O Corvo

(The Raven), Estados Unidos/Hungria/Espanha, 2012. Direção: James McTeigue. Roteiro: Ben Livingston e Hannah Shakespeare. Elenco: John Cusack, Luke Evans, Alice Eve, Brendan Gleeson, Kevin McNally, Oliver Jackson-Cohen e Jimmy Yuill. Duração: 110 minutos.

Sinto-me como um enebriado Edgar Allan Poe neste instante, perdido nos devaneios de uma mente atribulada e incapaz de organizar as ideias para elaborar um texto crítico minimamente coerente, mas este é o efeito que filmes desmotivadores como O Corvo provocam em mim. Ambientado no século XIX, na cidade de Baltimore, o roteiro de Ben Livingston e Hannah Shakespeare utiliza aquele popular poeta, crítico literário e escritor de contos policiais macabros no centro da investigação policial de homicídios inspirados na sua sanguinária obra, que nada deve ao gore e inventividade sadística de Jogos Mortais, como demonstra certa morte provocada por um pêndulo. 
Eu, porém, não me seduzo por excruciantes 2 horas de uma aborrecida investigação e armadilhas violentas. Prefiro questionar se realmente fez alguma diferença que o mítico escritor norte-americano Edgar Allan Poe seja o protagonista desta narrativa e não o Seu Zé vendedor da quitanda da esquina. A resposta, só poderia ser um grande não! Satisfeitos exclusivamente por aquela fagulha de genialidade, os roteiristas conseguiram confeccionar somente mais um exemplar pedestre e derivado do saturado gênero de serial killer, onde o vilão está sempre a bons passos na frente dos heróis, propositadamente deixando pistas para a inevitável descoberta de sua identidade.

Não que desmascarar o assassino prove-se recompensador, exigindo o mínimo de esforço de Poe que, ainda assim, caso não contasse com a ajuda do detetive Fields (Evans, dono de um semblante estático e assustadoramente inexpressivo) e das generosas pistas deixadas nas vítimas, poderia persistir na busca de sua amada Emily (Eve) em vão. Nem a inspiração nas mortes literárias mostra-se particularmente relevante,  pouco importando se o ritual fosse baseado nos crimes capitais ou na lista telefônica, pois o resultado seria igualmente desinteressante.
Há, porém, ensaios de um bom filme jamais concretizado, especialmente quando certa parcela de responsabilidade é timidamente atribuída a Poe, à sua maneira, a mente doentia detrás daquelas hediondas maquinações. Assim, ao questionar retoricamente “Em que mundo eu existo? No seu ou no meu?” e se intitular “a obra-prima“, o vilão aponta tardiamente para um subtítulo rico, porém mal explorado, na perigosa dinâmica existente entre ídolo e fã.

Resta-nos, apenas, aproveitar o cinismo desavergonhado e presunçoso de Poe, e o sarcasmo prosaico com que agride seus interlocutores em divertidos insultos, como “filisteu armado” e “nulidade intelectual“, que ganham ênfase nas explosões histéricas de John Cusack. Um dos mais entusiastas adeptos do overacting – perdendo apenas para Nicolas Cage neste quesito -, Cusack diverte na dezena de diálogos afiados e no nonsense, e não nos méritos artísticos, com que transforma Poe em uma caricatura intransigente e acima do bem e do mal.
É uma pena, portanto, que tão logo a narrativa precise ganhar um tom mais urgente e imperioso, falta um vínculo mais intenso com Poe, até então apenas um bobo da corte alcoólatra, divertido e arrogante. Da mesma forma que não sentimos o peso da vida pregressa de Poe, sobretudo a morte da esposa, não tateamos a química amorosa com Eve – reparem a heterocromia da moça, dona de olhos de cores distintas -, e a ausência desses elementos promove uma amargura injustificada, ou ao menos, dependente do ostracismo e miséria do autor, e de um senso protecionista menos altruísta do que aquele esperado para resgatar o amor da sua vida.

Dirigido sem apetite por James McTeigue (do ótimo V de Vingança), tecnicamente O Corvo não deixa a desejar: o design de produção tem bons atrativos, apesar de inferior a outros thrillers de época como Do Inferno e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça; a montagem de Niven Howie tem raccords que se destacam como a lua refletida na poça logo na abertura da narrativa; e a fotografia de Danny Ruhlmann investe na atmosfera sombria, neblinas onipresentes e cores despidas de vida apropriadas à narrativa. Mas, os apenas corretos esforços técnicos são ultimamente incapazes de compensar a narrativa deficiente e o ritmo monótono de uma investigação pedestre e desinteressante.
Ora, se o uso de personalidades históricas como protagonistas de ficções seguir o exemplo de Edgar Allan Poe e seus dotes investigativos, o que esperar futuramente do celebrado ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln caçando vampiros? Prenúncio de uma tragédia anunciada, eu diria!

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