Battleship – A Batalha dos Mares

(Battleship), Estados Unidos, 2012. Direção: Peter Berg. Roteiro: Erich Hoeber e Jon Hoeber. Elenco: Taylor Kitsch, Alexander Skarsgard, Rihanna, Brooklyn Decker, Tadanobu Asano, Hamish Linklater, Liam Neeson, Peter MacNicol, John Tui, Jesse Plemons e Gregory D. Gadson. Duração: 131 minutos.

Premissas originais encontram-se ameaçadas de extinção na selva cinematográfica norte-americana que, fascinada por exorbitantes cifras, abandona os vestígios da qualidade artística. Nessa linha, Hollywood rende-se ao modismo da sua nova musa, a gigante dos brinquedos Hasbro e dona das lucrativas franquias Transformers e G. I. Joe. Mas, se espremer uma “história” aceitável, segundo generosos padrões, sobre robôs alienígenas ou uma elite de comandos revelou resultados desanimadoramente trágicos, o que esperar da adaptação do jogo de tabuleiro, cujo único objetivo é o de adivinhar a posição do navio adversário e  destruir a sua armada?

Fruto de inconsequentes produtores que capitalizariam na adaptação da lista telefônica se pudessem, Battleship – A Batalha dos Mares navega nas águas do clichê, do embaraço e da estupidez, algo que o roteiro dos irmãos Eric e Jon Hoeber sequer se envergonha. Na história, após a descoberta de um planeta nas mesmas condições da Terra para abrigar vida, a NASA estabelece um canal de comunicação espacial que provoca, anos depois, uma invasão alienígena durante jogos navais ocorridos no Havaí. Resumido para tolos no emblemático questionamento do Secretário de Defesa, “está dizendo que nós mandamos um sinal e recebemos uma resposta?”, o fiapo de história é a desculpa para contextualizar a guerra intergaláctica e destruir metrópoles, o que Independence Day já fizera com maior sucesso há mais de 15 anos.

Preenchendo a narrativa com personagens unidimensionais e dramas menos consistentes que a espuma do oceano, os roteiristas apresentam Alex (Kitsch, de John Carter – Entre dois Mundos), um relutante e teimoso sujeito alistado na Marinha por causa de um burrito (!), irmão do condecorado comandante Stone (Skarsgard) e que tem a oportunidade de pedir a mão da fisioterapeuta Sam (Decker) ao sogro, o almirante Shane (Neeson), que o julga de fraco caráter e potencial desperdiçado. No percurso de um dia, o tempo que dura o confronto, o roteiro encontra espaço para introduzir a oficial Weps (Rihanna, cuja função é disparar curtas frases de efeito), o alívio cômico Orly (Plemons), o geek da computação Zapata (Linklater), o capitão japonês Nagata (Asano), lobos do mar na terceira idade e o tenente Mick (Gadson), deficiente físico que perdera ambas as pernas no Iraque.

Se esses personagens não têm maiores pretensões narrativas senão povoar duas horas de filmes, eles ainda trazem ideias estúpidas (carregar um torpedo de 500 kg) e não soam os mais perspicazes interlocutores, limitando-se a atestar o óbvio visto na tela e a repetir o que outros dizem. Ao escutar que “as pessoas estão falando em alienígenas“, Sam retruca “Alienígenas?”, e não satisfeita com o apontamento genial, responde com nova interrogativa segundos depois, na incontestável prova de como não se elaborar diálogos. Mas, eu mentiria se dissesse que este é o maior defeito da narrativa, incapaz de explicar o porquê dos alienígenas atacarem apenas quando ameaçados e sua misteriosa suscetibilidade à luz solar (o que não faz sentido se pensarmos que eles têm um sol).

