desseix) na realização de uma cintilografia, uma imagem que não precisa de absolutamente nada para ser desesperadora. Rapidamente, o incômodo barulho provocado pela máquina confunde-se com os sons de uma rave e, em um oportuno flashback, descobrimos como Juliette e Romeo (Elkhaim) se conheceram. Nesse momento, o roteiro assume um tom fantasioso e brincalhão, mas não menos trágico, da popular história de amor de Shakespeare, desde a apresentação dos personagens, o improvável arremesso de um amendoim e a coincidência na troca de nomes. Familiarizando o espectador com os personagens, a direção de Valérie Donzelli preocupa-se no primeiro terço em escancarar o amor de Romeo e Juliette, e usa um recurso banal, ironicamente eficiente porque age simultaneamente como uma crítica ao seu uso discriminado: trata-se de uma montagem musical do casal dividindo um algodão doce ou uma maçã do amor, se beijando em público e correndo as escadarias de um prédio, culminando na imagem de uma vagina na posição de parto e os primeiros gritos do seu filho.
Provocando uma ligeira mudança na vida conjugal, a exigência constante de carinho e atenção de Adam torna-se objeto das reclamações de Romeo e motivo para periódicas visitas à pediatra. No entanto, apenas aos dois anos que, sem andar os primeiros passos e nauseando-se frequentemente, a identificação de uma pequena assimetria na face de Adam explode o estopim de uma corrida entre hospitais e diagnósticos cada vez mais graves de um tumor cerebral cuja operação é complicada, mas não impossível, nas palavras do professor neurocirurgião Saint-Rose. Preocupando-se apenas o estritamente necessário com a doença, o roteiro acertadamente explora as consequências no casal e, superficialmente, nas famílias, dedicando-se à história de amor bem mais do que a dor que a acompanha. Assim, depois de investir em uma sequência praticamente alucinógena prévia ao diagnóstico do tumor, Valérie Donzelli opta pelas Quatro Estações de Vivaldi, na brilhante sequência em que espalha, metasticamente, a notícia do tumor à família. Nesse sentido, a trilha sonora eclética e as músicas incidentais, com trabalhos de Ennio Morricone e Georges Delerue, pontuam o estado de espírito dos personagens muito melhor do que palavras, derrapando pontualmente na melodramática sequência em que Juliette e Romeo parecem cantar um para o outro, embora apartados.
Ademais, a narrativa é quase uma experiência sensorial e a cor vermelha predomina nos figurinos e nos objetos do cenário, como um sofá ou o berço de Adam no hospital, tornando-se absoluta nos quadros em que a fotografia de Sébastien Buchmann não decida por uma paleta de cores azulada e depressiva. Apostando em uma narração in off que, reproduzindo as ações dos personagens realizadas diante de nossos olhos, parece enfatizar e sedimentar aqueles momentos cruciais, Válerie Donzelli também recorre a diversos símbolos escapistas, e a terapia de pintura durante a viagem de Juliette a Marselha ou a repetição dos movimentos de corrida parecem fundamentais para que os personagens convivam adequadamente com as más notícias que se acumulam. Contribui para o realismo narrativo os cortes secos da montagem de Pauline Gaillard e as súbitas mudanças de estado de espírito que ultimamente refletem. Especialmente na primeira metade, a introdução de imagens de microscópio a nível celular ilustram satisfatoriamente o crescimento do câncer.
Inevitavelmente, o casal agradável e, na maioria das vezes, maduro e sereno interpretado por Valérie Donzelli e Jérémie Elkhaim pode ser vítima de acusações de auto-indulgência, pois eles ultimamente interpretam versões próximas de si mesmos. Apesar das controvérsias a respeito, é indiscutível a coragem e a química exibida pelo ex-casal em cena, evitando apelar para o sentimentalismo óbvio como na icônica sequência em que abraçados em uma cama, ambos revelam seus medos, por mais preconceituosos que estes o sejam. Sem ignorar os menores detalhes da personalidade de seus personagens, por exemplo, o close na inflexão facial de Philippe, pai de Juliette, ao descobrir que a mãe de Romeu tem uma companheira, Valérie Donzelli também acomoda muito bem o amadorismo dos médicos e profissionais de sáude não-atores, como no momento em que Saint-Rose informa aos pais da malignidade do tumor.
Encapsulando uma narrativa inegavelmente dolorosa em contornos coloridos, suaves e esperançosos, a cineasta Valérie Donzelli e seu ex-namorado Jérémie Elkhaim converteram o costumeiramente esquemático subgênero de “histórias de doença” em uma bela história de amor cujo futuro, apesar dos parcalços da vida registrados na narração agridoce nos minutos finais, encontra paz na amálgama da realidade com a ficção nas areais da praia.

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