Crítica | Terra Violenta

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Existe certo romantismo em enxergar o velho oeste como uma terra de ninguém, destino de forasteiros sem nome ou então lar de xerifes intrépidos destinados a salvar os habitantes de bandidos autoritários que, religiosamente, no nascer ao pôr do sol, enchem de trabalho ao coveiro da região, após sepultarem mais uma viva alma nos tradicionais duelos. Isto sem esquecer de mencionar os índios ou as trocas de tiros sobre cavalos, elementos clássicos de um dos gêneros mais antigos do cinema. Porém, se houvesse sido assim, de fato, certamente não haveria sociedade como nós a conhecemos, ou quem sabe o velho oeste fosse mais parecido com o que é hoje, e o forasteiro somente desejasse cruzar a cidade em direção ao sol ou o chefão da cidade fosse um homem razoável, que refutasse a violência.

É este o mundo de Terra Violenta, um curioso e eficiente faroeste spaghetti revisionista, em que os papéis de mocinho e bandido mantém-se dentro do espectro acizentado do homem-médio. A narrativa conta a história de Paul (Hawke), ou quem sabe este é apenas o primeiro nome que vem a cabeça de um forasteiro que, ao lado de sua cadelinha e cavalo, pretendem atravessar uma cidadezinha esquecida pelo mundo (literalmente) para chegar ao México onde pretende recomeçar a vida. Lá, mete-se em confusão com Gilly (Ransone), o filho do xerife (Travolta), que, entre defender a família ou manter a autoridade intacta, autoriza Paul a seguir seu caminho ileso. Porém, Gilly e seus capangas perseguem-no, matam sua cadela e despertam a fúria de um ex-partícipe do genocídio indígena norte-americano.

Apesar de aparentar ser um antepassado de John Wick, Paul não compartilha características com o citado assassino de aluguel, e mantém-se à sombra da mera intimidação ao ameçar Gilly: “você deveria tomar cuidado para quem aponta uma arma”, uma construção que pode já haver saído da boca de John Wayne ou Clint Eastwood, e que agora é pronunciada relutantemente por Ethan Hawke. Não por demérito do ator, justamente o contrário: a sensação é a de que Paul não é o ex-militar desertor, eficiente e casca grossa que o xerife supõe ser – aliás, ele somente interpreta este papel para os outros -, mas sim um homem envergonhado da própria covardia e que, por causa dela, cometeu algo de que se arrepende e pretende expiar (a sequência de  flashback/pesadelo é significativa para chegar a tal conclusão). A propósito, a reação de surpresa Hawke ao testemunhar o medo do vendedor (“Você tem medo de mim?”) ajuda a situar o personagem dentro do vale da violência do título em inglês onde homens de índole duvidosa orgulham-se do pavor que inspiram nos outros.

É curioso como os capangas do xerife parecem homens comuns, acovardados ao atravessar a rua principal com medo de serem acertados ou que usam a família e a dignidade como escudo de defesa contra um protagonista que nem bem sabe por onde começar a vingança. E é isto que há de mais original no trabalho de Ti West, que acumula tarefas de diretor, roteirista e montador na sua primeira incursão fora do gênero terror: a recusa em acomodar-se aos estereótipos do faroeste, o que explica Paul implorar perdão, voltar atrás, hesitar e matar pelas costas, enquanto o Xerife, um dos antagonistas, coloca-se como o ser mais razoável na produção ao tentar proteger o bem-estar da cidade nem que precise ficar na linha de fogo. Neste caminho, o ataque sorrateiro da gangue de Gilly e a consequente vingança são o que existe de previsível em uma trama que se orgulha de não andar pelos caminhos de sempre.

Isso dentro da redoma confortável do filme de gênero, reempregando, de modo inovador, os elementos narrativos do faroeste spaghetti, e com duas ótimas atuações de Ethan Hawke e, especialmente, John Travolta.

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