Não mentiria, porém, ao afirmar que roteiro não é o que a esmagadora maioria de espectadores buscam no  filme. Deliberadamente comparado a Transformers, atestando de imediato sua falta de inteligência, quem compra ingresso de Battleship está interessado exclusivamente nas sequências de ação. E, embora não tenha o toque esquizofrênico de Michael Bay, o diretor Peter Berg parece mais maravilhado com as set pieces, como os robôs similares a beyblades (sim, eu tenho sobrinhos!), e as bandeiras flamulantes dos Estados Unidos, do que com a dimensão do confronto, restringindo-se a cenas burocráticas, mal decupadas e embaladas por uma decepcionante trilha sonora patriótica e metaleira.

E, ainda que haja charme no plano-sequência do naufrágio de um destróier ou na reprodução do jogo de batalha naval, há pouco para recomendar no trabalho de um diretor que aposta no embaraçoso suspense de uma batida de pênalti, na visão subjetiva do interior dos capacetes alienígenas que vêem apenas cores verde e vermelha atreladas a significados óbvios ou no tema de A Pantera Cor de Rosa para provocar humor.

Ressuscitando aborrecidas discussões, onde defensores insistirão em argumentar que um filme de ação precisa somente divertir (não se engane, este não diverte), ignorando para isto o comprometimento com boa história ou personagens carismáticos e interessantes, Battleship – A Batalha dos Mares ainda tem o gosto acre de ser, simultaneamente, um exemplar da “transformerstização” do cinema de ação e dos filmes baseados em jogos de tabuleiros.
Onde esão os icebergs quando realmente se precisam deles para naufragar esta bomba?
P.S.: depois dos créditos tem uma longa cena adicional.

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Paraísos Artificiais

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7 Comments on “Battleship – A Batalha dos Mares”

  1. Olá Márcio,

    Sou leitor do Cinema com Crítica e sou cinéfilo de carteirinha. Eu estou mandando esse email porque estou trabalhando numa empresa que desenvolveu um portal sobre cinema – o Cinema Total (www.cinematotal.com). Um dos atrativos do site é que você cria uma página dentro do site, podendo escrever textos de blog e críticas de filmes. Então, gostaria de sugerir que você também passasse a publicar seus textos no Cinema Total – assim você também atinge o público que acessa o Cinema Total e não conhece o Cinema com Crítica.

    Se você gostar do site, também peço que coloque um link para ele no Cinema com Crítica.

    Se você quiser, me mande um email quando criar sua conta que eu verifico se está tudo ok.

    Um abraço,

    Marcos
    http://www.cinematotal.com
    marcos@cinematotal.com

  2. Eu achei um filme muito bom, eles carregaram um torpedo de 500kgs em várias pessoas e porque o outro canhão estava quebrado ou porque tinha acabado a munição, a variedade de personagens foi legal, se alienigenas invadissem a terra pode crer que não saberíamos o porque também, em relação ao sol e o ponto fraco da luz foram inspirados em animais da terra. Haha povo só sabe reclamar, é um filme como qualquer outro da grande maioria de hoje em dia. E outra é uma ficção não precisa ter sentido.

  3. Ivan, eu entendi o aspecto da luz solar ou o porquê deles terem carregado um torpedo de 500 kg. O que não justifica porque alienígenas viriam atacar um planeta no qual eles pereceriam pela luz do sol ou as decisões idiotas tomadas pela tripulação. Agora, se você acha que fazer sentido é o de menos, então, bem, esse filme encontrou seu público.

  4. Espero um dia ver pelo menos os humanos perderem uma guerra intergaláctica ou pelo menos ficarem a beira da extinção e gerarem um segundo filme com a vitoria ou a mudança para outro planeta é sempre previsível estes filmes ainda bem que os efeitos cg's são ótimos!

  5. Espero um dia ver pelo menos os humanos perderem uma guerra intergaláctica ou pelo menos ficarem a beira da extinção e gerarem um segundo filme com a vitoria ou a mudança para outro planeta é sempre previsível estes filmes ainda bem que os efeitos cg's são ótimos!

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