Crítica | A Promessa

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Durante e após a Primeira Guerra Mundial, a Turquia exterminou de modo sistemático cerca de 1,5 milhão de armênios herdados do antigo Império Otomano. Seus métodos rivalizariam com aqueles empregados pela Alemanha nazista, com a criação de acampamentos subumanos onde os armênios sadios realizavam trabalhos forçados para montagem de linhas férreas ou a deportação de mulheres, idosos e crianças em direção ao deserto, em verdadeiras marchas da morte em que, eventualmente, pereceriam de fome e sede. É este o terror que o diretor irlandês Terry George (de Hotel Ruanda e vencedor do Oscar) resgata em A Promessa, um melodrama de guerra – uma relíquia em extinção! – que enfia as unhas na possibilidade de ser um novo Doutor Jivago, embora falhe no intento.

Escrita pelo próprio George ao lado de Robin Swicord (de O Curioso Caso de Benjamin Button), a trama inicia-se com a chegada do armênio Michael (Isaac) à Constantinopla, onde habitaria na casa do tio enquanto cursava medicina. Ao final da vida acadêmica, deveria honrar a promessa de regressar à cidade natal e casar com Maral (Sarafyan). Entretanto, Michael apaixona-se pela também armênia Ana (Le Bon), por sua vez, namorada de Chris (Bale), jornalista norte-americano e correspondente internacional, que enxerga na presença de militares alemães em festas da classe abastada da Turquia o prelúdio do genocídio incitado, da maneira mais óbvia que há, mas não menos contemporânea, nas palavras de um General que bem poderia ser Trump ou Le Pen: “Os armênios são um tumor em nosso meio”. Não demora para eclodir a barbárie contra esta população, agredida nas ruas por nacionalistas e expulsa do meio social, viva ou morta.

Da existência idílica de cafés a tarde, de saraus regados a absinto ou do romance com Ana, Michael torna-se vítima da violência absoluta, arrancado da sociedade ao tentar comprar a liberdade do tio, em um drama com o qual é facílimo relacionar-se mesmo por ser atemporal, sobretudo em países ditos civilizados, mas infectados com a febre do ódio étnico. Assim, A Promessa melhora quando enfatiza a crueldade e a violência turca ou até a canalhice em requerer, ao Embaixador dos Estados Unidos (uma participação breve de James Cromwell, de cuja loquacidade sinto bastante falta nas grandes produções), que este interceda junto às empresas de seguro de seu país para resgatar, em benefício do Estado, o seguro de vida dos armênios assassinados. Tão revoltante, por razões distintas, quanto a imagem de uma pilha de cadáveres abandonados a abutres.

De outro lado, a narrativa enfraquece-se quando transporta o enfoque urgente da guerra ao triângulo amoroso vivido entre Michael, Ana e Chris (alô Pearl Harbor), não somente por ser inconveniente – há vidas e toda a existência de uma etnia em jogo –, mas também por ser inconvincente – a reação deles é desproporcional e duvidosa diante do caos instaurado ao redor – e também infantil – basta dizer que há cenas em que Ana limpa a comida do rosto de Michael ou as feridas que este sofrera –, recorrendo até a mentiras de melodramas de segundo calão e a diálogos rasteiros e sem a menor gramatura embora desejem ser relevantes. E Isaac, Le Bon e Bale mostram-se senão constrangidos quando precisam visitar a faceta romântica e indelével de seus personagens.

O desperdício destes talentos nesse triângulo amoroso mostra-se gritante se comparado com cenas que, verdadeiramente, exigem bastante deles, como aquela em que Oscar Isaac desmonta-se, a olhos vistos, em prantos ou o semblante de inquietude de Christian Bale com o destino de órfãos que jurou acompanhar. Mesmo aqui, Bale demonstra ser o melhor ator da atualidade, com uma performance trabalhada em detalhes – repare como o olhar dele permanece desassossegado inclusive em instantes de diversão –, embora o roteiro tente concebê-lo a partir do clichê do jornalista íntegro cuja vida é menos valiosa do que o sigilo da fonte.

Considerando que guerras não acontecem de uma hora para outra, mas são fruto de um processo de evolução prolongado, a montagem de Steven Rosemblum (Coração Valente e O Último Samurai), ao lado da direção e roteiro de Terry George, não encontra o núcleo narrativo para que passagens de tempo de duração certa – vista em letreiros – ou indeterminada não pareçam truncadas, ou melhor, mal planejadas. E repare que o montador erra também na elipse que salta do dia para noite durante a escapada de armênios rumo à praia. Por sua vez, o design de produção de Benjamín Fernández e os figurinos de Pierre-Yves Gayraud têm o trabalho de resgatar o início do século passado, tarefa que cumprem com êxito e competência inclusive quando precisam recorrer a chavões (por exemplo, o uso imoderado do fez ou tarbush, o chapéu típico turco).

Com pequenas participações de atores familiares (Tom Hollander, Jean Reno, Shohreh Aghdashloo ou Igal Naor), A Promessa é bem-intencionado em retratar uma história indispensável, infelizmente desconhecida de muitos e mais contemporânea do que se desejaria e com certo sabor de ineditismo, entretanto, por mais que adoraria ser o Doutor Jivago do genocídio armênio, erra ao preterir este em favor de um triângulo amoroso pueril, que por fim o carrega à vala comum.


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