Crítica | Quatro Vidas de um Cachorro

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Depois de ser divulgado um vídeo dos bastidores de Quatro Vidas de um Cachorro em que um pastor alemão é forçado dentro de uma piscina de ondas, a fim de simular uma correnteza, para quase afogar-se – assista ao vídeo no link do TMZ, o que deveria ser um bem-sucedido filme para a família terminou sendo alvo de boicote organizado pela associação para defesa dos direitos dos animais (PETA) e de cidadãos indignados. Em questão de dias, a premiere com tapete vermelho e a coletiva de imprensa foram canceladas, a Amblin – a produtora – prometeu investigar o caso, o diretor Lasse Hallström – que havia trabalho com cachorros anteriormente em Sempre ao seu Lado – justificou-se alegando não estar durante as filmagens, e produtores e treinadores trataram de apresentar sua versão da história. O estrago havia sido feito: para terem uma noção, no banco de dados do IMDb, o filme tem uma nota média de 1.8, o que demonstra a ira que a notícia despertou. Mas assunstos extra-fílmicos não devem interferir na apreciação da obra cinematográfica, que é o que farei a seguir.

Baseada no best-seller escrito por W. Bruce Cameron, que adaptou a própria obra ao lado de outros quatro roteiristas, a trama aborda a busca espiritual de um cachorro pelo sentido da vida a partir dos seus relacionamentos com “seus humanos” no curso de quatro (melhor, cinco) reencarnações – você pensava que apenas gatos tinham este privilégio? Assim, ao longo da narrativa, o cachorro batizado de Bailey, mas também Buddy, Tino ou Ellie, todos dublados por Josh Gad (a voz do Olaf em Frozen: Uma Aventura Congelante), aprende e reflete acerca dos problemas de seus donos com o objetivo de compreender sua própria existência, o que na prática cinematográfica traduz-se na combinação de dois subgêneros problemáticos do drama: os de autoajuda e melodrama (ou tearjerker). A razão para isto decorre mais da aplicação da lógica do que de soltar spoilers: para transitar de uma vida a outra, Bailey – como iremos conhecê-lo a partir de agora – precisa “tchamram” morrer, e se Marley & Eu ou Sempre ao seu Lado eram eficazes em arrancar lágrimas, que tal multiplicar a dor por quatro?

Porém, apesar de ter mais semelhanças com os citados acima, a estrutura da narrativa dirigida por Lasse Hallström (dos ótimos Regras da Vida, Chocolate Gilbert Grape e dos medíocres Um Porto SeguroChegadas e Partidas Querido John) aproxima-se de um outro filme canino: Wiener-dog, ainda inédito no país, ao retratar a passagem de Bailey ao longo de vários donos. Da família de Ethan (Bryce Gheisar na infância e K. J. Apa na adolescência), durante o governo de JFK e a crise dos mísseis de Cuba, ao policial da unidade canina Carlos (Ortiz), da estudante Maya (Howell-Baptiste) ao fazendeiro interpretado por Dennis Quaid – cuja identidade na trama sequer é um segredo -, Bailey é uma resposta temporária à solidão imposta aos personagens pela trama, ajudando-os a superar dificuldades familiares ou intrapessoais ou circunstanciais durante sua breve passagem.

Isto é ilustrado com um misto de acertos e erros: de um lado, cenas picaretas como a bagunça inevitável que o cachorro causará durante um evento importante do pai de Ethan, um homem intimamente bom, mas derrotado e frustrado; sequências artificiais em que ele aproxima os donos de interesses românticos; ou passagem em que força um delinquente a confessar seu crime à polícia. De outro, a elegantíssima elipse usada por Robert Leighton para ilustrar o envelhecimento de Ethan através de uma bola de futebol americano ou o lindo enquadramento de Terry Stacey, ao ilustrar a solidão de Carlos isolado na janela versus a cidade de Nova Iorque iluminada no horizonte. E se você notou que os melhores momentos de Quatro Vidas de um Cachorro foram técnicos, acertou: como disse, a mistura de autoajuda e melodrama não desce bem, exatamente pela mão pesada no sentimentalismo de Hallström, um ponto fraco presente até nos seus melhores filmes: o resultado é a típica trama norte-americana que confunde emoção por trilha sonora ou momentos verbal (choro copioso, alegria efusiva) ou visualmente (cenários nublados, pastos ensoladoros) eloquentes.

Felizmente, a narração in off de Josh Gad, que é um ator essencialmente divertido, acrescenta o senso de humor necessário para mitigar os instantes mais grudentos da trama, todos baseados na ingenuidade de Bailey diante do mundo ao seu redor: ao descobrir o “esconderijo” do gato da família ou então ao julgar que os humanos adoram, tanto quanto ele, certos odores.

Não gosto da ideia de boicotar arte – a responsabilidade pelos supostos maus tratos aos animais não é da obra audiovisual, que depois de pronta é uma entidade com vida própria, e sim de quem cometeu abusos na produção, e a habilidade de fazer esta distinção permite-me apreciar as obras de Roman Polanski, Woody Allen, Mel Gibson a despeito do que eles façam na vida privada e profissional -, e por mais que entenda o comportamento dos defensores dos direitos dos animais, o medíocre Quatro Vidas de um Cachorro nem precisaria de muito esforço para desaparecer rapidamente dos cinemas como faz da memória do espectador.

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