50 Anos | O Processo

Le Procès | França, Alemanha Ocidental e Itália | 1962 | Direção: Orson Welles | Roteiro: Orson Welles baseado no livro de Franz Kafka | Elenco: Anthony Perkins, Jeanne Moreau, Romy Schneider, Elsa Martinelli, Orson Welles, Akim Tamiroff, Michael Lonsdale | Duração: 1h58min.

Mesmo que Franz Kafka tenha escrito o O Processo em 1920 na Europa, gosto de encarar a adaptação realizada por Orson Welles como uma alegoria da perseguição política causada pelo Macartismo nos Estados Unidos durante as décadas de 40/50. Uma caça às bruxas alimentada por acusações abstratas contra supostos comunistas e simpatizantes e responsável por afrontar os direitos individuais do cidadão, sobretudo a sua liberdade. Na verdade, a obra de Kafka é tão perene que poderia ser aplicada, de uma forma ou de outra, a todo regime, ditatorial ou não, em que um Estado abusasse do poder natural e desrespeitasse o cidadão de forma injustificadamente cruel.

Obra iminentemente sensorial e aberta a interpretações, O Processo foi mal recebido pela crítica e público no ano de seu lançamento e só veio a receber o carinho devido anos depois. Justíssimo, uma vez que o trabalho de Orson Welles é um de seus melhores, inferior a Cidadão Kane só por causa da revolução que este provocou. O roteiro acompanha Joseph K. (Anthony Perkins), um trabalhador comum que numa certa manhã é surpreendido pela polícia, recebe voz de prisão, embora permaneça em liberdade, e é conduzido ao crivo dos magistrados para ser julgado por um crime que não lhe é informado. Na ânsia de desvendar o motivo da acusação e se defender apropriadamente – uma das mais belas garantias da democracia -, Joseph K. depara-se com homens estranhos de interesses suspeitos em uma agonizante batalha contra o sistema.

Parece utópico relacionar o sistema acusatório anti-democrático apresentado com o mundo em que vivemos, e dessa forma o universo onírico desempenha a conveniente função de superar os limites impostos pela Constituição e tornar suas regras maleáveis, penetrando no subconsciente dos pesadelos. Porém, à medida em que a paranoia aumenta, a atemporalidade do argumento de Kafka se torna ainda mais substancial ao confrontar homens que não hesitam de taxar Joseph K. de culpado mesmo antes dele ser julgado, reflexos de nós mesmos ao apontar o dedo indicador e sentenciar antecipadamente réus cuja culpa sequer fora comprovada.

Caso tudo isso passe desapercebido aos olhos do espectador, a crítica ao poder judiciário e ao acesso do homem médio à justiça é bastante óbvia para ser ignorada. Joseph K. atravessa uma via crúcis apenas para obter a graça de um magistrado tido, desde o prólogo animado, como um autêntico deus, algo que o imponente retrato de um magistrado pendurado na sala do advogado Albert Hastler parece ratificar, e não duvidaria se ele estiver substituindo a tradicional imagem católica de Jesus. Até mesmo o acesso ao tribunal é dificultado por uma gigantesca e pesada porta, pelo menos três vezes maior que o protagonista.

Mas é o instituto da advocacia que sofre as mais duras críticas: pomposo, preguiçoso, vaidoso e enquadrado de baixo para cima para acentuar a sua arrogância, Albert Hastler (Orson Welles) acumula milhares de processos empoeirados na sua alcova e não é coincidência que a sua ajudante afirme ter “pele entre os dedos igual a uma aranha”, tecendo ali a sua teia. Entretanto, nada choca mais do que Bloch (Akim Tamiroff), um cliente do advogado preso em uma sala que se assemelha a uma masmorra enquanto espera a providência da justiça tendo, inclusive, que se ajoelhar diante de Albert e beijar suas mãos para obter sua benesse. Piores do que ele apenas os idosos que se acumulam nos extensos e claustrofóbicos corredores dos tribunais, só aguardando um pronunciamento do magistrado que nunca acontecerá.

Usando símbolos para ilustrar a precariedade do sistema como um todo, a metáfora da prisão em liberdade ajuda na representação da infâmia de ser réu em qualquer espécie de processo e o preconceito e/ou a compaixão que recebe dos outros é o que leva Joseph K. a finalmente desistir. Já a montagem contígua da ópera e do julgamento denunciam a teatralidade no tribunal, um grande show somente interrompido no instante em que surge algo supostamente maior, no caso, o casal que se beija ardorosamente e desvia a atenção da plateia que ouvia a defesa do protagonista. E se os livros jurídicos com fotos de pornografias entre suas páginas ilustram de forma óbvia a prostituição da justiça, os colegas delatores (de novo o Macartismo) e os policiais punidos severamente ratificam a falência do sistema.

Com uma direção de arte impressionante em que o pátio de uma empresa ganha contornos impessoais e automatizados, mesmo com a presença de figurantes, e o ateliê de um pintor está repleto de formas assimétricas expressionistas e sombras para criar, junto com a ótima fotografia, a ilusão de fabricação de uma realidade, além de um trabalho de direção extraordinário no qual os ângulos e enquadramentos tem um propósito narrativo específico (por exemplo: Joseph K. surge isolado ao deixar o tribunal sob gritos de dezenas de acusadores que se espremem no contra-plano), O Processo é um trabalho rico e cheio de significados de acordo com a subjetividade de quem o vê.

Um filme que demonstra com o seu próprio exemplo que a justiça tarda, mas não falha, sendo hoje considerada uma das obras-primas de Orson Welles.

Esta crítica integra o especial do Cinema com Crítica que celebra o aniversário de clássicos que completaram 50 anos de idade. Na próxima edição, a última publicação do especial neste ano com a crítica de O Pagador de Promessas.

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