Lola

Lola, Estados Unidos, 2012. Direção: Lisa Azuelos. Roteiro: Lisa Azuelos e Kamir Aïnouz. Elenco: Miley Cyrus, Demi Moore, Douglas Booth, Ashley Hinshaw, George Fin, Ashley Greene, Adam G. Sevani, Gina Gershon, Thomas Jane, Jay Hernandez e Austin Nichols. Duração: 97 minutos.


Refilmagem do francês Rindo à Toa (2008), Lola é o raríssimo espécime onde o mesmo diretor do filme original também assina a versão produzida especificamente para os norte-americanos. Se isto basta para criar uma veia de similitude entre Lisa Azuelos e o ótimo Michael Haneke (que comandou as duas versões de Funny Games), também demonstra a falta de criatividade da cineasta que ao transpor a narrativa da Europa para a América, culturas totalmente antagônicas, não buscou investir em nada que as diferenciassem, mantendo-se presa aos mesmos dramas e soluções já vistos anteriormente. Não ajuda o fato de que a grande maioria das refilmagens sirva somente para escancarar o preconceito do público com relação às produções de fora de Hollywood, e sequer ensaie agregar novos elementos ou rediscutir as ideias à luz de nova contextualização. Mesmo diante desse cenário negativo, há exceções que nos recordam de jamais pré-julgar um filme por sua capa, estatísticas e suposições…

Ok, Lola não é um bom filme e não faz esforço para sê-lo. Acompanhando a personagem título, apelidada de LOL, durante um ano letivo inteiro, o roteiro co-escrito por Kamir Aïnouz revisita o mesmo contexto proporcionado por celulares e redes sociais, que não teve tempo de sofrer substanciais alterações desde que a sua xará francesa debutou no cinema há 4 anos. Assim, ao invés de ilustrar como a disponibilidade de informações devoradas em tempo real influencia a juventude, o roteiro repousa preguiçosamente em como as gerações não têm distinções entre si: se antes as reclamações sobre o irmão caçula eram pelo telefone, Lola e Emily agora o fazem pelo MSN no dialeto abreviado e emoticons típicos; já as ameaças dos pais de tomar o celular ou computador assemelham-se a desconectar o telefone da linha ou desligar a televisão. Em suma, a avassaladora modernidade não alterou o egocentrismo adolescente e os problemas da puberdade, como a busca pela individualidade e romances imaturos, e quando ouvimos Lola rebatendo as suas notas baixas (“não me importo com a população da China ou divisão celular”), enxergamos o reflexo de nossa adolescência vivida há alguns ou muitos anos. Um conservadorismo na geração internet, o que não é ruim, mas com a profundidade de estar assistindo à “Malhação”.

Revelando seu mural de amizades do Facebook na descartável narração in off após o retorno às aulas, Lola (Cyrus) apresenta o agora ex-namorado Chad (Finn), um babaca acostumado a xingar mulheres, Kyle (Booth), o melhor-amigo disponível e sensível o bastante para se tornar interesse amoroso, Emily (Hinshaw), apaixonada pelo novo professor de matemática enquanto escapa das paqueras de Wen (Sevani), e Ashley (Greene), a oferecida post-it que gruda em todos os meninos (conceito desnecessariamente repetido). Uma salada de esteriótipos em uma instituição de ensino cartunesca, onde a diretora prontamente ignora todas as alegações dos alunos e ninguém leva muito a sério a professora de francês. Nesse contexto, e supostamente falando o bê-a-bá dos jovens, Lisa Azuelos abusa do atrevimento de Ashley (para não recorrer a termo chulo), das insinuações de Emily ou da insegurança emocional de Lola e suas conclusões precipitadas “se eu disser para Kyle [que está apaixonada] vai estragar nossa amizade, então é melhor esconder” (isto minutos depois de quase beijá-lo). Ah, para não fugir do clichê, Kyle ainda é o vocalista de uma banda de rock.

Se falha na trama adolescente, Lisa Azuelos tem mais sucesso ao abordar o relacionamento entre Lola e a sua mãe Anne (Moore), tentando aproximá-las tanto visualmente (montagens paralelas delas praticando uma mesma ação) quanto narrativamente nas decisões tomadas e segredos mantidos. Esforçando-se em transformá-la na ‘mãe legal’, quando comparada aos outros pais/mães caricaturais da narrativa, Anne tenta ser amiga da filha e entrar na sua bolha, e antes que alguém diga que “filho de peixe, peixinho é”, a ordem do ditado é subvertida diante da postura de Anne. Afinal, para a cineasta, adolescência é mais um estado de espírito do que uma fase da vida, o que explica porque Anne aceita a carona de um estranho e se encontra sempre às escondidas com o ex-marido Allen (Jane) — e veja que nem a avó de Lola é exemplo de maturidade. Isto afasta a relevância da maioria das discussões de Anne, pois ela não tem moral, mesmo sendo mãe, para reprovar sua filha, e nas poucas vezes em que a reprimenda é compreensível, como após uma festa fora do controla, Demi Moore falha em conferir urgência e proporcionalidade a seus argumentos.

Como citei Demi Moore, Miley Cyrus torna a limitada intérprete na melhor coisa do filme por comparação. Incapaz de transmitir emoções autênticas, Miley é tudo menos uma adolescente (uma contradição, pois a atriz tem 19 anos), dividindo-se entre a rebeldia e a amabilidade, como se pudesse resumir Lola a apenas dois estados. Ela ainda protagoniza momentos vergonhosos, como ao ouvir a confissão da traição de Chad ou ao chegar em casa aos prantos para ser afagada pela avó, mantendo, em ambas as cenas, a mesma voz monocórdica, o olhar de peixe morto e uma expressão facial nada convincente. Já Thomas Jane, Jay Hernandez ou Gina Gershon, supérfluos, só emprestam seus nomes ao projeto, enquanto o elenco jovem está atado a personagens limitados e sem maiores ambições de serem mais do que isso.

Buscando o riso fácil, mas provocando embaraço, Lisa Azuelos obriga uma psicóloga a responder “hum-hum” a toda pergunta (é um mistério como se gasta dinheiro com um profissional assim), exagera na inverossímil bizarrice francesa, como no plano-detalhe do prato de escargot ou na mãe que transforma a filha em Joana D’Arc, além de exagerar na câmera lenta para mostrar a visão idealizada do professor de matemática. Não advoga a favor da diretora/roteirista os diálogos canastrões (“Você é a melhor coisa da minha vida e também a pior”) e a fragilidade temporal na passagem do primeiro ao segundo semestre.

Sem sintonia com o seu público-alvo e desprovido de maiores conflitos (o sexo no banheiro do colégio e a descoberta do diário são irrelevantes), Lola é um recorte ruim e descartável sobre um ano na vida da personagem-título que só ratifica, no final das contas, a má fama atribuída a refilmagens. Mas, se adotasse o atroz preconceito, jamais poderia afirmar isso.

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